Acantonados num lanço de escadas no edifício d’A Voz do Operário, os miúdos não paravam, apesar de parados. Isto é, sentados nas escadas como posando para a fotografia, cruzavam conversas como o enredado de uma teia, em que as conversas se cruzam, mas não se misturam. Pior é para os mais velhos regrados. Aquele momento de tertúlia caótica que permite aos ganapos estarem parados sem estarem, soa a borburinho desestabilizador, incomodativo, que ameaça a ordem. E, na verdade, ela, essa tal ordem, está sempre presa por um fio, agarrado pelos decibéis da voz de Sofia, que sempre que o fio estica e ameaça partir, lá está ela a juntar as pontas.
Bom, mas não seria de todo inusitada a foto. Elas, vestidas com um saiote em tons de azul, rosa, verde, amarelo, imagens de homens, mulheres e crianças, de mãos dadas, como se abraçassem o mundo, numa roda debruada a dourado na cintura e na bainha. Eles, calças e coletes num padrão a lembrar, curiosamente, o expressionismo abstrato e uma boina branca pintada como por impulsos. E, embora a estética aqui não seja um pormenor despiciendo, o que na verdade nos traz aqui não é tanto a estética, mas mais a ética.
Mas antes da ética passemos pelo conceito de Europa, seja ele meramente geográfico, geopolítico ou o que quer que seja. “Somos Lisboa, somos Europa”, o mote proposto aos marchantes pela autarquia lisboeta, parece algo bizarro. Porque, a bem dizer, com o mesmo grau de verdade a rapaziada do Porto, no S. João, claro está, bem poderia gritar somos o Porto, Somos Europa, e por aí fora. Há até quem considere que a Europa se estende de Lisboa aos Urais… mas, adiante. A Europa de Moedas, que só vai até à Ucrânia, cooptando depois Israel, saltando Gaza.
Mas voltemos aos pequenotes d’A Voz do Operário. Lá vão eles rua abaixo cantando: Nós queremos um dia que não vem no calendário/ e ser felizes na Voz do Operário. Dobraram S. Vicente de Fora e apanharam o autocarro da Carris que seguiu o caminho do 35, garantia o presidente d’A Voz, Manuel Figueiredo.
Entre cantos e cantorias lá chegaram ao pavilhão que já se chamou de Utopia, mas que agora dá pelo nome de MEO Arena. O movimento em volta do Pavilhão era ordenado por seguranças e pela polícia com uma curiosa farda: roupa civil, mas, à semelhança dos padres em pausas paroquiais, traziam pendurado ao pescoço, não o crucifixo, mas o crachá… crenças!
E o pavilhão lá estava, cheio, colorido, aguardando o desfile, dividido em claques. A Voz do Operário seria a primeira marcha a desfilar, não competitiva, mas desafiante, interpelativa.
O apresentador, Tiago Goes Ferreira, anunciava o autarca lisboeta. Carlos Moedas irrompia dos bastidores a correr, qual adolescente, braços no ar, reivindicando aplausos. E o público dividia-se em aplausos e apupos, assim é a vida de artista.
E lá começou o desfile. A rapaziada estava em pulgas para entrar e, mal entrou, a tradição cumpriu-se. A boa tradição, a que afirma valores, tanto em Lisboa como em Bragança, na Europa como no resto do Mundo. À proposta regional, provinciana da autarquia, os jovens d’A Voz lançavam a contraproposta universal, cosmopolita, da Lisboa da “Diversidade”.
Os arcos faziam-nos recordar o astrolábio, esse instrumento que uniu mundos. A Madrinha Joana Barrios trajava como os rapazes e Filipe Sambado, como as meninas. A sobriedade de quem sabe que não há preconceitos intocáveis. A própria coreografia da marcha parecia procurar inculcar valores. Os arcos passavam à vez em frente à tribuna, lançando valores: O coletivo rimava com Comunidade; a Amizade com Paz; Solidariedade com Saúde; Equidade com Educação e Democracia com os 50 anos da Constituição da República Portuguesa. E, enquanto o pequeno Aires feito Santo António da Voz do Operário, subia para o trono, porque afinal o Santo António é cosmopolita, os miúdos empunhavam cartazes desse mundo diverso e rico que ia de Portugal ao Japão, sem se esquecer da Palestina.
