Voz

Marcha Infantil

A lição do Santo António Operário

Santo António desceu da Graça para desfilar no Pavilhão MEO Arena, que outrora se chamou de Utopia. E mostraram aos lisboetas que, afinal, a alma desta cidade não nasceu na Europa, nasceu no Mundo, ou não fosse António um Santo Cosmopolita.

Acantonados num lanço de escadas no edifício d’A Voz do Operário, os miúdos não paravam, apesar de parados. Isto é, sentados nas escadas como posando para a fotografia, cruzavam conversas como o enredado de uma teia, em que as conversas se cruzam, mas não se misturam. Pior é para os mais velhos regrados. Aquele momento de tertúlia caótica que permite aos ganapos estarem parados sem estarem, soa a borburinho desestabilizador, incomodativo, que ameaça a ordem. E, na verdade, ela, essa tal ordem, está sempre presa por um fio, agarrado pelos decibéis da voz de Sofia, que sempre que o fio estica e ameaça partir, lá está ela a juntar as pontas.

Bom, mas não seria de todo inusitada a foto. Elas, vestidas com um saiote em tons de azul, rosa, verde, amarelo, imagens de homens, mulheres e crianças, de mãos dadas, como se abraçassem o mundo, numa roda debruada a dourado na cintura e na bainha. Eles, calças e coletes num padrão a lembrar, curiosamente, o expressionismo abstrato e uma boina branca pintada como por impulsos. E, embora a estética aqui não seja um pormenor despiciendo, o que na verdade nos traz aqui não é tanto a estética, mas mais a ética.

Mas antes da ética passemos pelo conceito de Europa, seja ele meramente geográfico, geopolítico ou o que quer que seja. “Somos Lisboa, somos Europa”, o mote proposto aos marchantes pela autarquia lisboeta, parece algo bizarro. Porque, a bem dizer, com o mesmo grau de verdade a rapaziada do Porto, no S. João, claro está, bem poderia gritar somos o Porto, Somos Europa, e por aí fora. Há até quem considere que a Europa se estende de Lisboa aos Urais… mas, adiante. A Europa de Moedas, que só vai até à Ucrânia, cooptando depois Israel, saltando Gaza.

Mas voltemos aos pequenotes d’A Voz do Operário. Lá vão eles rua abaixo cantando: Nós queremos um dia que não vem no calendário/ e ser felizes na Voz do Operário. Dobraram S. Vicente de Fora e apanharam o autocarro da Carris que seguiu o caminho do 35, garantia o presidente d’A Voz, Manuel Figueiredo.

Entre cantos e cantorias lá chegaram ao pavilhão que já se chamou de Utopia, mas que agora dá pelo nome de MEO Arena. O movimento em volta do Pavilhão era ordenado por seguranças e pela polícia com uma curiosa farda: roupa civil, mas, à semelhança dos padres em pausas paroquiais, traziam pendurado ao pescoço, não o crucifixo, mas o crachá… crenças!

E o pavilhão lá estava, cheio, colorido, aguardando o desfile, dividido em claques. A Voz do Operário seria a primeira marcha a desfilar, não competitiva, mas desafiante, interpelativa.

O apresentador, Tiago Goes Ferreira, anunciava o autarca lisboeta. Carlos Moedas irrompia dos bastidores a correr, qual adolescente, braços no ar, reivindicando aplausos. E o público dividia-se em aplausos e apupos, assim é a vida de artista.

E lá começou o desfile. A rapaziada estava em pulgas para entrar e, mal entrou, a tradição cumpriu-se. A boa tradição, a que afirma valores, tanto em Lisboa como em Bragança, na Europa como no resto do Mundo. À proposta regional, provinciana da autarquia, os jovens d’A Voz lançavam a contraproposta universal, cosmopolita, da Lisboa da “Diversidade”.

Os arcos faziam-nos recordar o astrolábio, esse instrumento que uniu mundos. A Madrinha Joana Barrios trajava como os rapazes e Filipe Sambado, como as meninas. A sobriedade de quem sabe que não há preconceitos intocáveis. A própria coreografia da marcha parecia procurar inculcar valores. Os arcos passavam à vez em frente à tribuna, lançando valores: O coletivo rimava com Comunidade; a Amizade com Paz; Solidariedade com Saúde; Equidade com Educação e Democracia com os 50 anos da Constituição da República Portuguesa. E, enquanto o pequeno Aires feito Santo António da Voz do Operário, subia para o trono, porque afinal o Santo António é cosmopolita, os miúdos empunhavam cartazes desse mundo diverso e rico que ia de Portugal ao Japão, sem se esquecer da Palestina.

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