Começámos a segui-la nas redes quando iniciou o seu videodiário sobre a guerra entre os EUA e Israel contra o Irão. Quando começou a fazer estes relatos sobre a guerra?
Comecei a registar a Guerra contra o Irão na guerra dos 12 dias. Nessa altura encontrava-me no Egipto. Tinha ido para o Cairo para me juntar à campanha Marcha para Gaza, que decorreu em junho do ano passado. Alguns dos meus amigos tinham-se juntado à delegação do Canadá, e eu decidi juntar-me também.
A guerra começou no dia em que a delegação deveria atravessar o Sinai e marchar até Gaza. Portanto, não participei na marcha por causa da guerra.
Eu estava no Egito. Sentia-me distante do Irão, e as bombas caíam sobre a minha família, os meus amigos e o meu país. Senti a necessidade de fazer algo para ser eficaz e, como tenho uma comunidade canadiana no Facebook, comecei a escrever diariamente, como um diário, relatos diários sobre a guerra. Foram amplamente partilhados e muitas pessoas os leram. Desde então, comecei a fazer relatos contínuos, mesmo depois da guerra, de vez em quando publicava atualizações sobre a situação no país.
Porque é que sentiu necessidade de começar a fazer estes vídeos?
Quando a guerra começou desta vez, senti necessidade de continuar com o diário, no mesmo estilo, que era uma espécie de mistura do quotidiano com pequenas anedotas e experiências pessoais. Nunca tinha feito vídeos, mas falando com alguns amigos que percebem mais do assunto, chegamos à conclusão que seria o melhor meio para chegar a um público maior.
Ficou surpreendida com o alcance dos vídeos? Alguns têm mais de 600 mil visualizações no Instagram.
Nunca imaginei que os meus vídeos fossem vistos por tantas pessoas. Pensei que chegaria apenas à minha rede de contactos no Canadá, porque vivi lá durante 15 anos e fiz muito trabalho comunitário. Assim, tinha qualquer coisa como alguns milhares de seguidores, uns dois ou três mil, no Facebook, vindos do Canadá.
A minha última publicação antes da guerra começar foi na noite anterior ao seu início, porque todos nós sentíamos que aquela seria a noite em que ela começaria. Publiquei um vídeo de um café em Teerão e escrevi algo como “se houver uma guerra amanhã, lembrem-se que tudo o que queríamos era viver”. No dia seguinte, perdi a ligação à internet, mas quando voltei, vi que muitas pessoas tinham visto aquele vídeo depois de a guerra ter começado, o que foi completamente inesperado para mim. Depois disso, senti uma responsabilidade. Senti que havia um desejo de ouvir os iranianos e, por estar numa posição única para o fazer, senti a responsabilidade de continuar o trabalho.
Podia-nos descrever como era o dia-a-dia sob bombardeamentos?
Todas as manhãs era acordada por bombas, ou melhor, se tivesse conseguido dormir, porque às vezes os bombardeamentos duravam toda a noite. Normalmente havia duas ou três vagas de bombardeamentos por dia.
Durante duas semanas, fiquei com a minha avó, mas depois ela deixou Teerão e, no resto do tempo, tentei passar o máximo de tempo possível com os amigos e com a minha comunidade – as pessoas que permaneceram em Teerão – porque era muito difícil estar sozinha durante os bombardeamentos.
Mas, ao mesmo tempo, acho que o ambiente geral era de calma. As pessoas não estavam em pânico, nem a desesperar, nem a fugir com medo. Quer dizer, aqueles que queriam fugir com medo fizeram-no no primeiro dia da guerra. Penso que a maioria das pessoas estava apenas a tentar levar uma vida normal.Também havia manifestações noturnas.
Vimos imagens de milhares de pessoas a manifestarem-se diariamente nas ruas em apoio da República Islâmica do Irão. Podia descrever essas manifestações?
Muita gente chamavam-lhes manifestações pró-governo. Não acho que fossem especificamente pró-governo. Penso que eram pró-Irão, e para nós, que estávamos sob bombardeamentos constantes, estes encontros noturnos eram uma forma de recarregar energias, de nos ligarmos aos outros e de encontrarmos coragem para enfrentar o dia seguinte. Ia às manifestações com os meus amigos. Tornou-se um ponto de encontro para nós e para a nossa comunidade.
Qual o espírito que se vivia nessas manifestações?
Todos iam à manifestação à noite, e encontrámo-nos no mesmo local, na mesma praça, e isso acabou por se tornar uma rotina que nos ajudou a seguir em frente durante a guerra, porque a guerra destrói qualquer sentido de rotina. Destrói qualquer sentido de normalidade, e as manifestações tornaram-se uma forma de nos agarrarmos a alguma aparência de rotina, normalidade e positividade para contrabalançar a morte e a destruição que aconteciam constantemente à nossa volta. Eram espaços realmente positivos.
Estávamos unidos, com o nosso povo, todos juntos. O espírito de resistência ao bullying que todos sentíamos, à intimidação, à dor e à destruição física que nos eram causadas. Foi uma forma de não nos sentirmos desesperados debaixo das bombas. Foi um ato psicológico e espiritual muito importante que nos ajudou a sobreviver mental e espiritualmente aos bombardeamentos.
Qual é o sentimento geral da sociedade iraniana em relação à república islâmica?
Penso que é muito difícil, quando falamos do povo iraniano, falar do sentimento geral ou do sentimento médio, porque existem diferentes tipos de pessoas. De um modo geral, precisamos de compreender que existem pelo menos três tipos de pessoas na população iraniana.
Existem pessoas extremamente antigovernamentais. É um segmento que assiste regularmente a um canal de TV que se chama Iran International, financiado e gerido por Israel. Acreditam em tudo o que é transmitido por este canal. Está cheio de mentiras israelitas sobre o Irão, o governo iraniano e a sociedade iraniana.
Por exemplo, durante a guerra diziam que Israel só atingia alvos militares, nunca alvos residenciais, nunca alvos civis. Bem sabemos que é mentira.
E depois há outro segmento, que é o segmento muito forte pró-governo. A maioria das pessoas encontra-se algures entre estes dois grupos. Não são nem extremamente pró-governamentais nem extremamente anti-governamentais.
A maioria das pessoas tem algum tipo de crítica a fazer ao governo. Na verdade, mesmo entre os que apoiam o governo, muitos estão descontentes com diferentes coisas.
Mas nem toda a gente é, digamos, ingénua o suficiente para acreditar nas mentiras de Israel, certo? Portanto, a maioria das pessoas está nesse chamado “terceiro grupo”.
É verdade que a sociedade iraniana está mais unida agora do que antes do início da guerra?
Durante os 40 dias de guerra, o chamado terceiro grupo aproximou-se do lado pró-governo, participando em massa nos protes tos noturnos, mesmo que não fossem pró-governo antes da guerra. Da parte dos antigovernamentais houve um sentimento de medo e desilusão. Pensavam que alvos civis não iriam ser atingidos. Deram-se conta de que tinham sido enganados pela propaganda pró estado de Israel.
Assim, diria que o sentimento geral em Teerão era de resistência contra à destruição da guerra e de tentativa de manter alguma aparência de normalidade, e unidade em torno do nosso país. Diria que a sociedade do Irão está mais unida.
Os media ocidentais retrataram os acontecimentos de Janeiro como uma revolta popular “brutalmente reprimida pelo regime”. O que causaram esses protestos?
Temos de recuar alguns passos para perceber o contexto e as origens dos protestos. Vivemos uma grave instabilidade económica após a guerra de 12 dias.
O valor da moeda iraniana começou a cair a pique devido à inflação e o custo dos produtos básicos começou a subir. Temos um governo agora que é essencialmente gerido por fanáticos neoliberais, que só sabem fazer terapia de choque e liberalizar o mercado. Acreditam fortemente no corte dos subsídios governamentais e na privatização de tudo. A Europa e a América do Norte estão familiarizadas com a devastação que a economia neoliberal causou às sociedades. Mas no Irão, ainda estamos no início desse caminho, onde muitas pessoas acreditam que tirar a economia do governo é a solução, não o problema.
O governo começou a implementar terapia de choque uma após outra, como a liberalização de produtos básicos como o óleo alimentar e o arroz, que anteriormente eram subsidiados. A implementação destas políticas corroeu a confiança pública e fez com que as pessoas depositassem pouca confiança nas ações do governo.
Depois, os Emirados Árabes Unidos – com a ajuda dos EUA – começaram a congelar as contas bancárias de particulares que ajudavam o Irão a contornar as sanções da venda de petróleo. Por exemplo, alguém leva o petróleo para a China, recebe o pagamento e, supostamente, traz o dinheiro de volta para o governo. Mas o que aconteceu é que, muitas vezes,o dinheiro não regressava ao Irão.
Como começou e quem estava envolvido nos protestos?
Todos sabiam que isto ia acontecer. Houve um protesto dos comerciantes e empresários no bazar tradicional de Teerão. O protesto contra a instabilidade económica durou pelo menos dez dias. E não houve qualquer tipo de violência.
Mas depois, de repente, este tipo, Reza Pahlavi, que é agora o rosto de quem pede bombas para o Irão, convocou os seus apoiantes no Irão para irem para a rua nos dias 18 e 19 de Janeiro. Os protestos destes dois dias não foram contra as políticas governamentais ou o estado da economia. Era apenas um grupo de apoiantes de Pahlavi que queria restaurar a monarquia no Irão e derrubar o governo, e alguns deles estavam armados. Não estou a dizer que todos os manifestantes estavam armados. Estou a dizer que houve pessoas que vieram para a rua com pelo menos algumas armas de fogo, mas também com facas, catanas e coisas do género.
Sabemos que agentes da Mossad estiveram presentes nos protestos. Falavam abertamente sobre isso no twitter. Centenas de polícias e membros das forças de segurança do Irão foram mortos por alguns manifestantes que atacaram esquadras. Esses ataques estão bem documentados.
Como é que as autoridades lidaram com os protestos?
As pessoas que saíram à rua nos dias 18 e 19 eram apoiantes de Reza Pahlavi que queriam derrubar o governo. Qualquer governo em qualquer parte do mundo reagiria de forma semelhante se um grupo de pessoas invadisse esquadras de polícia, pegasse em armas, disparasse sobre polícias, linchasse polícias e assim por diante.
Acho que nunca defenderia a polícia acima de qualquer pessoa. Mas penso que o que aconteceu é apenas uma reação que qualquer governo do mundo teria numa situação destas. A polícia começou a disparar sobre quem queria derrubar o governo.
Infelizmente, foi isso que aconteceu. O clima no país tornou-se extremamente sombrio depois destes acontecimentos. As ingerências de Israel e Trump misturado com a inação do governo iraniano levaram a esta situação.
Num dos vídeos mais recentes que postou no seu canal fala de colonização das mentes iranianas. O que quer dizer com isso?
Desde 2009, em particular, surgiram vários canais de televisão por satélite que produzem conteúdos de alta qualidade e sem anúncios, em persa. Geralmente, são programas de entretenimento misturados com política. Com um forte enfoque político. Quem os financia? Estes canais conseguiram fazer com que muitos iranianos se sentissem como se vivessem no pior país do mundo e tentam mostrar o Ocidente como se fosse uma sociedade perfeita.
Estes canais esforçaram-se também muito para restaurar a imagem da ditadura implacável dos Pahlavi, que durou 50 anos, e para criar uma falsa nostalgia em relação ao período anterior à revolução de 1979. O mesmo aconteceu na internet. O Instagram está repleto de imagens e conteúdos criados por influenciadores da diáspora que idealizam e romantizam a vida no Ocidente e transmitem este tipo de imagens aos seus seguidores no Irão. Existe um ataque cultural contra o meu país patrocinado pelos EUA.
