Durante duas horas e vinte minutos, acompanhamos quatro episódios sobre a vida em Cuba durante o regime tirano de Batista. As histórias estão alicerçadas numa voz de narração feminina que humaniza a ilha. “Soy Cuba”, o título, é uma frase recorrente. Não é apenas o separador com que arranca cada segmento, mas o refrão que fica connosco quando terminamos de ver este filme – que só recentemente foi redescoberto pelo ocidente e alguns conceituados cineastas americanos, como Francis Ford Coppola e Martin Scorsese. Não é apenas o que se conta que impressionou estes senhores da sétima arte. É a forma como o realizador move a câmara, filma os corpos em movimento nos seus percursos, sem nunca falhar um enquadramento e a sua respectiva emoção. O centro é o povo cubano.
A mais bela terra oprimida
A pausada voz de Cuba diz: “Quando Cristóvão Colombo desembarcou aqui, escreveu no seu diário: é a terra mais bela que os olhos humanos alguma vez viram.” O que esta obra magnífica aprofunda é o contraste com tal beleza que acontecia na ilha, antes da revolução socialista. Nesses tempos idos, muitos eram os que iam a Cuba pela diversão e à custa da miséria alheia.
Maria trabalha num bar onde é conhecida como Betty. Esconde isto do seu noivo vendedor de fruta. Um americano quer conhecer o sítio onde Maria vive, como se existisse algum exotismo nisso. Fica chocado com a pobreza, e age como se os seus dólares pudessem comprar tudo. A manhã revela a miséria extrema. A narração diz-lhe, perante os olhares dos jovens e adultos que repele: “Porque é que estás a fugir, se vieste aqui para te divertir? Olha! Há casinos, bares, hotéis e bordéis para ti. Mas estas mãos das crianças e dos velhos também sou eu.”
Pedro é um trabalhador que fala com as canas de açúcar. Quer que apanhem chuva e cresçam. Não por si, mas pelos seus filhos. Ouvimos os seus pensamentos: “Antes pensava que a coisa mais assustadora era a morte, agora penso que é a vida.” A sua aspiração é destruída quando o proprietário lhe anuncia que vendeu tudo a uma empresa. Pedro tem de abandonar a sua casa e o seu sustento. Desolado, silencia a dor. Com o último peso que lhe resta, manda os filhos divertir-se. O seu gesto seguinte é acabar com tudo.
“Revolução ou morte.”
É o que se escuta nos dois episódios posteriores. A revolução também acontece entre os estudantes. A marcante terceira história de “Soy Cuba” segue Enrique, um universitário que, numa noite, protege a desconhecida Gloria dos marinheiros americanos. Há uma esperança lançada neste encontro. Porém, os acontecimentos externos são mais poderosos. Anunciam a morte de Fidel. Essa falsa notícia, lançada pelo ditador para confundir a população, tem de ser desmentida. Os estudantes trabalham clandestinamente nesse sentido. “Fidel vive!” lemos nos panfletos que voam pelo céu e caem nas ruas, depois da polícia exercer a sua violência extremada. “Viva a liberdade. Abaixo a tirania!”, gritam. Já antes, um dos jovens respondera ao polícia sobre um livro de Lenine que este encontrou: “Quem nunca leu este livro é um ignorante.” Fidel e os outros rebeldes estão na Sierra Maestra a fazer luta armada. Cuba fala: “Os homens quando nascem têm dois caminhos, ou se tornam escravos daquilo que os oprime, ou iluminam o seu caminho; e, caso caiam pela justiça, milhares de outros se erguerão de seguida.”
No desfecho, vamos para as montanhas. Os opressores procuram Fidel Castro. Cada guerrilheiro responde com “Eu sou Fidel.” Fora de tudo isto está Mariano, que vive com a família ali perto. Não aceita a revolução com armas. Mudará de opinião ao perceber que a opressão do outro lado é letal para os que ama.
Cuba vive um embargo total desde 3 de Fevereiro de 1962.
