A inovação e a qualidade das companhias nacionais e vinda um pouco de todo o mundo são notórias. Tudo é possível de concretizar, e a imaginação funciona para um percurso que alia a exploração de uma técnica específica ao aprofundamento da ideia central que está na origem de cada projeto. Não é possível falar de um mês inteiro de magia. Fica um resumo de alguns momentos.
A guerra civil espanhola e um circo macabro
Comecemos por “Viva!” La Loquace Compagnie, formada por um duo franco-espanhol, fez a sua estreia com um espetáculo que se debruça na história pessoal dos avós de um dos artistas. Tudo acontece durante a guerra civil espanhola, quando as pessoas em Espanha tiveram de tomar posições. Recuamos 50 anos através de um teatro de objectos centrado numa secretária, onde os artistas vão revelando os dois pontos-de-vista do casal. Papéis coloridos, lápis, agrafos, fita-cola e pastas de arquivo transformam-se em presos políticos, sonhos que se desfazem e segredos revelados. Estes objectos quotidianos ganham vida; e, à verdade política de um país na iminência da ditadura franquista, junta-se a narrativa de tentativa de libertação da avó, María, que termina da pior maneira. A imaginação junta-se à dureza de uma realidade familiar e social.
Stereoptik. É fundamental não esquecer este grupo criado em 2008 por um músico e um artista plástico. Os seus espectáculos são literalmente construídos ao vivo, ou seja: o processo é a narrativa que a cada actuação contam. São momentos de grandiosidade. Tudo é possível naquilo que a dupla apresenta, e que se projecta numa tela gigante (neste caso do Teatro São Luiz). O ano passado trouxeram “Antichambre”, desta vez apresentaram “Dark Circus”, um espectáculo que articula artes visuais, marionetas, desenho, teatro e música. São geniais as ideias e a passagem destas entre as várias modalidades técnicas, ao mesmo tempo que contam com humor a história de um circo onde as coisas não correm como o esperado. É um universo visual e sonoro sofisticado, que surpreende a cada gesto que se vai definindo perante o olhar dos espectadores.
As alterações climáticas
e Dostoiévski
Das dimensões grandes também passamos para as dimensões pequenas com espectáculos como o que o principal teatro de marionetas de Lubliana (Eslovénia) trouxe. O público senta-se em torno de uma mesa de trabalho; e é aí que os cenários vão sendo colocados, juntamente com as figuras que as artistas desenharam minuciosamente e que vão representando gestos e mudanças de comportamento conforme a história se vai desenvolvendo. São figuras impressas em três dimensões, que lembram os pequenos bonecos em plástico com que brincávamos em criança. As sombras que são feitas com pequenos holofotes têm um papel importante, dando a sensação de que pode não ser bom presságio a floresta dar lugar a uma área residencial. Dois borrifadores acompanhados pelo som conseguem transmitir a chuva que se tornou incessante sobre as habitações que, entretanto, foram construídas. Entramos dentro dessas “casinhas de bonecas”, focando-nos na representação da gravação que estamos a escutar desde o início. Um testemunho de como as alterações climáticas e a cegueira humana têm consequências devastadoras. O minúsculo das formas ganha grandiosidade através da realidade que nos vai sendo revelada.
A companhia Karyatides também é “da casa” no FIMFA. Irá com certeza regressar, uma vez que a sua missão é transpor para o mundo das marionetas clássicos da literatura. Em 2024, apesentaram “Os Miseráveis”. Este foi o ano de Dostoiévski, com “Crime e Castigo”, numa adaptação genial, que aborda a obra como um teatro musical. No palco, dois intérpretes vão animando os protagonistas através de figuras de madeira, gesso, resina, bonecos de tecido e objectos variados.
Portanto, nada é impossível no marionetismo. É uma revelação ver, escutar e sentir um espectáculo de formas que se animam à nossa frente. De facto, outros mundos fossem possíveis.
