Os vírus são pequenos agentes infecciosos com capacidade patogénica (susceptíveis de originar doenças) em uma ou mais populações de animais. A sua diversidade é vastíssima e a sua origem biológica é alvo de várias hipóteses ainda por confirmar, remontando, no entanto, a um tempo tão primordial como a origem de toda a vida na Terra. Chamar novo a um vírus é apenas uma expressão que deriva do nosso conhecimento do mesmo, uma vez que é provável que seja tão velho como a vida no nosso planeta, que terá acontecido algures no tempo há 3,2 mil milhões de anos.

Ao contrário de outros agentes patogénicos, como as bactérias, os vírus não são considerados, em geral, microorganismos vivos uma vez que apresentam estruturas ainda mais simples do que célula, a unidade básica de todos os organismos vivos. Embora a sua complexidade e estrutura possa variar, os vírus em si apresentam-se como pedaços de cadeias de ADN ou ARN (ácidos nucléicos onde está codificada a informação genética dos seres vivos) envolvidos em estruturas de proteínas (moléculas formadas por aminoácidos presentes na constituição de quase todos os tecidos dos seres vivos). A sua simplicidade impede-os de se replicarem (reproduzirem) sozinhos, necessitando sempre de um hospedeiro numa associação de parasitismo. Esta associação de parasitismo, caracteriza-se com a utilização, pelo vírus, da máquina celular do hospedeiro (animal infectado) para a replicação do ADN ou ARN do parasita (neste caso o vírus).

Os vírus encontram-se presentes na natureza com relativa abundância, sendo, provavelmente, o número daqueles que conhecemos, uma pequeníssima parte dos existentes na natureza. A maioria destes vírus encontram-se em acção em ciclos estáveis, infectando uma ou mais espécies de um determinado habitat natural e em espécies que atuam como reservatórios, como animais que podem estar infectados com os vírus embora não manifestem nenhuma doença, ou seja, os vírus coexistem no organismo mais complexo sem que sejam agentes patogénicos do mesmo. Tipicamente, estes reservatórios encontram-se em espécies com alguma antiguidade evolucionária, ou seja, organismos que se mantêm praticamente inalterados há milhões de anos, como é o caso dos morcegos. Os morcegos são ainda animais de interesse especial por características peculiares no seu sistema imunológico que os tornam ideais para serem os reservatórios de uma grande variedade de vírus.

É então um novo vírus, um qualquer exemplar desta vasta família, que passa a ter uma capacidade patogénica para a espécie humana. Este evento é, normalmente, originário na acção humana, e não uma característica do vírus, ou seja, é a nossa espécie que, por alguma razão, passa a ocupar um espaço que o vírus já ocupava. Este processo está normalmente associado à exploração de recursos, agricultura ou pecuária, que origina o consumo contínuo de solos virgens, infligindo uma invasão de habitats novos que contêm vírus em circulação, por infecção ou em reservatório de uma espécie animal existente no mesmo. Embora esta invasão seja frequente, o surgimento de um determinado vírus como agente patogénico da espécie humana depende ainda de um fenómeno denominado por zoonose, ou seja, o vírus, no qual o homem está agora presente no ciclo de vida, tem de ter uma capacidade infecciosa e susceptível de criar doença na espécie humana.

Embora os fenómenos zoonóticos sejam de alguma raridade, os métodos de produção empregados pelo capitalismo, quer em abundância de consumo de solo, quer em intensidade, criam situações abundantes de contacto e invasão entre a nossa espécie e inúmeros ciclos de vida de vários agentes patogénicos (vírus e não só). Este contacto torna-nos susceptíveis de nos tornarmos hospedeiros de vários destes agentes, em que alguns dos quais desenvolverão capacidade patogénica para a espécie. São ainda factores favoráveis à disseminação destes agentes a densidade e forma como a nossa espécie ocupa o território, sendo um dos melhores exemplos a aglomeração de indivíduos em cidades com milhões de habitantes onde a densidade de pessoas por área facilita as acções de contágio.

Uma vez em contacto com uma nova espécie viral, este pode passar a pertencer ao leque de doenças a que os humanos são susceptíveis, permanecendo no nosso habitat por contágio entre indivíduos (da mesma espécie ou de espécies em que a infecção é partilhada), com surtos  dependendo de factores de origem desconhecida, com a varicela ou o sarampo, ou em surtos de fenómenos sazonais, dependendo de condições climáticas, como é o caso da gripe no inverno. Há ainda os casos em que políticas públicas de saúde permitiram a erradicação total ou parcial através da melhoria de condições sanitárias e da vacinação. Destes últimos, são exemplos a varíola, erradicada desde 1977, e a poliomielite, perto de ser erradicada com casos conhecidos apenas em territórios onde a guerra ou a pobreza não permite o acesso à vacinação em massa.

Resta-me só concluir que, como os dados sobre várias epidemias no passado têm demonstrado, só um Serviço Nacional de Saúde (SNS) sólido e com forte vocação para a saúde pública, pode garantir que as epidemias, novas (pneumonia por covid-19) ou já habituais na nossa espécie (gripe por influenzavirus), assumam repercussões de baixa intensidade. No essencial, só um SNS público, interessado na promoção da saúde, através de políticas que promovam a educação para a saúde e bem-estar, e a proximidade dos cuidados de saúde em ambulatório gratuitos e para todos, permitem que os eventos epidémicos tenham os seus riscos mitigados.


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