Que consequências pode ter o bloqueio naval dos Estados Unidos para a economia venezuelana?
A primeira coisa que devemos estabelecer é que isto é, possivelmente, o momento mais crítico da revolução bolivariana no último quarto século. É, digamos, a escalada mais agressiva desta política que podemos chamar de terrorismo económico contra a Venezuela. Este bloqueio naval, que já inclui dois petroleiros que foram capturados pela guarda costeira dos Estados Unidos, gera um clima em que as empresas que fazem transporte de petróleo pensam duas vezes antes de vir à Venezuela.
Os efeitos para a economia, não é surpresa, serão muitos. A indústria do petróleo corresponderá à volta de 85% dos ingressos em moeda estrangeira. Então, vai haver um impacto que nem sequer vai demorar muito a sentir-se porque vai afetar quase de imediato a capacidade do governo para importar alimentos, importar combustível, importar tudo o que precisa para manter o país a funcionar.
Contudo, o bloqueio não é total por várias razões. Primeiro, a norte-americana Chevron, que produz mais ou menos um quarto do petróleo atualmente na Venezuela, continua a trabalhar como se não fosse nada com eles. E, por outro lado, os navios que não estão sancionados, em princípio, não correriam riscos, mas, no entanto, um dos navios capturados não estava na lista das sanções. Há dois petroleiros com bandeira da China que vêm a caminho e que têm feito este trajeto da Venezuela para a China várias vezes e isso vai pôr à prova o bloqueio naval dos Estados Unidos. Neste momento, a empresa petrolífera venezuelana está a fazer o máximo possível para não ter de parar a produção. Está a usar embarcações como forma de armazenamento temporário. Mas o impacto para a economia pode ser muito rápido, no sentido de voltar a fazer disparar a inflação, que já neste momento é preocupante. Não sei se afetaria tanto o abastecimento, porque isso de alguma forma foi resolvido, mas afetaria, certamente, a capacidade do poder de compra da maior parte da população.
É inevitável falar da comunidade portuguesa. Quais são as consequências do bloqueio e das sanções para os portugueses a viver na Venezuela?
Efetivamente, há uma consequência já imediata que é a suspensão de voos. É uma comunidade que viaja com bastante regularidade. São, principalmente, da Madeira, e é uma comunidade que mantém laços com as suas famílias e viajam com frequência. Em relação às consequências do bloqueio, esta é uma comunidade que vai sofrer bastante porque vive sobretudo do pequeno comércio, principalmente na panificação. O trigo é importado e, desde logo, isto é uma consequência direta que deixa este setor muito vulnerável e também vulnerável à especulação. Há outra parte da comunidade portuguesa que está mais envolvida em atividades no setor da distribuição que também depende em parte das importações.
Como é que podemos enquadrar isto dentro da legislação internacional? Há alguma forma de enquadrar esta ação dos Estados Unidos do ponto de vista legal?
Há um comentador, um economista e opositor venezuelano, que vive nos Estados Unidos e que afirmou que a captura de navios sancionados em águas internacionais é o mesmo que prender um condutor em França por excesso de velocidade na Califórnia. Não há nada no direito internacional que justifique o que os Estados Unidos estão a fazer. Ou seja, as sanções já de por si são unilaterais e isso não tem uma jurisdição universal. Os Estados Unidos não podem andar pelo mundo como uma espécie de polícia universal a aplicar medidas unilaterais.
Donald Trump acusa a Venezuela e o seu presidente de estarem envolvidos no tráfico de droga. Há algum dado que corrobore esta versão?
Há pessoas que inventam as suas próprias estatísticas. Há dois anos, houve alguém que fez um estudo que determinou que 25% do PIB da Venezuela provinha de atividades ilícitas. Mas depois alguém que entendia um bocadinho mais do assunto descobriu uns erros básicos na metodologia. A agência das Nações Unidas para a Droga e o Crime publica todos os anos um relatório e esse relatório às vezes nem sequer menciona a Venezuela. A Venezuela é um país extremamente marginal no que diz respeito ao tráfico de droga a nível internacional. E isso é uma questão geográfica porque a cocaína produz-se essencialmente na Colômbia, um bocadinho menos no Peru e na Bolívia. Então, para chegar daí ao principal mercado que são os Estados Unidos a forma mais eficiente é pelo Pacífico. Não teria nunca muito sentido passar pela Venezuela. Dito isto, não é novidade para ninguém que a Venezuela sofre há quase 10 anos com um bloqueio económico que tem afetado a capacidade do Estado de executar algumas das suas funções, incluindo a segurança. E então, em certas zonas de difícil acesso, há uma proliferação de grupos armados que se dedicam a atividades ilícitas. Pode ser no campo da extração mineira ou do tráfico de droga. Mas mesmo assim, os relatórios das Nações Unidas marcam a Venezuela como um país absolutamente marginal no tráfico de drogas a nível internacional. E mesmo as drogas que atravessam a Venezuela, que não se produzem aqui, vão principalmente para Trinidad e Tobago e para outras ilhas das Caraíbas, para depois ir para a Europa. Mas, para mim, a prova que me parece mais óbvia e mais determinante é DEA, a agência dos Estados Unidos dedicada às drogas, que no seu relatório de 2024 não refere sequer a palavra Venezuela.
Maria Corina Machado ganhou o Nobel da Paz e apoia uma eventual agressão contra o seu próprio país. Existem apoiantes dessa posição dentro da Venezuela? É algo com expressão?
Maria Corina Machado, desde logo, é o Prémio Nobel da Paz mais absurdo da história. Estamos a falar de alguém tem vários anos com este constante pedido de intervenção externa contra o seu próprio país. E agora, nos últimos meses, tem apoiado estes assassinatos extrajudiciais que os Estados Unidos estão a executar tanto nas Caribas como no Pacífico contra tripulantes de embarcações. Ou seja, para ela não há quaisquer limites para tomar o poder. Ela tem um certo apoio que, em grande parte, tem a ver com o desgaste que toda esta campanha dos Estados Unidos provoca na população. Mas mesmo dentro das pessoas que estão contra o governo, [Corina Machado] representa uma minoria que acha que isto se resolve com uma invasão. Pelo menos na opinião pública e nas ruas, não há um apoio expresso, um apoio explícito a esta ameaça tão descarada dos Estados Unidos. Nas redes sociais é diferente porque está muito centrado nas pessoas com mais influência, principalmente as que estão fora do país e a essas pouco importa o que aconteça ao país porque não as afeta.
Fora do país, há a imagem de que a oposição está unida em torno dessa posição. Contudo, há setores importantes da oposição contra uma invasão. Quão profunda é a divisão entre os opositores?
Essa fratura tem vindo a aumentar nos últimos anos. Ou seja, a fratura entre os que querem participar de alguma forma no jogo político e os que querem, digamos, uma mudança de regime à força. Maria Corina Machado era um ator perfeitamente marginal na oposição venezuelana, mas depois foi ganhando peso precisamente por manter estas posições extremistas, enquanto que os setores que tentaram participar nas eleições não tiveram êxito. Então, ficou com essa imagem de alguém que nunca iria comprometer essa linha mais radical. Mas essa divisão é notória. Por um lado, temos a Maria Corina Machado, que conta com o apoio do establishment mediático a nível mundial, que tenta apresentá-la como uma figura unificadora, que tem o apoio maioritário da população e que reúne o apoio de toda a oposição, e isso é falso.
Quando se fala de regime, com toda a carga simbólica que essa palavra tem, fala-se muitas vezes de uma ditadura na Venezuela. A oposição tem ou não acesso a cargos de poder? Participa em eleições?
Em 2025, houve eleições legislativas, regionais e municipais. A oposição deve ter qualquer coisa como 10% dos lugares na Assembleia Nacional, um governador e 50 câmaras municipais, 50 em 350, qualquer coisa assim nesta proporção. Eu acho que devíamos ter cuidado com os duplos standards no que diz respeito a democracias, ditaduras e regimes. Ninguém nos jornais tradicionais se atreveria a chamar Zelensky ditador, ou a referir-se à Ucrânia como regime. Então, isso é uma tentativa de impor um determinado padrão de democracia a um país que está debaixo de um constante ataque imperialista. Ou seja, quando dizemos que as eleições não foram livres e justas, as eleições nunca poderiam ser livres e justas, quando tu tens estas medidas de terrorismo económico, que são uma chantagem direta sobre a população. Por outro lado, tens uma oposição que historicamente recebeu financiamento direto, está comprovado, dos Estados Unidos, apoiada por uma forte campanha mediática a seu favor. Então parece-me muito ingénuo e injusto crer que o governo venezuelano também não trate de gerar vantagens a seu favor neste contexto que é extremamente desfavorável. Então devemos evitar, principalmente a partir do estrangeiro e a partir da Europa e do norte global, crer que estes países do sul global, que estão debaixo destas ameaças imperialistas constantes, tenham de cumprir certos standards de democracia que se impõem desde fora.
Na Venezuela, para além do Estado clássico, das autarquias, do parlamento, dos governos regionais e da presidência, existem as comunas. Como é que se poderia explicar a um estrangeiro o que são estas estruturas?
As comunas são, na minha opinião, a parte mais importante do legado político de Hugo Chávez. De forma resumida, são organizações de auto-governo no território. Ou seja, 3 mil ou 4 mil famílias que se juntam e organizam as suas assembleias e têm os seus porta-vozes eleitos, que têm de responder a estas assembleias de base onde toda a gente tem o direito de participar e essas assembleias podem revogar o seu mandato se não cumprirem com o acordado.
Mas não é só uma questão política. Da forma como Hugo Chávez concebeu, as comunas deveriam assumir meios de produção e deveriam assumir serviços públicos. No fundo é criar uma nova forma de governo de baixo para cima que logo deveria agregar várias comunas formariam uma cidade comunal, as cidades comunais formariam corredores comunais e eventualmente uma federação, para, no longo prazo, substituir o Estado burguês por um novo Estado, o Estado comunal. Naturalmente há muitas coisas por definir, mas esse é o princípio, um Estado radicalmente democrático, de democracia participativa e protagónica, que contrasta completamente com esta ideia de que simplesmente votamos para as pessoas que vão assumir os cargos, de cima para baixo.
Saiu a notícia de que há milhões de venezuelanos inscritos nas milícias bolivarianas, uma força composta por civis que querem estar militarmente preparados para defender o seu país. O que sabe disto?
É algo que se sente nos setores mais duros de apoio ao chavismo. Diz-se que cerca de 8 milhões ter-se-ão inscrito para entrar nas milícias bolivarianas. Independentemente de serem oito ou um milhão, mesmo se forem 100 mil, isso obriga o inimigo a pensar no que se vai meter. Por exemplo, o Bairro 23 de Enero tem grupos organizados com experiência armada que vem da luta contra a repressão policial nas décadas anteriores ao chavismo. Então temos, por um lado, esta milícia que tem uma grande disponibilidade para lutar e que está integrada, de alguma forma, no exército. Por outro lado, tens estes coletivos que têm raízes nas zonas mais populares e que também estariam dispostos a enfrentar uma eventual ameaça externa. Eu acho que isso é um dos fatores que obrigam os Estados Unidos pensar duas vezes antes de avançar com qualquer aventura de pôr as suas tropas no terreno e tentar instalar um governo de marionetas aqui em Caracas.
