Cultura

Festa do Avante

Há sempre um caminho diferente na Festa

Os 100 anos de Saramago e os 80 de Adriano serão comemorados na Quinta da Atalaia.

A Festa do Avante realiza-se dias 2,3 e 4 de setembro na Amora (Seixal).

“A Festa do Avante é uma festa para todos porque cada um e todos encontram nela motivos de interesse para participarem, para viverem, para conviverem”, diz-nos Alexandre Araújo, dirigente do PCP. “E, portanto”, conclui, “se ainda não a conhece, aproveite este ano para a conhecer”.

Tentemos, por isso, cumprir essa tarefa difícil de antever esta Festa que vai já na sua 46.ª edição, não seguindo apenas um trilho, mas seguindo os vários que se cruzam sem atropelos apesar dos milhares traçados numa área imensa livre para a cultura, nas suas mais variadas expressões. “Uma festa que”, como explica Alexandre Araújo “procura, no conjunto das suas realizações, ter tudo aquilo que é resultado do trabalho, da criatividade, do esforço, da realização humana”, e que também na política, “não deixa tema de fora do debate”, acolhendo, “quer no espaço central, no internacional, no espaço livre e também nos espaços das direções regionais, não menos de 50 debates”.

Talvez o melhor seja começar por dois dos andarilhos que se vão cruzar nesta Festa, José Saramago e Adriano Correia de Oliveira.

Num diálogo musical permanente e livre, mas com o sentido das palavras que José Saramago deixava cair em toda a sua obra, este será um dos destaques da Festa. Com um alinhamento musical que segue uma parte muito importante “da história da Música Ocidental”, explica-nos Pedro Tadeu, jornalista e um dos desenhadores desta Festa, Saramago comemora ali os 100 anos de nascimento: “Em trechos, na obra de Saramago, nas suas entrevistas, fomos buscar, com ajuda de especialistas, referências musicais. E há uma associação entre a obra escrita e a obra musical. Com a obra de Saramago acabamos por alcançar a história da Música Ocidental que vai do barroco, de JS Bach, à música contemporânea, que é o caso da obra de António Pinho Vargas inspirada em três obras de José Saramago”.

O espectáculo terá lugar no palco 25 de Abril, quando, às 22 horas, a Orquestra Sinfónica ali nos assinalar os 100 anos do nascimento de José Saramago para uma vida, a que viveu e a que nos permite viver por muitos mais anos.

E será ali que este andarilho se cruzará com um outro, Adriano Correia de Oliveira, um jovem que celebraria 80 anos se não nos tivesse deixado aos 40 anos e cuja obra ali, no Palco 25 de Abril, a voz de Paulo Bragança vai homenagear, apresentando o seu mais recente trabalho dedicado a Adriano Correia de Oliveira. Mas também ali Adriano vai estar quando o Canto D’Aqui e a Orquestra Sinfónica de Braga subirem ao mesmo palco para interpretarem canções de Abril, em sua homenagem.

O fado é outro caminho, “sempre muito acarinhado na Festa”, diz-nos Pedro Tadeu, que nos pode conduzir à voz imensa e doce de Carminho, do fadista cantautor Carlos Leitão e de Jonas um fadista que nos prova que afinal o fado tem um forte apelo à dança.

Sigamos agora um outro trilho a caminho da Rave Avante de sábado á noite. “Não, não é uma música apenas para abanar o capacete”, diz-nos Pedro Tadeu. “Será uma noite de música de dança, mas focada nas questões quer da violência doméstica, dos direitos das mulheres genericamente, quer da luta pela democracia e de tudo o que isso implica”. O desafio é lançado a três DJ: Violet, Yazzus e Renata. Vão dar um espetáculo no Rave Avante que liga esta expressão musical “às questões de intervenção política e social, contra a opressão capitalista, colonial e patriarcal”, explica Pedro Tadeu. “Queremos contrariar essa ideia de que a música DJ é toda fútil. Isso não é bem assim, aliás, esta música, nos anos 80 e 90, começou a ser feita quase como forma clandestina, por pessoas que assumiam uma atitude de resistência cultural em defesa das mulheres, em defesa dos direitos à orientação sexual, com referências ao racismo, às questões de género. Com o tempo perdeu-se um bocado essa perspetiva e há agora uma recuperação dessas origens”. Este será um trilho que, refere “vamos tentar dar continuidade nas próximas festas”.

Olhemos agora para outros caminhos que a Festa lhe reserva, não sem antes, ainda na música, lhe dar outras coordenadas na expressão musical, como o Fogo Fogo com Dany Silva, Dino Santiago ou a voz da brasileira Bia Ferreira, sugere-nos também Pedro Tadeu, “um ícone na luta feminista, bem como das minorias sexuais”, ou então seguindo uma “programação popular, com a presença de alguns artistas estrangeiros, mas numa linha que é a de a música feita em Portugal ou com ligação à língua portuguesa, ainda que possa ser falada em crioulo, e que vai do jazz à música pop, com origens africanas”, criadas por “grupos fora do mainstream”.

Sigamos a sugestão de Alexandre Araújo, para outros caminhos na Festa do Avante que nos conduzem, por exemplo, às artes visuais, com uma exposição que “tem como mote o fabrico do barro preto de Bisalhães, Património Cultural Imaterial pela Unesco e que será aqui assinalado na Festa”, ou para outras das artes performáticas representada, para além da música, que é o Teatro, aqui representado pelas principais companhias como a Barraca, o Bando, A companhia de Teatro de Almada e o Teatro da Terra, mas também o Cinema que em sala ao ar livre, passará o que de melhor se vem fazendo em Portugal quer na ficção e no documentário.

Um dos trilhos desta Festa, apagado durante a pandemia, foi o Desporto. No ano passado, diz-nos Alexandre Araújo, “já foram retomadas algumas atividades, mas este ano retomamos o mais importante momento desportivo: A Corrida da Festa”.

“Toda a Festa tem uma conceção própria virada para as crianças, tem um espaço próprio, designado Espaço Criança que ocupa uma das zonas mais nobres da Festa, um espaço novo, com uma vista fantástica sobre o rio, com equipamentos infantis, jatos de água, música, pintura, pinturas faciais.”

Margarida Botelho, membro da Comissão Política do PCP

E por onde vão os trilhos dos mais novos? Desde logo, diz-nos Margarida Botelho, dirigente do PCP, “toda a Festa tem uma conceção própria virada para as crianças, tem um espaço próprio, designado Espaço Criança que ocupa uma das zonas mais nobres da Festa, um espaço novo, com uma vista fantástica sobre o rio, com equipamentos infantis, jatos de água, música, pintura, pinturas faciais”. Mas um outro trilho para os mais novos leva-nos ao Espaço Central, onde uma exposição sob o título, “Crianças e pais com direitos, Portugal com futuro”, nos remete para uma sociedade que tem de respeitar muito os direitos da criança, “não só para formar os cidadãos do amanhã, mas porque as crianças têm direitos hoje e todas as fases do seu crescimento têm de ser respeitadas, nas várias fases do seu desenvolvimento”. Pois este direito não pode ser dissociado “dos direitos das famílias, sobretudo dos pais”, designadamente “direitos laborais – salários, horários, vínculos – e outros direitos mais gerais, como direito à saúde, à escola pública, à habitação, o ordenamento do espaço público, os transportes públicos, cultura, desporto, e um outro direito muito importante que é o direito a brincar.”

Na Música, destaca-se o espetáculo: “Mão Verde II”, protagonizado pela rapper Capicua, um espetáculo à volta de um livro com rimas e lengalengas sobre plantas, animais, pessoas, insetos, flores, frutos que fala da natureza, a alimentação, o consumo consciente e as boas práticas ecológicas. E também dez canções e dois poemas musicados.

Mas há ainda mais boas notícias: “as crianças com menos de 14 anos não pagam a entrada desde que acompanhadas por uma pessoa com a Entrada Permanente” [bilhete da festa] e, garante, Margarida Botelho, “a Festa terá diversos espaços espalhados pelo terreno onde as mães vão poder amamentar os filhos com calma, com possibilidade de aquecer a água e fazer a papa e casas de banho adaptadas a crianças”. Se comprada até à véspera da festa, a EP tem o custo de 27€ para os 3 dias.

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