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50 anos a construir a Festa do “Avante!”

Antes de os palcos receberem concertos, antes de se servirem almoços e jantares, antes dos livros, do cinema, do teatro e dos espaços de debate, há uma Festa por construir. É uma festa construída a muitas mãos com ferramentas, estruturas de metal, panos, cabos e muitas horas de trabalho.

Ainda não há música, os palcos ainda estão a ser construídos, mas isso não significa que haja silêncio. Ouve-se uma orquestra de martelos, serras e vozes de quem trabalha. Na Quinta da Atalaia, ainda sem visitantes, a Festa organizada pelo Partido Comunista Português já começou e celebra a sua 50.ª edição.os construtores continuam a chegar diariamente para cumprir um ritual que, para quem o vive, nunca é uma repetição. Jorge Alves, construtor da festa começou a participar na montagem na segunda Festa, ainda no Jamor, e a memória que guarda desse primeiro trabalho é quase cinematográfica. “O Pavilhão Central estava a ser preparado, os panos e lonas formavam uma estrutura e, pouco antes da abertura, uma rajada de vento levou aquilo tudo”, descreve. Foi preciso improvisar: “Estivémos a segurar cordas e a reconstruir à pressão aquilo que estava prestes a desaparecer.” Esta história resume, de certa forma, o que foi a história da Festa durante muitos anos: construir do zero, resolver problemas, desmontar tudo e, no ano seguinte, começar outra vez.

A primeira edição aconteceu em 1976, nos pavilhões e espaços abertos da antiga FIL, na Junqueira. A adesão foi imediata e a dimensão da iniciativa depressa ultrapassou o espaço disponível. Um ano depois, no Jamor, a Festa encontrou um terreno aberto que exigia outra escala de trabalho. Sete palcos foram montados à mão e o recinto ganhou a dimensão de uma verdadeira cidade. Seguiram-se o Alto da Ajuda, Loures e, desde 1990, a Quinta da Atalaia, no concelho do Seixal.

“É uma cidade dentro da cidade”, explica Jorge Alves ao recordar a transformação desde o Jamor. A expressão não é apenas uma metáfora. Nas primeiras edições realizadas em terrenos sem infraestruturas, era necessário criar praticamente tudo, tal como acessos, abastecimento de água e eletricidade, esgotos, pavilhões, palcos e espaços de restauração. A cada edição, a cidade desaparecia depois dos três dias para voltar a nascer no verão seguinte. Mas hoje, a realidade da Atalaia é diferente, as estruturas permanentes e as infraestruturas existentes simplificam a maior parte do trabalho e permitem concentrar esforços nos conteúdos e na montagem dos diferentes espaços. Para Jorge, essa é uma das grandes diferenças entre os primeiros anos e a atualidade. O espaço mudou, mas, nas suas palavras, “o nosso objetivo” manteve-se.

Ainda assim, a evolução das condições materiais não apagou, contudo, a memória do esforço. Vítor Agostinho está ligado à Festa desde a primeira edição, na Junqueira. Para ele, a lembrança da estreia permanece precisamente por ser a primeira, mas há outros momentos que ficaram associados à necessidade de garantir a sua continuidade. Entre eles, destaca Loures, onde, depois das passagens pelo Jamor e pela Ajuda, foi necessário encontrar uma solução para que a Festa não deixasse de acontecer.

A história dos diferentes locais é, também, uma história da capacidade de adaptação. Em Loures, a Festa encontrou uma solução de continuidade, porém foi na Atalaia que encontrou finalmente um espaço próprio, adquirido através de uma campanha de fundos e que permitiu criar estruturas permanentes. A partir de 1990, a Quinta da Atalaia tornou-se a casa da Festa.

Mas, para quem participa nas jornadas de trabalho, a Festa não começa na primeira sexta-feira de setembro. Começa muito antes. As jornadas de construção da edição de 2026 arrancaram no final de junho, envolvendo limpeza do terreno e montagem das estruturas. A organização descreve a construção como um trabalho voluntário de militantes e amigos, marcado por várias horas de trabalho.

O resultado final, porém, tende a esconder o processo que o tornou possível. Quem chega ao recinto quando as portas abrem vê a cidade pronta, quem participa na construção conhece a sucessão de tarefas que está por trás de cada espaço.

Os próprios construtores reconhecem essa distância. Jorge Alves acredita que a maioria dos visitantes não tem verdadeira noção da quantidade de pessoas e horas necessárias para montar a Festa. Vítor Agostinho chega à mesma conclusão e diz que “para quem cá vem durante os três dias, é fácil olhar para a Atalaia como para qualquer outro festival ou evento. A diferença só se torna visível quando se acompanha a transformação do terreno.”

É também por isso que, para ambos, as jornadas têm um significado próprio, não são apenas trabalho. São tempo passado em equipa, entre pessoas com percursos sociais diferentes, em que a construção física se cruza com a convivência.

Nas jornadas há, nas palavras de Jorge, uma aprendizagem nas relações com as pessoas. Equipas diferentes juntam pessoas de várias origens e experiências, e a necessidade de trabalhar em conjunto cria relações que ultrapassam a tarefa concreta. Vítor Agostinho fala, por sua vez, da simplicidade das relações e da forma como os participantes se tratam entre si. É uma dimensão menos visível do recinto, mas talvez seja uma das mais importantes para compreender porque é que algumas pessoas regressam todos os anos, mesmo depois de décadas. E a Festa, para estes construtores, não é apenas aquilo que acontece depois de terminado o trabalho. A própria construção é parte da experiência, há quem encontre nas jornadas o convívio, as refeições partilhadas, as conversas e a sensação de fazer parte de algo coletivo. No final dos três dias, quando chega novamente o momento de desmontar, o trabalho não termina imediatamente. Vítor Agostinho explica que “os construtores continuam a encontrar-se nas jornadas de desmontagem e organizam alguns convívios.” O ciclo fecha-se, mas deixa preparada a vontade de recomeçar.

É neste ciclo que se encontra uma das marcas mais fortes dos 50 anos da Festa. Todos os anos é necessário adaptar uma experiência acumulada a uma realidade nova. Jorge Alves insiste que o objetivo permanece. Já Vítor Agostinho refere que cada edição traz alterações necessárias, sem que isso signifique abandonar a identidade construída ao longo das décadas.

A própria história da Festa mostra essa capacidade de transformação. Desde a primeira edição, a Festa foi acrescentando espaços para música, teatro, cinema, artes plásticas, literatura, ciência, desporto, gastronomia, espaços dedicados às crianças e à juventude, debates e representações de diferentes regiões e países. Em 2026, a programação anunciada inclui mais de 60 concertos, dezenas de atividades para crianças e famílias, mais de 70 espaços gastronómicos, debates, eventos desportivos, exposições e espaços de ciência.

A dimensão do programa torna ainda mais difícil imaginar a quantidade de trabalho necessária para que tudo esteja disponível ao público. Também aqui a ideia de “cidade” ganha sentido, pois não se trata apenas de construir palcos, há que criar ligações entre os diferentes espaços e permitir que, durante três dias, milhares de pessoas encontrem aquilo que procuram. A perspetiva de Vanessa Fonseca, visitante da Festa, ajuda a completar a dos construtores onde destaca precisamente a multiplicidade da experiência. Os concertos são uma parte importante, mas não explicam tudo. Há a Festa do Livro, no Espaço Internacional e os diferentes espaços culturais, isto para além das pessoas. “Há sempre alguma coisa para fazer e pessoas diferentes para conhecer.” O resultado, diz, é um ambiente que considera único, dos mais novos aos mais velhos.

Quem monta vê o antes, mas quem visita vê o depois. Entre os dois momentos existe uma cadeia de trabalho que raramente é percebida por inteiro. Para quem constrói, a satisfação não está em dizer “eu fiz isto” mas em ver o espaço a cumprir a sua função de juntar pessoas a assistir a um concerto, a comer no mesmo espaço, a visitar uma exposição, a entrar num teatro, a conversar ou simplesmente a ocupar o recinto. Jorge Alves descreve essa satisfação como a conclusão de uma coisa que passa depois a ser usufruída por todas as pessoas. Há, por isso, uma relação particular entre trabalho e usufruto. O visitante pode atravessar um pavilhão sem saber quem o montou, pode sentar-se num espaço de restauração sem imaginar que, semanas antes, ali havia apenas terra e materiais de construção. O construtor, pelo contrário, reconhece os lugares porque acompanhou a sua transformação. A cidade festiva tem para ele uma memória do trabalho que não é visível para quem fica apenas três dias.

Essa memória é também intergeracional. Vítor Agostinho recorda que a importância da Festa pode ser observada na passagem do tempo e nas gerações que nela participam. Olha para os mais novos como uma confirmação de que o trabalho realizado ao longo de décadas teve continuidade. A Festa torna-se, assim, uma experiência que pode começar na infância e acompanhar alguém durante a vida.

A própria pandemia constituiu um momento revelador dessa continuidade. Em 2020, a Festa realizou-se com limitações e adaptações impostas pela situação sanitária. Para Jorge Alves, aquele momento não significou uma mudança definitiva, mas mostrou que era possível manter a Festa adaptando os procedimentos às regras de saúde e circulação. A experiência ficou como mais um capítulo numa história feita de mudanças e capacidade de reorganização.

Cinco décadas depois, a questão não é apenas saber como a Festa mudou. É perceber o que permitiu que continuasse a existir. Os lugares mudaram, as infraestruturas evoluíram, as linguagens culturais renovaram-se, as gerações sucederam-se e o próprio país transformou-se profundamente desde 1976, ainda assim, todos os anos há pessoas que voltam ao terreno antes da abertura para o transformar num espaço de encontro. É precisamente essa dimensão humana que as grandes estruturas do recinto podem esconder. A Festa que aparece pronta em setembro é o resultado de pequenas tarefas acumuladas como limpar, transportar, pintar, montar, reparar, organizar, cozinhar, voltar a montar.

Jorge Alves começou a montar a Festa do Avante porque era a novidade de fazer uma festa e descobrir até onde podia ir essa capacidade de construção. Décadas depois, continua a reconhecer nessa construção uma parte fundamental da sua relação com a Festa. Vítor Agostinho, que esteve desde a primeira edição, olha para trás e fala de amigos, da cultura, convívio e experiências que lhe ficaram para a vida. Vanessa, de uma geração completamente diferente, chega como visitante e encontra um espaço onde a experiência não se esgota nos concertos.

Entre estas três perspetivas existe uma linha comum, a Festa é maior do que aquilo que acontece no palco. É feita de pessoas que chegam antes, de pessoas que ficam depois e de outras que atravessam o recinto durante três dias sem conhecer todo o trabalho que está por trás dele. É feita de memória, mas também de renovação e inovação. É feita, sobretudo, da capacidade de transformar um espaço físico num lugar de convívio.

Em 2026, a 50.ª Festa do Avante! regressa à Quinta da Atalaia nos dias 4, 5 e 6 de setembro. A edição comemorativa contará com música, cinema, teatro, literatura, ciência, artes e gastronomia, entre outras áreas, celebrando cinco décadas de história, mas antes de os primeiros acordes se ouvirem e de o público começar a ocupar as avenidas da Atalaia, haverá novamente trabalho.

A “cidade” ainda está a ser montada. E talvez seja aí, antes da Festa que todos vêem, que continue a estar uma das histórias mais importantes dos seus 50 anos, a de quem, ano após ano, decide voltar ao terreno para construir um lugar que, durante três dias, passa a ser de todos.

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