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Um mórbido jantar na estreia da nova casa dos Artistas Unidos

A mesa está a acabar de ser posta numa sala pouco iluminada. A anfitriã Paige aparece vinda de uma profundidade de campo que lembra certos planos do realizador Orson Welles. O ambiente parece, no entanto, mais sombrio e gótico, a julgar pelo seu vestido comprido de abas largas e pelas estranhas indicações que dá ao mordomo. Estamos no início de “O Jantar”, peça de 2002 da escritora inglesa Moira Bufinni, com que os Artistas Unidos estrearam o Teatro Paulo Claro, em Lisboa.

Paige quer que tudo aconteça conforme planeado com um mordomo contratado especialmente para esta ceia. Vão chegar dois casais. A refeição é especial, e a primeira convidada, Wynne, chega sem o companheiro. Paige fica inquieta com a presença desta artista, uma vez que ela é amiga íntima do seu marido Lars. Wynne fala das suas obras de arte centradas em pormenores fálicos. Neste momento, já uma poltrona está à direita do cenário, onde esta excêntrica mulher desabafa, enquanto seduz Lars. Aparece o outro casal: Aiân é pivô de noticiários televisivos, Hal é cientista. Todos parecem confortáveis nas suas posições burguesas de classe média.

Um intruso expõe a verdade

Tudo muda quando Mike toca à campainha. É o intruso que Paige não espera, sobretudo por ser de outra classe social. O homem pretende fazer um telefonema; o seu carro arrombou o portão, e entrou na propriedade. Mike percebe logo onde veio parar, e entra no jogo daqueles quatro. Diz que não é pasteleiro como havia mencionado; foi assaltar a casa do lado. Reconhece Aiân, e põe em causa as notícias que ela apresenta. Mike fica no lugar à mesa que pertencia ao companheiro de Wynne. Os pratos vão chegando: uma sopa feita de restos de comida, lagosta que os convidados têm de matar para comer. Entretanto, Lars liga à polícia, para denunciar o suposto ladrão.

“O Jantar” é uma mórbida e subtil sátira ao modo como as refeições podem ser uma ilusória forma de as pessoas estarem juntas. O convívio estabelecido nesta ceia é falso, ninguém além do imprevisto convidado está à vontade com os outros. Cada um parece cumprir o que a sua imagem, e os seus estatutos profissional e social exigem. As relações agudizam. Mike revela que não assaltou casa alguma, mas bem o podia ter feito dada a sua situação laboral e financeira.

O círculo restrito é abalado; mesmo a entusiasmada e progressista Wynne não sabe como lidar com Mike. A premissa deste “O Jantar” é provocadora: e se de repente um proletário se intrometesse num repasto programado de um grupo de outra classe? Existe aqui uma reverberação das obras de Bunuel, mais concretamente do filme “Viridiana” e da sequência em que os trabalhadores invadem a mansão do patronato.

Paralelamente, Paige cumpre o que tinha velado a todos. Termina de forma brutal e irreversível a refeição. Resta perceber se esta tempestade conseguiu mudar os convidados do jantar que preparou, no fundo, para também os ridicularizar, às suas acções e visão do mundo.

Os Artistas Unidos continuam a levar à cena acutilantes peças, em prol da consciencialização social e de classe. A sua nova casa fica na zona Oriental de Lisboa, e continua em remodelações. A companhia esteve mais de um ano sem lugar fixo de ensaios e apresentação dos seus trabalhos, depois de ter sido obrigada a sair do Teatro da Politécnica. O nome do teatro é uma homenagem a um dos actores da formação inicial do colectivo, que morreu tragicamente em 2001. O espaço foi cedido apenas por dez anos pela Câmara Municipal de Lisboa. Contrato que parece subestimar a companhia (e a cultura em geral), uma vez que a edilidade é a proprietária deste velho armazém que estava sem actividades. Lembremos que os Artistas Unidos são um dos grupos teatrais mais importantes do país, responsáveis pela divulgação de autores e textos sobretudo contemporâneos nunca antes apresentados entre nós.

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