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Moradores da Graça mobilizam-se contra o hotel no quartel

A Assembleia da Graça quer evitar que o Quartel do bairro se transforme numa nova unidade hoteleira.

Ainda com Fernando Medina (PS) à frente da Câmara Municipal de Lisboa, a autarquia decidiu, em 2019, concessionar o antigo Quartel da Graça ao grupo Sana para ali instalar um hotel de cinco estrelas com 120 quartos. Previsto para 2022, só recentemente é que houve sinais de que as obras podem estar para começar. Com o edifício a deteriorar-se, vários partidos exigiram a reversão do processo contra a vontade do atual presidente Carlos Moedas (PSD).

No bairro da Graça, o projeto não é consensual e vários moradores juntaram-se para formar a Assembleia “Parar o Hotel no Quartel da Graça” com o objetivo de impedir mais um equipamento turístico na freguesia, a par dos hotéis projetados para o antigo Convento das Mónicas, com 128 camas previstas, e para o Hospital da Marinha. Com mais de três mil assinaturas, a petição que exige a revogação imediata da concessão feita ao grupo Sana está a ser promovida por esta associação que denuncia não só a deterioração do monumento como o “processo de gentrificação da cidade”.

“Com cada vez mais casas ocupadas pelo alojamento local, com o comércio tradicional transformado em bares, e lojas de souvenir e com todo o tipo de viaturas destinadas a transportar turistas a circular pelo bairro, a construção de um hotel com 120 camas poderá ser o golpe fatal”, garantem. De acordo com a petição, os subscritores exigem que o antigo quartel esteja ao “serviço das necessidades reais da população do bairro e da cidade, prosseguindo fins habitacionais, educativos, culturais e artísticos, com serviços de assistência e infraestruturas ligadas ao bem-estar das pessoas e à qualidade de vida urbana”.

Membro da Assembleia da Graça, Manuel Esteves, a viver no bairro há quase 20 anos, denunciou à Voz do Operário que o hotel vai ter um forte impacto: “Imaginemos o que é ter um hotel com 200 camas, com 400 turistas, e todo o movimento associado a um hotel de luxo, com ubers, carrinhas de abastecimento, serviços do hotel, trabalhadores do hotel e tudo isto num lugar pequeno, com ruas estreitas. Vai ser um pandemónio”.

Manuel Esteves explicou que a associação também fez um inquérito com quase meio milhar de respostas sobre o uso a ser dado ao quartel. Apesar de entender que para já a prioridade deve ser impedir que o monumento seja um hotel, revela que houve muita diversidade nas propostas. Houve quem propusesse habitação, residências para estudantes ou até para professores “a trabalhar nas escolas da Graça”, também espaços de atividades para crianças e idosos, equipamentos desportivos, que considera ser uma necessidade no bairro, assim como bibliotecas ou espaços para exposições. Outra das propostas vai ao encontro da escassez de espaços para o movimento associativo.

“O tema da habitação é tão grave neste momento que afeta já quase todos os segmentos e, portanto, é difícil encontrar alguém da esquerda à direita que não diga que o turismo atingiu níveis exagerados na cidade e que está a descaracterizar a cidade. Uns pode ser porque já não há restaurantes típicos, outros é porque não há habitação. Ou seja, as razões podem variar, mas mais ou menos toda a gente concorda que houve um grande exagero”, considera Manuel Esteves.

Para já, a Assembleia da Graça tem acompanhado os desenvolvimentos em relação à obra prevista e já denunciou o corte das árvores que estavam no quartel e o levantamento de taipais. Vários prédios vizinhos têm sido contactados para serem objeto de vistorias que, de acordo com Manuel Esteves, podem ter o objetivo de verificar se possíveis futuros estragos foram efetivamente provocados pela obra e recorda o que aconteceu com a Escola Básica Natália Correia, ainda fechada devido aos danos provocados pela construção de um condomínio privado a paredes meias.

“Agora mesmo temos o caso da construção de uma loja do museu do Panteão Nacional debaixo do recreio da escola, em Santa Clara, e isso pode penalizar o ambiente escolar com o barulho e o pó, bem como pôr em causa a própria estrutura do edifício”, denuncia. “São milhões para o turismo, investem numa bilheteira para o Panterão, e depois ao lado temos uma piscina municipal fechada. E, portanto, a sensação que dá é que todo o modelo económico, neste momento, no país e na cidade, de Lisboa, está assente no turismo”.

Com reuniões quinzenais anunciadas na página no Instagram, com os trabalhos no Quartel da Graça prestes a começar, este grupo pretende avançar com uma providência cautelar e com protestos para dar voz à população.

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