Voz

Psicologia

Dar voz ao que sentimos: conversar para crescer

A escola é muito mais do que um lugar de aprendizagens académicas. É também um espaço onde crianças crescem, constroem relações, aprendem a conhecer-se e a lidar com aquilo que sentem. Foi dessa convicção que nasceu o Projeto das Conversas, desenvolvido pela equipa de Psicologia d’ A Voz do Operário, em articulação com educadoras, professores, monitores e auxiliares.

Presente nas várias valências da instituição, o projeto faz parte do quotidiano das salas e das turmas e acompanha os alunos ao longo do seu percurso escolar. Através de momentos de partilha e reflexão, procura criar espaço para falar sobre emoções, fortalecer relações e promover o bem-estar, num trabalho de prevenção que atravessa diferentes idades e contextos.

Na creche, onde se constroem as bases do desenvolvimento sócio-emocional, o trabalho passa sobretudo pelo apoio aos adultos de referência, ajudando-os a interpretar, validar e responder às emoções das crianças. No pré-escolar, a abordagem torna-se mais estruturada: as crianças começam a reconhecer o que sentem, a nomear emoções e a encontrar formas de lidar com os primeiros conflitos, com recurso a histórias e atividades que favorecem a expressão emocional.

No 1.º ciclo, o projeto adapta-se às necessidades e curiosidades de cada grupo. Em estreita articulação com os professores, promove momentos de reflexão sobre temas como a amizade, a autoestima, o respeito pela diferença ou outras questões trazidas pelas próprias crianças. Jogos, dramatizações e livros tornam-se ferramentas de trabalho que ajudam a pensar, a escutar e a partilhar.

No 2.º ciclo, surgem novas perguntas e desafios. A pré-adolescência traz temas mais complexos, como a pressão dos pares, a autoimagem, a influência das redes sociais ou a necessidade de pertença. Foi nesse contexto que nasceu o projeto Psicoconversas, nome escolhido pelos próprios alunos. Ao longo do ano, os encontros abordaram temas ligados à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, mas também assuntos sugeridos pelos jovens, como racismo, xenofobia, machismo, relações amorosas ou a dificuldade em lidar com pessoas de quem não se gosta. Pelo meio, houve debates, jogos cooperativos, dinâmicas de troca de papéis e momentos em que as emoções se cruzaram com as disciplinas, falando-se, por exemplo, da ansiedade na Matemática ou do medo do futuro em História e Geografia de Portugal.

Uma das marcas deste trabalho é a presença da psicóloga dentro da sala de aula, próxima dos alunos e dos desafios do dia a dia. Mais do que responder a dificuldades já instaladas, o objetivo passa por atuar de forma preventiva, promovendo competências socioemocionais, relações saudáveis e a prevenção de situações de bullying.

Dar voz aos alunos está no centro deste projeto. As crianças reconhecem estes momentos como espaços seguros, onde podem falar sobre aquilo que sentem sem receio de julgamento. “Gostamos muito de fazer as atividades sobre as emoções” ou “A psicóloga ajuda as pessoas” são algumas das frases que mostram a importância que atribuem a estas experiências. E, mesmo quando crescer significa aprender a esconder o que se sente, a criação de um ambiente de confiança continua a abrir caminho a partilhas profundas e inesperadas.

N’ A Voz do Operário, a promoção da saúde mental é entendida como uma responsabilidade partilhada entre psicólogos, educadores, professores e famílias. Esse trabalho conjunto permite acompanhar melhor cada turma, prevenir dificuldades e dar continuidade, no quotidiano, às estratégias construídas em contexto escolar. Porque educar não é apenas ensinar conteúdos: é também ajudar cada criança e jovem a compreender o que sente, a relacionar-se com os outros e a crescer de forma mais consciente, equilibrada e feliz.

Artigos Relacionados