Internacional

Irlanda

Bloody Sunday foi há 50 anos

“Foi com a fúria nos calcanhares

Cruzei Bogside de amargo afecto 

Cristã piedade! – Foi num dia

De gelo e névoa, arruinado.”

Butcher’s Dozen, Thomas Kinsella (1928-2021)

Na tarde de domingo, 30 de janeiro de 1972, em Derry, na Irlanda, três mulheres perderam os seus maridos, 19 crianças ficaram sem pai, 20 pais perderam um filho e 99 outras perderam um irmão. As circunstâncias que levaram a este desfecho, agora cravado na nossa memória coletiva como “Domingo Sangrento” (Bloody Sunday), são essenciais para a compreensão deste período traumático na história da Irlanda.

No início da década de 60 [do século XX], republicanos e nacionalistas irlandeses iniciaram um debate em torno da natureza do Estado da “Irlanda do Norte” e da discriminação em torno de direitos fundamentais contra uma parte da sociedade. Isto levou à criação da “Northern Ireland Civil Rights Association” (NICRA), [Associação dos Direitos Civis da Irlanda do Norte], em janeiro de 1967. Nesta associação estavam sindicalistas, comunistas, republicanos e nacionalistas. As suas seis exigências eram: “Uma pessoa, um voto”, para permitir o voto de maiores de 18 anos e acabar com os votos de empresários, que valiam mais; acabar com o constante redesenhar de círculos eleitorais para garantir majorias unionistas; o fim da discriminação em empregos do Estado; o fim da discriminação no acesso à habitação pública; o fim do “Special Powers Act” [Decreto de Poderes Especiais], que permitia a detenção e prisão sem julgamento; e o desmembramento da “B-Specials”, uma força policial sectária lealista.

A campanha pelos direitos civis gerou uma confiança renovada e espírito de superação na comunidade nacionalista/republicana, o que gerou respostas ainda mais beligerantes por parte do Estado britânico às exigências de igualdade. Em julho de 1969, um idoso católico de nome Francis McCloskey, que havia ido à cidade de Dungiven, no condado de Derry, para fazer compras, foi espancado até à morte por membros da RUC (Royal Ulster Constabulary], uma força policial. Nunca ninguém foi interrogado ou acusado. Este tipo de ocorrências repetiu-se várias vezes em muita cidades e vilas do norte da Irlanda. Famílias católicas eram foram intimidadas por gangues de lealistas até abandonarem as suas casas, em zonas onde foi levada a cabo uma limpeza étnica, o gás-pimenta era utilizado em habitantes da zona de “Bogside”, em Derry, e aumentou ainda mais a violência policial. A bandeira tricolor irlandesa foi proibida, bem como os “hurls” – stiques utilizados no “hurling”, um desporto irlandês.

Em agosto de 1971, o exército britânico lançou a “Operação Demetrius”, detendo e prendendo um grande número de pessoas por todo o norte da Irlanda, “suspeitos” de serem republicanos, sem qualquer acesso a julgamento. Esta medida severa e draconiana adotada pelos britânicos foi a mais violadora dos direitos humanos e fez mais pela escalada do conflito do que quaisquer eventos anteriores. Numa primeira fase, soldados britânicos armados lançaram buscas, a meio da noite, que resultaram na detenção de 342 homens, todos oriundos de comunidades nacionalistas e republicanas.

A 9 de Agosto, na zona republicana de of Ballymurphy, a oeste de Belfast, 10 foram assassinados a tiro pelo Regimento de Paraquedistas, (Paras) do Exército britânico. Outro homem morreu de ataque cardíaco, após o mesmo corpo militar simular a sua execução. O argumento dos “Paras”, de que estavam apenas a responder aos disparos de republicanos que os atacavam, caiu por terra ao ficar provado, em maio de 2021, que era falso, 50 anos depois dos assassinatos.

Na manhã de 30 de Janeiro de 1972, cerca de 15.000 pessoas juntaram-se em Derry para se manifestarem contra a “prisão sem julgamento”. Os soldados terroristas do Regimento de Paraquedistas foram mais uma vez acionados. O IRA tinha acordado manter-se afastado da zonas em caso de haver provocações das autoridades, uma vez que os organizadores pretendiam uma marcha pacífica.

À medida que a manifestação avançava pelo itinerário acordado, surgiu uma barricada colocada pelo exército britânico, que impedia o acesso ao centro da cidade. Começaram então os confrontos entre os manifestantes e os britânicos, o que não era raro. Os manifestantes atiravam garrafas e pedras, os britânicos respondiam com gás-pimenta e balas de borracha. Porém, quando os oradores se encontravam prontos para falar aos manifestantes, o Regimento de Paraquedistas abriu fogo com munições reais.

A marcha acabou cercada numa área semelhante a um campo de futebol quando os “Paras” abriram fogo. Seguiu-se o caos, com pessoas a tentarem escapar. Em menos de 30 minutos, 13 homens desarmados foram mortos, para além de duas mulheres e 16 homens feridos, um dos quais viria a falecer.

Prontamente, o exército inventou uma história para encobrir o sucedido. O comandante militar do norte surgiu na televisão a dizer que os soldados apenas tinham disparado quatro tiros. O General Michael Jackson, membro do regimento de paraquedistas, alegou que todos os tiros foram disparados na direção de um membro do IRA que havia sido identificado, para além de que quatro dos mortos estavam na lista de mais procurados pelo exército britânico. Esta versão foi largamente aceite como verdadeira e encontrou eco nos media convencionais irlandeses e britânicos. 

O “Widgery Tribunal”, criado pelo Primeiro-Ministro britânico Edward Heath, ilibou todos os soldados de qualquer comportamento condenável ao aceitar todos os testemunhos do regimento de paraquedistas. A conclusão: “não teria havido mortes em Londonderry a 30 de Janeiro se aqueles que organizaram a marcha não tivessem criando uma situação altamente perigosa”.

O resultado da violenta repressão como resposta às exigências de direitos civis e fim da discriminação e repressão, foi um enorme aumento da resistência irlandesa ao domínio britânico na Irlanda. O “Irish Republican Army (IRA)” [Exército Republicano Irlandês] cresceu significativamente no período entre 1969 e 1973, e em meados da década de 70, estava em posição de poder realmente fazer frente, militarmente, ao poderio do exército britânico. Num documento interno revelado em 2006, altas figuras do exército britânico descreveram o IRA como sendo “profissional, dedicado, altamente preparado e motivado”, admitindo que se tinha tornado numa das organizações “terroristas” mais eficientes da História.

Durante mais de 40 anos, familiares dos 15 civis desarmados brutalmente assassinados no Domingo Sangrento lutaram pela verdade e pela justiça. Em 1998, decorriam conversações para o que viria a ser conhecido como Acordo de Belfast, que colocava um ponto final no conflito armado na Irlanda. Durante as negociações, o Primeiro-Ministro Tony Blair anunciou um novo inquérito aos acontecimentos do Domingo Sangrento. A existência de um segundo inquérito foi algo sem precedentes na história legal britânica.

O relatório final foi revelado em junho de 2010, e milhares de pessoas juntaram-se em Derry para ouvir que todas as vítimas foram declaradas inocentes. Os acontecimentos daquele dia foram descritos como “injustificados e injustificáveis”.

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