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Ambiente e Energia

Depois da tempestade, o perigo de incêndio

Quando um planeta inteiro precisava de estar alinhado numa resposta robusta, revolucionária, entrosada em várias frentes, com várias especialidades a contribuir para as soluções, estamos entregues ao total desmantelamento das soluções colectivas baseadas na ciência. Estamos reduzidos a medidas isoladas, de reação, sem planeamento.

A tempestade Kristin deixou a nu e para toda a gente ver com muita calma e as vezes que quiser, que este país não está preparado para o que aí vem. Desde a primeira hora, ficou clara a falta de planos de contingência sérios. Desde a primeira hora, ficou claro que as competências passadas do Governo Central para as Câmaras Municipais e as Juntas de Freguesia são impossíveis de pôr em prática. E é por isso que ainda hoje, passados 6 meses, apesar de toda a boa vontade e trabalho árduo dos trabalhadores da administração local, ainda há tanto por fazer e ainda temos uma total sensação de desnorte. É por isso que, quase desde a primeira hora, o sentimento de impotência levou à apatia de tanta gente.

No dia a seguir à tempestade sabíamos o que havia para fazer. Havia estradas para desimpedir, bombeiros para alimentar, vizinhos para ajudar, telhados para reparar… Mas, à medida que o tempo passava e as autarquias pegavam nas pontas que ficaram soltas, a grande massa de voluntários que se mobilizou para ajudar ficou sem saber onde poderia ser útil. Muitas ajudas bem intencionadas ficaram por dar, porque não se soube orientá-las. Muita distribuição de bens foi feita (e ainda bem), mas muito telhado está, ainda hoje, por reconstruir. Fomos abandonados pelas seguradoras, e uma Câmara Municipal ou uma Freguesia não servem para arranjar as casas das pessoas. É por isso que com o fim das chuvas também fomos esquecendo que uma grande parte dos nossos telhados ainda está remendada com plásticos, chapas e lonas. Tudo se há-de resolver de alguma maneira… Os dois dias de chuva que vieram em Junho lembraram-nos que ainda nos chove dentro de casa. As telhas que não encaixaram perfeitamente porque os modelos foram descontinuados, serviram de remendo provisório que provavelmente vai acabar por ficar até o telhado ser todo renovado – ou levado novamente na próxima ventania. Quando? Ninguém sabe.

Há falta de mão de obra especializada, e mesmo que não houvesse, muita gente não tem como pagar os arranjos. Os apoios que iam chegar em três dias às nossas contas tardam em chegar, e muitas vezes o que os seguros pagam não é suficiente para reparar todos os danos. Viveremos décadas com casas remendadas a espuma expansiva.

Todos sentimos que o inverno se está a aproximar, que estes fenómenos vão ser mais frequentes, que as nossas construções não estão preparadas para esta nova realidade e que a protecção que o Pinhal de Leiria nos dava, deixou de existir depois dos incêndios de 2017 e desta tempestade. Há um sentimento generalizado de que estão aí outras catástrofes à porta, mas decidimos todos colectivamente não falar sobre o assunto. Talvez porque o trauma esteja ainda muito presente nas mentes de todos quando se fala de uma nova tempestade ou qualquer outro evento extremo. Talvez porque intuímos que não estamos hoje nem um milímetro a mais melhor preparados para lhe fazer frente do que estávamos a 27 de janeiro. Se passarmos por certos sítios do Concelho de Leiria, e em alguns casos nem precisamos de sair da cidade, parece que estamos no dia 29 de janeiro de 2026. Certos telhados, certas árvores, certos sinais de trânsito continuam inclinados, ou mesmo no chão, como se tivesse acontecido tudo ontem. Mentira. Não está como se tivesse sido tudo ontem. Em muitos sítios, está como se tivessem passado seis meses e nada tivesse sido feito. Porque, em muitos sítios, foi exactamente isso que aconteceu: nada. Se passarmos na ponte Europa em Leiria, vindos do estádio, podemos ainda ver os restos mortais dos colchões gigantes das várias modalidades de atletismo do centro de treino que aí resiste. E nesses despojos estão a habitar pessoas. Sim, fizeram daquele lixo casa. Se fizermos o caminho Leiria – Marinha Grande, por exemplo, podemos ver sem grandes dúvidas quais as casas que aguardam pela chegada dos emigrantes que este ano não vão ter férias, vão ter obras de verão. Se passarmos nas matas e pinhais (é difícil chamar floresta a estes talhões de monocultura), vemos como parece não haver plano ou norte. Não há vasos comunicantes. Cada entidade faz a sua coisa à sua maneira. Estamos no final de julho, e só agora estão a ser preparados os “parques de madeira” para colocar todo o material lenhoso que ficou nos terrenos e que ninguém consegue escoar, porque a madeira está a preços irrisórios. E já agora: porquê criar parques de madeira onde matéria orgânica boa vai apodrecer sem qualquer utilidade ou valorização, enquanto o terreno florestal de onde foi retirada vai ficar completamente depauperado e entregue aos processos de erosão que a vão tornar ainda mais vulnerável a estes fenómenos extremos?

Porque as pessoas estão ansiosas com a possibilidade de uma época de fogos devastadora, e a total ausência de políticas florestais que valorizem o território dita que mais vale receber o material lenhoso e dar uns trocos aos proprietários (que o vão usar para voltar a fazer monocultura ou nem sequer isso e deixam tudo ao abandono de vez), para que toda a gente fique mais descansada. Mais uma medida de reacção rápida para mostrar serviço. A retirada sem critério da biomassa destas regiões deixa-as mais secas e expostas a futuros fogos.

O Verão está aí e, com ele, novas vagas de calor extremo sem precedentes aumentam a dificuldade do combate a possíveis incêndios. Olhamos para Espanha ou França horrorizados e certos que é só uma questão de tempo até também essa catástrofe nos apanhar.

E mais uma vez o sentimento de impotência leva à apatia. Todos sabemos que há uma grande probabilidade de haver incêndios, mas não sabemos o que fazer para o evitar. E pior: parece que ninguém sabe. Mesmo acontecendo todos os anos, ainda ninguém sabe o que fazer.

Sobre os fogos, as respostas que precisamos, seja para as Kristin, seja para os fogos, seja para todos os outros fenómenos extremos que nos baterão inevitavelmente à porta, não estão a ser preparadas. Não há políticas públicas sérias de resposta às Alterações Climáticas. Cada Município desenha o seu plano avulso, encomendado a uma qualquer consultora externa que faz copy paste de encomenda para encomenda, os meios atribuídos ao poder local são patéticos, e o Governo está concentradíssimo em desmantelar o pouco Estado que ainda temos. Quando um planeta inteiro precisava de estar alinhado numa resposta robusta, revolucionária, entrosada em várias frentes, com várias especialidades a contribuir para as soluções, estamos entregues ao total desmantelamento das soluções colectivas baseadas na ciência. Estamos reduzidos a medidas isoladas, de reação, sem planeamento. Estamos todos os dias a, literal e figurativamente, apagar fogos.

Está a criar-se a tempestade perfeita. Mais uma. A derradeira.

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