No passado dia 11, cumpriram-se 4 meses desde que entrou em vigor o chamado “cessar-fogo” em Gaza, durante os quais mais de 600 palestinianos foram mortos pela ocupação israelita. O regime sionista continuou a impôr restrições à entrada de ajuda humanitária no território, bem como tendas, caravanas, equipamento de remoção de escombros e reconstrução. Estas restrições mantiveram os hospitais no limite e condenaram milhares de feridos e doentes a mortes dolorosas que seriam evitáveis em qualquer outro lugar do mundo – além de deixarem a esmagadora maioria das famílias de Gaza expostas ao frio, tempestades e inundações que marcaram este terceiro inverno do genocídio. A fome continua, as doenças espalham-se, e as histórias aterrorizantes sucedem-se a um ritmo demasiado avassalador para qualquer mente humana absorver. A 28 de Fevereiro, Israel encerrou todos os pontos de acesso à Faixa de Gaza, incluindo o de Rafah, que tinha sido reaberto no início de Fevereiro.
Jornalistas, médicos e socorristas apelam regularmente ao mundo para que não acreditem que o genocídio acabou, para que não abandonem Gaza – mas são cada vez menos ouvidos, e Gaza está cada vez mais ausente das manchetes.
Enquanto continua com a bota no pescoço dos palestinianos, o Império aplica as práticas que normalizou em Gaza nos seguintes países que tinha na lista de inimigos a abater – e, no seu coração, contra vozes dissidentes. Cuba está sob um cerco ainda mais apertado do que o habitual, sem quem lhe forneça o petróleo de que necessita para funcionar normalmente – deixando milhares de crianças sem escola, e os hospitais à beira do colapso. Na Europa, jornalistas são sancionados simplesmente por serem críticos do regime sionista, como é o caso de Hüseyin Dogru e Shahin Hazamy, impedidos de aceder às suas contas bancárias ou sequer gerir campanhas de recolhas de fundos para assegurar a sobrevivência das suas famílias – numa aparente utilização da fome como forma de os pressionar a adoptar a narrativa da política externa europeia.
No primeiro dia do ataque do Império ao Irão, 28 de Fevereiro, mais de metade das vítimas mortais registaram-se em dois massacres hediondos: um bombardeamento de uma escola primária feminina em Minab, que fez 153 mortos (a maioria, meninas entre os 7 e os 10 anos), e outro contra um centro desportivo em Lamerd, onde morreram 20 mulheres iranianas jogadoras de voleibol.
Nesse mesmo dia, a jornalista palestiniana Bisan Owda apelou aos povos ocidentais para que «não caiam na propaganda dos EUA e Israel»: «Israel e os EUA não estão a lançar esta guerra contra uma ditadura e contra o regime no Irão, para que o povo iraniano seja livre. Esse disparate que vem do Ocidente não existe. O Ocidente é uma ditadura. O Ocidente não pode trazer a democracia. Esta mentira tem vindo a demolir as nossas nações há décadas. Os EUA já usaram esta mentira no Iraque, Afeganistão e outros países árabes – e destruíram-nos. Esta guerra é contra o Irão porque Israel quer garantir que não há um único país independente e forte que possa impedir a sua expansão.»
As suas palavras, enquanto mulher que cresceu numa Faixa de Gaza governada por um movimento islâmico e que sempre gravou as suas reportagens de cabelo destapado, podem ser um bom ponto de partida para desconstruir os preconceitos islamofóbicos, tão presentes tanto na direita como na esquerda liberal, que dizem que qualquer coisa que tenha “islâmico” no nome é sinónimo de “regime opressor das mulheres”.
O genocídio em Gaza arrasta-se há quase dois anos e meio – e, neste momento, a última coisa de que Gaza precisa é de perder o seu maior aliado.
