Num tempo assim, de desnorte e do “salve-se quem puder”, ainda é licito festejarmos com júbilo, com genuíno sentimento de orgulho, intuindo que “nem tudo está perdido”, um homem que vem à praça, erguendo a face e afirmando, sem tibiezas, ser Comunista e nos diz das razões dessa condição, mesmo sabendo que o país mudou, que os ventos que sopram são adversos a essa postura frontal e viril de dizer “sou comunista”, em chão minado e onde germina o ranço do mais sórdido liberalismo e a usura campeia.
Pedro Tadeu teve essa coragem, rompeu os cercos do cinismo, do bolor de antanho que volta a invadir a cidade e a tentar sufocar-nos e veio dizer-nos o porque e o que é ser comunista hoje, enumerando passo a passo essa postura crítica, as razões de o ser e o compromisso cívico, humano e intelectual a que esse posicionamento obriga. O Eu que o autor, de modo inteligente e didáctico, transforma num Nós, numa razão colectiva e premente: num conceptual compromisso com o Futuro.
“Sou comunista”, mesmo que essa frontalidade, esse modo de ser íntegro e solidário, implique engulhos e rombos na fazenda, sabendo que a dignidade é mais forte que os sofismas, que a habilidade de tecer paralogismos para enganar incautos.
Pedro Tadeu, conhecido e respeitado jornalista, comentador político nas tvs, o que o torna uma figura mediática, próxima do “grande público”, assumindo nessa função o contraditório do discurso oficial e purulento que a maioria dos seus pares debita, função hoje rara na comunicação social, num país [ainda] democrático, onde essa prática deveria ser normal e não, como é, uma excepção olhada de revés. Os que nos media burgueses ainda conseguem espaço para remar contra a maré dos dias ignaros, estão vivos, atentos e escrevem Sol!, ao contrário de outros que andam em busca de pretextos e de armas que lhes adornem os dentes e a bandoleira, aos gritos desesperados de “viva lá muerte”, recuperando a frase sinistra do assassino fascista Millan-Astray, com a envolvente retórica dos dias de hoje.
O subtítulo desta importante obra de Pedro Tadeu, confissões de um jornalista burguês, remete-me para um famoso poema de Mário Cesariny, no qual o poeta nos diz “burgueses, todos somos burgueses”, desenvolvendo no texto a ideia de que devemos romper com as regras, com toda a ganga que nos atrapalha os dias e inferniza a vida, concluindo que “o importante é não se ser burguês”, apesar das origens.
Pedro Tadeu, logo nas primeiras páginas do livro, numa espécie de Prefácio, coloca a interrogação central que desenvolverá com lúcido detalhe ao longo das mais de 170 páginas: “Porque sou Comunista no século XXI?, respondendo: “o processo começou em criança, à medida em que me fui apercebendo que o mundo, da forma como estava contruída a sociedade humana, era uma máquina de produção constante de injustiças” (p.7). São 26 as questões que o autor se coloca e às quais irá responder de forma dialéctica, pormenorizada e clara ao longo do texto. Em resposta à questão, Porque os Comunistas não gostam de culpar indivíduos, responde: A ideia de culpar indivíduos do passado por episódios terríveis da História tende a esconder o problema da questão social que na verdade criou as condições para que esses indivíduos cometessem, no julgamento do nosso tempo, esses actos horrendos, numa análise que branqueia regimes e sistemas políticos”, o que nos remete, por sua vez, para a passagem do Manifesto do Partido Comunista, que encima o capítulo: A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes.
O processo jornalístico de colocar questões a que o próprio Pedro Tadeu responde é eficaz, fazendo-o numa linguagem directa e envolvente, tornando o discurso acessível e de agradável leitura, ao qual o público menos versado em questões políticas e ideológicas (o ideário marxista é complexo para iniciados), acederá com facilidade, dada a forma simples e objectiva do modo narrativo do autor, que não recorre a jargões nem a códigos academizantes, aos quais alguns autores do tema em análise recorrem, daí o êxito editorial que o livro tem obtido.
Termino este texto com mais uma das pertinentes questões levantadas por Pedro Tadeu: Porque os comunistas são antifascistas, e a resposta do autor é precisa e muito actual: Se a sociedade aceitar que o regime do Estado Novo era fascista, está apenas a confirmar a definição que lhe deram inúmeras pessoas que viveram esses tempos, nomeadamente as vítimas da ditadura salazarista: os mais de 30 mil presos políticos, os cerca de 200 assassinados por motivação política, , os presos e mortos do campo de concentração do Tarrafal, os milhares de torturados em interrogatório, os políticos de vários quadrantes que tentaram a oposição à ditadura, os que nas colónias lutaram pela independência dos seus países, os soldados que foram fazer a guerra colonial e os inúmeros cidadãos anónimos, ainda vivos, que se lembram bem do que aquilo era. (p.121).
A História dos últimos cem anos portugueses passa por este livro, por esta análise arguta e séria, não dogmática, baseada na razão de ser, da acção, da luta e do modo de entender os complexos fenómenos sociais, políticos e humanos do nosso tempo, a partir das “confissões”, do discurso assertivo, fluente e justo de um comunista. Um livro indispensável!
Porque sou Comunista – Confissões de um jornalista burguês – Edição Zigurarte/2025.
