Seria poético dizer que na guerra não há vencedores, só vencidos. Mas isso não é verdade. Claro que há vencedores. Sempre houve vencedores. Se não houvesse vencedores já tinham acabado as guerras. Esses vencedores não são é «a Rússia» ou «a Ucrânia» ou «os EUA» ou «Israel». São classes e camadas concretas dentro dos países em guerra e até nos países fora da guerra mas nela intervindo indirectamente. Por exemplo, Portugal não participou directamente na Segunda Guerra Mundial, mas vários cidadãos de bem ficaram ricos a especular com os escassos alimentos ou a fazer negócio com a Alemanha Nazi, isto enquanto o povo português rebentava de fome. É o mercado, como diriam os agora modernos liberais, e a Alemanha Nazi pagava melhor as conservas que o preço que o empobrecido povo português podia pagar.
Há uma primeira dimensão de vencedores que não pode ser ignorada: a indústria bélica. Nos países onde ela está privatizada – como os EUA – são evidentemente não só um importante conjunto de indivíduos que objectivamente ganham com a guerra, como também evidentemente são uma força pela promoção da guerra. Num sistema eleitoral completamente anti-democrático, onde ganha quem reunir maiores apoios económicos, um negócio que distribui milhões de milhões de euros em dividendos é um actor eleitoral de peso, contribui decisivamente para a eleição ou não eleição daqueles que depois têm que fazer ou desfazer a guerra.
Os especuladores são uma segunda dimensão de vencedores. Há uns valentes anos esta era uma actividade mal vista, amaldiçoada em todos os Livros, e que podia custar a pele àqueles que se aproveitavam das crises e da necessidade dos países e dos povos para açambarcar e especular. Agora esse é o modelo de sociedade em que vivemos. O mercado liberalizado é a legalização – quase o eudeusamento – de muitas das piores práticas dos sistemas anteriores. Veja-se o que está a acontecer com o preço dos combustíveis – e vejam-se os lucros perfeitamente escandalosos das petrolíferas. A Galp, nos primeiros três meses deste ano, aumentou a margem de refinação de 6,9 para 14,8 dólares por barril, ou seja 115% de aumento da margem de refinação, da margem, ou seja, daquilo que aplica em cima do preço do petróleo e dos custos de produção. Só na refinação (depois ainda há as margens para o transporte, para a distribuição e para a exploração comercial). Isto é pura especulação. É a Galp – e os seus accionistas – a aproveitarem a guerra para roubar os motoristas, as empresas de camionagem, os agricultores.
O mesmo acontece com o preço de venda ao público do combustível: os idiotas úteis (úteis a quem lhes paga) dos deputados do CH e da IL bem insistem na Tese que o problema são os impostos, que pagamos muitos impostos, o Ministro das Finanças (também muito útil aos mesmos “donos disto tudo”) afirma peremptório que o Estado não tem que limitar preços, só deve mexer nos impostos, mas depois quem estudar o preço do combustível vê toda a especulação nele contida.
Para se ter uma ideia, olhemos para o preço do gasóleo: Hoje, 24 Abril, está a 2,086 € na bomba da Galp. O preço de referência decidido pela ERSE é de 1,716 €, ou seja, pode-se vender com lucro a 1,716 €. Primeira conclusão: há uma margem de 37 cêntimos acima do preço de referência. Essa margem é ela própria superior ao que se paga em ISP (0,29 €) ou o que se paga de Taxa de Carbono (0,17 €). Se tivermos em conta que o preço de referência já inclui um conjunto de elementos especulativos (desde o recurso ao índice de Platt à interiorização das margens especulativas da refinação e ainda inclui parcelas fictícias no frete), e que só a especulação na refinação denunciada no parágrafo anterior se reflecte nuns 10 cêntimos por litro, vemos como o que se paga de impostos (ISP e TC) é igual ou menor que as margens especulativas aplicadas pela Galp. E nesta conta nem se teve em conta o efeito especulativo sobre a produção e transporte, sobre o próprio preço do petróleo, que nada tem a ver com custos de produção, e tem hoje um efeito não menor que o impacto do IVA, o outro imposto que se paga, e que no caso das empresas é no essencial devolvido.
Há ainda uma terceira dimensão de vencedores: o (neo)colonialismo e todos os que beneficiam do colonialismo. A guerra destrói o aparelho produtivo dos países que se quer submeter. Enfraquece-os, torna-os dependentes. E reforça o aparelho produtivo das grandes potências e o mercado pra o qual vendem. Contribui, junto de um conjunto de outras políticas igualmente agressivas, (como sejam sanções, bloqueios, golpes de Estado, criação e financiamento de partidos políticos ou ONG), para submeter o poder político desse país, colocando no poder uma burguesia de tipo «comprador», ou seja, que faz a sua riqueza através da posição de intermediário entre, por um lado, as multinacionais ou os Estados estrangeiros, e por outro, a população e as empresas locais. A guerra serve não apenas para tentar obter esse resultado no país atacado, mas serve como mecanismo de pressão sobre todos os outros países.
A vitória da indústria bélica representa ainda o desvio de recursos que podiam ser colocados ao serviço da humanidade e da resolução dos problemas da humanidade. A vitória dos especuladores afecta, sangra, toda a economia. E a ascensão de burguesia tipo «comprador» ao poder de um país tem o efeito destrutivo que podemos ver no nosso.
A defesa da paz e do desarmamento mundial, a nacionalização dos sectores estratégicos e a defesa de uma política patriótica, não são medidas especialmente revolucionárias – não socializam a economia, não exigem a entrega do poder aos sovietes.
São quase medida de higiene e autodefesa, porque, e desdizendo o carácter absoluto de uma frase já usada neste artigo, um mundo conduzido pelos seus piores instintos pode dar o passo para a única das guerras onde de facto não há vencedores: a guerra termonuclear que extinguiria a Humanidade.
