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“Aprender”: como uma escola transmite a liberdade, a autonomia e a confiança

O verbo aprender implica uma miríade de acções: saber, compreender, educar-se, adquirir domínio numa matéria, estudar. Aprender, o novo filme de Claire Simon, em exibição nas salas de cinema, revela o mundo das crianças, de um ponto de vista da escola, numa instituição de ensino nos arredores de Paris.

É um documentário que abre o espectro dessa actividade fulcral da existência humana — o acto de aprender ligado à autonomia dos mais pequenos na sua relação com os outros, seja os colegas ou os professores.

O olhar da realizadora é de respeito, espera e atenção a tudo o que envolve a vida pedagógica das crianças. Como a própria refere em entrevistas, o que se passava entre elas era mais importante que a presença da sua câmara. Por isso, estes pequenos estão sobretudo focados nas actividades e relações que desenvolvem no período escolar.

A tolerância também se aprende

Não sabemos se este estabelecimento de ensino é um modelo. O que sentimos é que os docentes (director incluído) se esforçam por passar certos valores aos que estão a crescer. Tais valores passam pelas ideias fulcrais de tolerância e liberdade. Vemos estas crianças a debater em grupo (quase de modo filosófico) sobre questões religiosas, por exemplo: “Devemos fazer tudo o que uma religião nos pede?” É uma das perguntas que a professora lhes lança. As crianças têm as suas opiniões – exprimem o que pensam. As opiniões divergem. Faz parte da aceitação do ponto-de-vista do outro.

A imaginação, a criatividade e a arte são outros pilares deste “aprender”. Os alunos não só aprofundam o seu espírito crítico, como os vemos a ler individualmente em silêncio, a desenhar e a tocar instrumentos num ensaio colectivo.

A formação de uma pessoa começa na infância. O que implica ainda, como vemos no filme, o respeito pelo outro, seja em sala de aula ou no recreio. Os professores não deixam de estabelecer regras e limites; de chamarem a atenção para aqueles que saem da sala para andar pelo exterior. “Lá dentro aprendes mais do que aqui”, diz com tranquilidade uma professora a um menino que sai sem dizer nada da sua aula e anda a vaguear pela escola.

Jogar e brincar são outros dois verbos que se conjugam em Aprender. As crianças fazem as suas brincadeiras no pátio, nos intervalos. Jogam à apanhada, jogam futebol. Estabelecem as suas regras, mas também sabem que têm de ser tolerantes e justos uns com os outros. Quando se chateiam, há que pedir desculpa, sem partir para a violência. Como lembra uma das professoras a um grupo que está no recreio, futebol não é wrestling.

A concentração e o desafio de jogar

Nas salas de aula também se joga às damas. As damas são um jogo de concentração estratégia e paciência.” E os petizes escutam a professora, enquanto tentam ganhar mais peças. Ganhar ou perder faz parte do desafio de aprender. Ficamos contentes com quem perde, porque lutou até ao fim., diz-lhes a docente.

As crianças cantam canções em que a letra apela à confiança. As crianças praticam desporto. Fazem desfiles nas ruas com máscaras de animais. Escutam a leitura do mito de Orfeu. Imitam os professores no faz-de-conta do recreio, numa “aula” de matemática. Estes pedagogos sabem que educar é aprender, e que aprender envolve todas as actividades do corpo e do espírito. Estão a formar os cidadãos do presente e do futuro. E estes meninos gostam de ali estar. Sente-se isso, independentemente dos seus contextos familiares. Há muita coisa no que nos revela o filme “Aprender” que lembra a Voz do Operário, enquanto instituição comunitária e de ensino.

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