Para além do território próprio da literatura, estes textos de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal inscrevem-se no vasto território, pelo seu didactismo e factual passagem de testemunho, da intervenção solidária e política que o PCP, junto com outros partidos da esquerda europeia, teve na luta armada contra a besta fascista. Tanto em Cinco Dias, Cinco Noites, como em A Casa de Eulália, os padrões comportamentais dos comunistas, como fundadores de um humanismo de tipo novo, de uma atitude coerente, racional, dialéctica, interventora e crítica sobre os mecanismos da história, estão claramente assinalados e definidos, mesmo quando neles transparece a análise política, em sua absoluta crueza, do que esteve na origem do conflito e das forças reacionárias que lhe deram suporte, descendo ao cerne das questões centrais da luta contra a barbárie capitalista que ainda hoje – diria, sobretudo hoje – devem acometer o debate ideológico da Esquerda.
A Casa de Eulália, é uma narrativa pungente sobre o início das atrocidades contra a República espanhola. Manuel Tiago traça, de forma exímia, as coordenadas históricas desses dias de brasa. Regressando, como em Cinco Dias, às suas memórias de juventude, enquanto funcionário do PCP, enviado a Madrid para tratar da libertação de comunistas presos ao passarem a fronteira. Essa passagem está descrita, de forma clara, na diegese desta novela: Precisamente em Huelva estavam os dois camaradas que há uma semana tinham sido presos pela Guardia Civil, apanhados ao passar clandestinamente a fronteira pelo Guadiana. Ali em Madrid estavam procurando que a intervenção dos camaradas espanhóis conseguisse que o Governo os libertasse para regressarem a Portugal. Ele próprio teria que tratar da passagem.
Se Cinco Dias, Cinco Noites, nos fala da viagem acidentada do jovem funcionário do PCP até à fronteira, dos seus perigos e acidentes, A Casa de Eulália, diz-nos da morte em toda a sua crueza e desumanidade, o viva la muerte, do fascista José Millán-Astray, levado ao extremo da ignomínia. A morte que António observa nos descampados áridos que o sol inclemente seca – campos onde nada há, a não ser o instinto animal dos chacais: “Si no hay nada que les pueda servir por qué iban a hacernos dãno?”. Mas os franquistas, aperrados a um ódio visceral e sem sentido, não se prendem a questões de pormenor: tudo o que cheire a povo, mesmo pacífico e sem qualquer ligação partidária à República eleita, é para abater: Viva la Muerte! Cunhal expressa neste livro dois sentidos em tudo antagónicos: os que apenas tinham a morte como razão e a destruição das liberdades sociais e políticas como objectivo, e os que lutavam para defender a Liberdade conquistada e queriam, com o risco supremo de perder a vida nesse empenho, vencer o fascismo, vencer a morte e tornar digna a vida.
Da galeria de personagens desta narrativa, sobressai Eulália, como símbolo de coragem, de determinação e combate, companheira omnipresente nesses dias do medo; Eulália, com a graça do dentito torto.
Os discursos narrativos de Cela 3, Até Amanhã, Camaradas, A Casa de Eulália, Estrela de Seis Pontas, Os Corrécios e Cinco Dias, Cinco Noites (para nos limitarmos aos títulos mais significativos da ficção de Manuel Tiago), balançam entre o passado (a resistência, a fuga, a repressão, a vida numa prisão de delito comum – Estrela de Seis Pontas, no qual o autor exibe um estilo fortemente realista para descrever os crimes daqueles homens, vítimas também da repressão e da desumanidade do sistema capitalista -, as sevícias da PIDE, a vida na clandestinidade, a heroicidade dos republicanos e das brigadas vermelhas durante a Guerra Civil em Espanha, nas quais os comunistas e outros antifascistas portugueses também participaram: no assalto ao Quartel da Montaña e a Carabanchel, em Madrid, no Guadarrama, em Somossierra, e durante o cerco e os bombardeamentos dos nazi-fascistas italo/alemães.
Assim, os livros de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal narram os percursos difíceis, sinuosos, heróicos, altruístas e abnegados, também de pequenas traições, que espelham as angústias, os medos, os sobressaltos de um punhado de homens e mulheres que, num tempo de estupor e de absurdo, souberam resistir. Uma escrita onde as palavras se erguem justas e certeiras para testemunhar combates, avanços e recuos de uma epopeia colectiva, inscrita na coragem, nos silêncios mordidos, na clausura e na esperança de ambos os povos, de um e de outro lado da fronteira – na certeza, que é uma forma de optimismo, de que, face à vida e às circunstâncias geradas pela luta e ao devir histórico, melhores dias virão.
Cinco Dias, Cinco Noites e A Casa de Eulália, de Manuel Tiago – Edições Avante!
