O que significa terem aqui os vossos filhos? Que significado tem A Voz do Operário nas vossas vidas?
Filipe Sambado (FS) — A Voz do Operário já tinha um significado relevante na minha vida, no sentido mais politizado. Também pela proximidade geográfica. Por morar aqui já ao lado, quando engravidámos, em casa, foi imediatamente a primeira hipótese. Tivemos a sorte de termos conseguido um lugarzinho para a Celeste e temos tido uma boa experiência neste âmbito escolar, que tem um lado muito familiar. Então, é muito fácil conviver aqui e confiar na escola.
Joana Barrios (JB) — Para mim, foi uma escolha óbvia no início do percurso seletivo oficial. Ou seja, do primeiro ano. Entretanto, meteu-se a pandemia, nós ficámos um bocado apavorados, não sabíamos muito bem o que é que havíamos de fazer. E não sabíamos como é que iam ser as nossas vidas profissionais. Não sabíamos se seria possível manter o pagamento de uma mensalidade, por exemplo. Na verdade, inscrevi os meus filhos, mas depois não concretizei, até porque era longe de casa, e havia escolas públicas perto. Achámos que seria uma coisa mais defensiva, uma vez que estava previsto que as crianças passassem muito mais tempo em telescola e, ao fim de ano e meio, percebemos que a aquisição de conhecimentos era difícil, e que havia uma vigia muito grande no espaço partilhado das crianças, e isso começou a deixar-me muito ansiosa, até porque eu vivo em comunidade, trabalho em comunidade.
Precisamente por isto, numa altura em que se começou a sublinhar muito o peso do ser individual, o peso de uma relação com a tecnologia, o peso de uma coisa muito afunilada para um culto do indivíduo, nós pensámos, este sítio [A Voz do Operário] tem de ser o lugar para onde as crianças vão. Porque aqui, para além de andarem todos ao molho, fazem coisas em conjunto, trabalham em grupo, aprendem tudo o que faz parte de uma formação académica, que é aquilo que os pais querem, mas sobretudo vão brincar uns com os outros. A Celeste ainda é mais pequenina, mas os meus são um bocadinho maiores, e há muitas coisas que fazem parte, por exemplo, a resolução de conflitos, a resolução de questões do dia-a-dia, que os prepara muito para aquilo que será uma vida futura. A ideia de haver um conselho de cooperação, a ideia de haver, a partir do quarto ano, uma integração dos miúdos já no segundo ciclo, através de trabalhos que fazem parte das duas comunidades, os acantonamentos, tudo o que tem a ver com momentos de festa, de celebração, tudo isso para mim é muito importante.
Eu como não sou da cidade, sou do campo, para mim isto é a coisa mais parecida que existe com o campo. Apesar de ser uma escola gigante, eu gosto deste ambiente muito familiar, de a gente conhecer as pessoas desde que entra à porta até que sai da escola, gosto da abertura que existe, e isso é uma coisa para mim fundamental, a participação dos pais em todo o tipo de atividades, gosto da abertura que existe para que as crianças possam trazer aquilo que as motiva e apaixona, e que isso se torne um objeto de trabalho dentro da sala e em contexto escolar, portanto gosto muito do equilíbrio existente entre este lado menos formal e tudo aquilo que faz parte da formação.
E o que sentiram quando receberam o convite para serem padrinho e madrinha da Marcha Infantil?
FS — Eu não hesitei. É daqueles convites que não podes não aceitar. Recusei um concerto, porque já me tinha comprometido. É um compromisso que tem data e hora marcada, mas tudo o resto é para levar com o maior bom gosto e leveza.
JB — Vou ter um final de mês de maio absolutamente de gritos, porque vou andar para trás e para a frente. Tenho um espetáculo no Porto e vou ter de vir a Lisboa para a apresentação [no Pavilhão Atlântico].
A Voz do Operário decidiu levar este ano o tema da diversidade à Avenida da Liberdade. Como é que olham para essa escolha?
FS — É super importante falarmos sobre estas coisas e assumir essas temáticas. É muito importante. E observando os últimos desenvolvimentos políticos, no mundo, e cá, de forma muito violenta também, até pelo simples facto de agora não podermos ter bandeiras ideológicas.
JB — Mas eu acho que nós pertencemos a uma bolha muito privilegiada de pensamento, sobretudo, onde o tema da diversidade é uma coisa que não é um tema. E isso é uma grande felicidade. Daí também um bocado, às vezes, o encolher de ombros quando a pergunta surge. Não é por mal. É porque é uma constante. É importante nós termos também um bocado da consciência do quão simbólicos são estes momentos para quem não vive dentro da urbe, não faz parte dos grandes centros e para quem isto não é uma coisa constante.
Acham que é importante as crianças falarem e aprenderem sobre isto?
JB — A diversidade é algo que faz parte do nosso dia a dia. É muito afunilado e muito estanque quando se quer munir o discurso do que é a diversidade com uma só visão. Mesmo entre as pessoas que acham que são todas iguais e que pertencem a uma norma, essa norma não existe. Depende sempre do contexto. Eu acho que, mais do que oferecer respostas, isto levanta muitas questões. E eu acho que quando as crianças chegam a casa com perguntas é muito bonito tu perceberes que essas perguntas vêm de um sítio ou de conhecimento ou de desconhecimento, mas que já vêm delas, que elas próprias já querem saber.
FS — E olha que as crianças daqui também vivem numa bolha bastante privilegiada nesse sentido. Nós temos aqui espaço para vários tipos de expressões. A minha sobrinha, que anda também aqui, é uma pessoa com uma expressão queer e tem só sete anos de idade e é aceite dessa forma. Vai vestida com a roupa feminina da marcha e esse espaço existe e essa aceitação existe pelas outras crianças.
Nem que seja por isso, será recordado por todas as crianças.
JB — Mas sabes que eu acho que a maior recordação é até anterior a estas coisas, a esta construção toda. É uma coisa muito divertida quando tu olhas para as crianças a dançar e a cantar e a ouvir música e a deixar que aquilo tudo aconteça nos seus corpos. Tu percebes que aquelas pessoas pequeninas estão todas ali super felizes e aquilo é um momento em que, mal ou bem, ninguém está a criticar. Claro que há escaramuças e que eles se irritam mas estão todos a convergir para uma coisa e saem todos daqui super bem dispostos. Os meus chegam a casa felicíssimos e às vezes tu pensas que vêm mortos de cansaço e é exatamente o contrário. É muito fixe isso.
Sentem que a Voz, de certa forma, é uma escola de resistência?
FS — Sim, sim. Dentro do espetro pedagógico, nem que seja por se distanciar de uma lógica industrializada do ensino, tendo a pedagogia da escola moderna e só isso já radicaliza bastante.
JB — Acho que a coisa mais interessante aqui é o foco não existir na produtividade, numa lógica de a aprendizagem e o tempo terem de ser sempre produtivos porque isso também permite à maior parte das crianças poder expandir e explorar o conhecimento de outra forma.
Aqui tenta estimular-se o crescimento com base na ideia de que quanto mais unidos formos, também na diversidade, somos capazes de ir mais longe.
JB — Sim, como dizia o Filipe, é uma forma muito bonita de tu perceberes que respeitando as idiossincrasias individuais, todas estas crianças conseguem conviver de uma forma muito fixe. Acho que das coisas mais bonitas que há é olhar para o coro numa festa de Natal, sendo que mais de metade da comunidade escolar certamente não será religiosa.
Mas ainda há outra coisa que eu acho muito importante quando se fala em marchas populares e se pergunta aos padrinhos, especialmente quando são figuras de visibilidade, se estamos chateados com a gentrificação. Há quem diga que as marchas são chatas ou que são reacionárias mas temos sempre de pensar que se não apoiarmos ou se não usarmos parte do nosso tempo individual para estas atividades de conjunto que ainda fazem com que as pessoas se juntem todas em torno de uma coisa comum, que pode ser uma marcha, nada do que é comunitário irá prevalecer. Portanto, cada vez que tu tens uma marcha infantil ou que tens crianças envolvidas numa coisa destas mais ligadas ao bairro estás a contribuir para que isto não morra porque eu acho que cada vez que se perde alguma destas coisas perde-se muito da nossa identidade coletiva.
