30 crónicas que falam deste nosso conturbado tempo, que vão ao âmago das grandes questões que inquietam as consciências mais atentas e sensíveis às injustiças, à guerra, ao genocídio, à perversão política e social que têm abalado este primeiro quarto de século do novo milénio. Lídia Jorge percorre, neste livro, com olhar seguro e incisivo, as traves mestras do nosso descontentamento e perplexidade. Logo na primeira crónica, que dá título ao livro, a autora de O Dia dos Prodígios nos fala das incursões americanas no Afeganistão, e da morte de Osama Bin Laden, levada a cabo por um comando dos USA, mas também de uma balada da resistência do povo afegão às contínuas incursões de forças estrangeiras no seu território: O céu cairá sobre nós/e ainda assim estarei cá para vos amedrontar. /As nossas barbas deixarão de ser grisalhas/e os nossos ossos regressarão à terra que os deu a nascer/mas ainda assim cá estarei para vos atrapalhar. /Há muito que este solo sagrado deixou de ser fértil. /E as nossas mulheres são feias: Porque quereis então este território?
Desde Alexandre , o Grande, que o Afeganistão tem sido pasto de diversas, e sempre mais violentas, incursões de exércitos estrangeiros no seu território e, esse facto, não se ficará a dever, como diz a canção, à beleza das suas mulheres (embora essa referência seja subjectiva), sequer à excelência dos seus solos ou a outras riquezas, como o petróleo, ou terras raras que suscitam a ganância de grandes potências, mas tão-só ao seu privilegiado espaço geográfico, espaço agora dominado por aqueles que o ocidente combateu ao longo de décadas: os talibãs sentam-se na cadeira do poder em Cabul e nunca as suas feias mulheres, estiveram tão inseguras. Mas é a terra que lhes pertence e ao povo afegão caberá geri-lo como melhor lhes aprouver, mesmo que no poder esteja um grupo fanático e pouco recomendável.
Outra das crónicas deste livro fala-nos da Covid, da “nossa consciência comovida”, da forma como o homem tem vindo, cada vez com mais ferocidade, a esgotar os recursos da Terra, até “chegarmos a um esgotamento sem retorno” e mais, Lídia Jorge fala do surto pandémico como o momento central em que a sua propagação planetário colocou “a nu a forma como as democracias se tornaram presas fáceis dos extremismos sanguinários, baseados em pressupostos individualistas, que conduzem à defesa intransigente dos nacionalismos mais arcaicos”, advogando, como necessidade absoluta da contemporaneidade, o regresso à Arte e à Cultura, ao Livro e à leitura, como “bens essenciais da vida humana”.
Temos neste livro 30 crónicas exemplares, escritas por uma das nossas escritoras de referência, voz singular que se tem expressado, com rigor criativo em vários registos, a qual, no ano pretérito, foi convidada, pelo então Presidente da República, a proferir o discurso do dia de Camões e das Comunidades. Esse discurso está presente neste livro e nele estão reflectidas algumas opiniões sábias e corajosas que levaram os grupos de extrema direita a invetivar a autora, da forma ignorante como é seu apanágio, por esta passagem do discurso: «Consta que em pleno século XVII, dez por cento da população portuguesa teria origem africana. Essa população não nos tinha invadido, os portugueses os tinham trazido arrastados. E nos miscigenámos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro, a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas.»
Encaro o Mundo como um mistério por desvendar, escreve Lídia Jorge na contracapa deste livro de crónicas. São livros como este que nos ambrem janelas sobre esse mistério que é o Mundo que habitamos.
O Céu Cairá sobre Nós, de Lídia Jorge – Edição D. Quixote/2026.
