Se a cidade é este mundo de complexidades e contradições, se nela nos perdemos de amor e raiva, a música de Jorge Palma é a sua síntese perfeita. Trespassando o tempo, saltando de geração em geração como um amuleto sentimental que nos liga uns aos outros. A sua discografia é um mapa de um país em movimento, por vezes na aparência da estagnação. Mas a sua mensagem de esperança, que vai superando sempre a mais profunda das tristezas, empurra-nos para a frente, como uma mão que nos alenta, com essa ternura que nos chega nos seus dedos e na sua voz, e essa ternura não é um pormenor, é, talvez, o maior impulso de uma motricidade emocional, anîmica, existencial, desejada e necessária, em todas as esferas da vida pessoal e, claro, colectiva.
A viagem de Jorge Palma na música portuguesa é a sua viagem pelo país, da cidade ao infinito do mar, onde o tempo não existe para além daquilo que dele fazemos. São as histórias do quotidiano, da mais escura das vielas à praia onde renascemos e regressamos à vida, num fôlego de paz. Num único disco conseguimos encontrar a crueldade da rua na nota mais áspera, no compasso mais inquietante, entre o rock’n’roll e o arpejo de Liszt; conseguimos encontrar as manhãs e a noite arrastada pela madrugada fora; conseguimos ouvir os nossos próprios passos e a missa dos pássaros; conseguimos ver a paisagem do tempo que passou e o cenário realista do nosso tempo de assassinos. É, talvez, a mais urbana das músicas.
A sua biografia ficará cronologicamente descrita no arquivo que se começa a formar, agora que nos deixou. Mas o retrato deste artista de que tantos de nós dizem ter marcado indelevelmente as nossas vidas, está na possibilidade de nos juntarmos àquela viagem, de a tentarmos compreender. É lá que está a biografia de Jorge Palma e é lá que está o mapa do país que renasceu com o 25 de Abril. É lá que estão as suas convicções, a sua interpretação do mundo e as soluções para os dias em que o céu não é tão azul.
José Viale Moutinho morre aos 81 anos

Palma parte — numa daquelas concomitâncias de cenas quotidianas que poderiam perfeitamente ser antecipadas num dos seus relatos —, no mesmo dia que José Viale Moutinho, um outro enorme contista português.
Nascido no Funchal, foi primordialmente jornalista, e grande parte da vida um escritor incrivelmente prolífico: escreveu muito e em muitos géneros, o que lhe valeu um reconhecimento traduzido em muitos galardões e línguas. Era um leitor crítico e criativo de Camilo Castelo Branco, para cujas geografias continuou a olhar, a partir das lentes do romântico e em debate com elas. Investigador curioso e emocionado das tensões que mais assaltaram territórios contíguos — nomeadamente a Guerra Civil Espanhola, foi, podemos dizer, um homem que se serviu do seu ofício de jornalista para aprender o mais possível sobre os homens comuns e com eles — no centro dos livros — esculpir alternativas e esperanças, num movimento de, ao devolver as histórias, recusar o fim da História.
José Viale Moutinho foi um destes homens produtor do tal ingrediente motriz: a ternura.
Será por isso justo dizer que o interesse pela recuperação e reconstrução da memória histórica decorria de um compromisso ético e político — onde por isso ganhavam vívido recorte as violências e as repressões, os conflitos e as suas consequências.
A obra que nos deixa é uma ferramenta de beleza e utilidade para nos conhecermos histórica e intimamente e assim nos sabermos pensar
Partem no mesmo dias estes dois homens que, de forma ímpar, fizeram do lirismo elogio à beleza da insubmissão. Que saibamos sempre fazer-nos acompanhar por tudo aquilo que nos ofereceram.
