Em 1936, através do empenho lúcido e combativo de dois autores cabo-verdianos, Baltazar Lopes da Silva e Jorge Barbosa, começou a publicar-se no arquipélago a revista Claridade, fortemente influenciada pelo neorrealismo, então a dar os primeiros passos na metrópole. O movimento cultural-ideológico que o neorrealismo português representou, espalhar-se-ia, com maior ou menor incidência expressiva, por todos os territórios do império colonial e teria influência determinante, através de um grupo de estudantes/poetas que nos anos 1950 se encontrava a residir na Casa dos Estudantes do Império, nas opções estético-ideológicas e na luta das gerações que, a partir da década seguinte, combateriam o poder colonial.
De grande significado político e cultural, para uma global tomada de consciência das raízes profundas, humanas e identitárias dos povos africanos de expressão portuguesa, vivida sobretudo entre jovens intelectuais africanos, foi a publicação, em 1962, do ensaio Tomada de Posição na Literatura de Cabo Verde, de Onésimo da Silveira (nascido em S. Vicente, em 1935), no qual o autor afirma que “a literatura dos seus predecessores não poderia conduzir a uma tomada de consciência das realidades sociais de Cabo Verde”, advogando uma literatura politicamente mais interventiva.
Um país não se mede pelo seu tamanho na geografia do globo, mede-se pela sua capacidade criativa, pelo seu engenho e arte de sobreviver, pelos homens e mulheres que nesse espaço, disperso ou exíguo que seja (um arquipélago, ao caso, disperso no Atlântico, na África imensa), nos conseguem dizer do povo que o habita, da sua singularidade, das dores e dos risos que o erguem na sua humana condição de gente que sabe dos caminhos duros, desesperados, da vida, do clima agreste, do pão escasso mas que, apesar dos pesares, canta, reflecte, escreve, pinta, pensa as formas, quase surreais, de transformar esse chão árido num paraíso possível, tornando lídima a existência nesse espaço rodeado de mar.
Após a independência de Cabo Verde, um país novo e a construir-se, a Literatura, nas suas várias vertentes, deixa pelo caminho algumas das fórmulas da resistência contra o colonialismo para se debruçar sobre a nova condição política de um país novo a querer ter, no contexto das nações, voz própria. A nova realidade de Cabo Verde, a partir de 1975, pede novas abordagens, novas modulações expressivas e sintáticas: é preciso uma outra fala para dizer o novo, para reconstruir outro tempo e erigir a liberdade que está a passar por ali. No caso particular da Literatura, esse país, Cabo Verde, tem o sortilégio de possuir grandes autores como Germano de Almeida, Arménio Vieira (Prémio Camões, em 2009) e, o mais jovem deste grupo, Mário Lúcio Sousa. Na música, o Arquipélago possui vozes de um canto único, no Funaná, na Coladeira, na Morna, de Cesária Évora, a Tito Paris, incluindo nesse lote notável Mário Lúcio Sousa, também ele cantor e compositor de grande talento.
Mário Lúcio Sousa, tem entre nós publicados 6 notabilíssimos romances, todos eles eivados de um pícaro modelar (já antes experimentado por Germano de Almeida), de forte crítica política e de um erotismo extenso e febril (espaço em que a poesia de Arménio Vieira, também se notabiliza). A singularidade narrativa de Mário Lúcio Sousa, manifesta-se de imediato na criatividade provocatória dos títulos dos seus livros: O Novíssimo Testamento – E se Jesus Ressuscitasse Mulher; Biografia do Língua; O Diabo Foi Meu Padeiro; A Última Lua de Homem Grande; O Livro que me Escreveu e o recentíssimo Afrocalípse.
Nestes textos, para além das particularidade idiossincráticas de Cabo Verde, Mário Lúcio mistura um português culto com o crioulo e outros fonemas de lavra sua, para nos dar uma plêiade notável de sons, de vozes consonantes, de hemisférios lúdicos exaltantes, sabendo, nesse laboratório, que é possível tornar essa fala múltipla universal, através de um português de puríssimos matizes, ressonâncias e derivações, utilizando a matriz cultural que essa língua transporta e todos os seus afluentes conexos.
Afrocalipse é, nesse torrencial imagístico da sintaxe e da fonética, um livro que ousa brincar com coisas sérias: a África pós-colonial, mas ainda atada, por compromissos económicos, e à usura dos seus dirigentes, ao cordão umbilical dos colonizadores. Um continente que tarda em emancipar-se, a olhar para as carências do seu povo e a responder ao seu atraso histórico, cultural e económico, num vasto território que possui no seu subsolo riquezas imensas que fazem a gula de todos os predadores, na Europa, nos E.U.A, na Ásia.
Embora a narrativa não nomeei o país onde a acção decorre, o que ela nos revela de um ditador que se perpetua no comando por mais de 40 anos (e nós, portugueses, já vivemos essa dura experiência), neutralizando os concorrentes, enriquecendo para lá do aceitável à custa da miséria do seu povo, o horror das guerras civis que assolam o continente, os genocídios, como no Ruanda, a degeneração social, a fome e o desgoverno que grande parte dos líderes africanos impõem aos seus povos. Mas não se pense que Mário Lúcio de Sousa nos fala de tudo isto de modo circunspecto, sério e panfletário, pelo contrário, o autor, como Gabriel Garcia Márquez de Cem Anos de Solidão, dá-nos uma escrita soberba, poética, plena de humor, pícara e mordaz, dizendo-nos das safadezas do mundo (África, por muitos ditadores que engendre, não está só neste mundo de sabujos e títeres), com um sorriso traquinas.
Afrocalípse, de Mário Lúcio Sousa – Ed. D. Quixote/2026.
