A princípio começou como um novelo que se foi desfiando. Poderia dizer-se que a perseguição à solidariedade internacional e aos movimentos da paz na Europa começou com a invasão da Ucrânia pela Rússia mas não é certo. Durante décadas, a criminalização de quem se mobiliza em apoio à luta dos povos foi sendo cozinhada sobretudo com falsas acusações através de meios de comunicação social, governos e partidos para criar um estigma em redor de certas organizações. Simultaneamente, foram implementados quadros legais para restringir as lutas sociais em geral, onde se inclui a solidariedade internacional.
Por exemplo, em 2015, o Estado espanhol aprovou a chamada Lei Mordaça que conduziu à restrição de certas formas de protesto, levando a duras críticas por parte de partidos mais à esquerda, de sindicatos e outras organizações. A partir de 2017, a Alemanha apertou o cerco às organizações curdas chegando à proibição de símbolos. Nesse período, vários países encetaram também a perseguição a movimentos de apoio a refugiados e migrantes como a Grécia, Itália, Malta, assim como a repressão contra organizações climáticas, sobretudo no Reino Unido e Alemanha. Na Eslovénia, em 2021, o então primeiro-ministro disse aos manifestantes para “irem para casa, para o sítio de onde vieram” e, em 2023, as autoridades encorajaram os seus seguidores no X (Twitter) a tirar fotografias aos manifestantes porque poderiam ser “terroristas”.
Nesse contexto, os países da União Europeia usaram a cooperação policial e judicial, recorrendo à partilha de dados de cidadãos, a extradições e mandados europeus e à vigilância coordenada através da Europol e do mandado de detenção rápida que permite a prisão e extradição a pedido de outro país com ativistas a serem monitorizados por vários países em simultâneo. Por exemplo, um Estado europeu pode categorizar uma organização ou movimento como extremista ou terrorista contribuindo para que essa classificação entre nos sistemas europeus de inteligência.
A partir de 2022, há um crescimento exponencial da repressão em todos os âmbitos. Logo após a intervenção russa na Ucrânia, o governo alemão proíbe, sem sucesso, as bandeiras russas e soviéticas no Dia da Vitória, celebrado anualmente em Berlim junto aos cemitérios e monumentos dedicados ao Exército Vermelho.
De acordo com o Monitor do Médio Oriente, entre 2023 e 2025, houve cerca de 42 mil protestos em solidariedade com a Palestina em 20 países europeus. Logo em 2023, Berlim proibiu as mobilizações a favor do povo palestiniano e procedeu a detenções em massa. Em novembro desse ano, a organização Samidoun, estrutura de apoio aos presos palestinianos no Estado de Israel, foi ilegalizada na Alemanha, sob a alegação de ser uma plataforma extremista. França acompanhou Berlim e proibiu todas as manifestações a favor da Palestina utilizando meios legais para perseguir o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel).
Segundo a Amnistia Internacional, “o discurso depreciativo por parte de políticos de alto nível tem sido uma resposta comum às manifestações de solidariedade com os palestinianos”, condenando a forma como no Reino Unido as manifestações foram descritas como “marchas de ódio” pelo ministro do Interior e como “controlo da multidão” (mob rule) pelo primeiro-ministro.
Quando a agressão de Israel se alastrou ao Líbano, a Alemanha reforçou a proibição de símbolos ligados ao Hezbollah e começou a deter manifestantes que levassem bandeiras da organização libanesa, algo que se estendeu também ao Reino Unido e França.
Há um aumento exponencial da repressão sobre a solidariedade com povos agredidos por Israel e uma tolerância visível com protestos alinhados com os interesses da União Europeia (Cuba, Venezuela, Irão, etc).
