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Memória

Polícia invade A Voz do Operário e prende presidente da direção

Aconteceu no dia 30 de Maio de 1927. Era o tempo da ditadura militar. E foi mais um passo na evolução gradual do liberalismo para o fascismo.

Reunião “subversiva”

Em horário pós-laboral, decorria na sede d’A Voz do Operário uma reunião sobre a vida interna da coletividade. Em questão estavam dificuldades na recolha de quotas. Era um trabalho que assentava nos cobradores que percorriam os bairros, indo ao encontro dos sócios.

Essa metodologia era generalizada. Na história do associativismo em Portugal, importa, aliás, valorizar o papel desses cobradores, cujo trabalho era por regra remunerado com uma percentagem das quotas que recolhiam.

Além de assegurar o que era, amiúde, a principal fonte de receita, o cobrador também era muitas vezes o principal contacto de sócios dispersos com a coletividade. E numa associação mais pequena havia apenas um cobrador. Imagine-se o papel central que ele tinha na vida dessa associação.

Foi, inclusive, um papel assumido por alguns destacados militantes da classe trabalhadora.

A “PI” antes da PIDE

Naquele dia, decorria a dita reunião com cerca de trinta participantes. Representavam vários órgãos e comissões internas d’A Voz do Operário.

A dado momento, a reunião é interrompida pela chamada “Polícia de Informações do Ministério do Interior” – uma espécie de “PIDE antes da PIDE”.

Um agente comunica que houve uma denúncia de que, àquela hora, se realizaria n’A Voz do Operário uma reunião “subversiva”. E vá de “informar” que todos os presentes estavam detidos. E de os levar para o governo-civil, então centro da autoridade policial na cidade de Lisboa.

Isto não foi à pancada. Há até relato de que aconteceu de uma forma algo surreal, “na melhor ordem e com todas as atenções”, por parte dos agentes da tal “PI” que ainda não era “PIDE”…

Um dos presos foi o então presidente da direção d’A Voz do Operário, José Gregório de Almeida. Sindicalista, era também secretário-geral da Federação Portuguesa dos Empregados no Comércio. Ao fim de algum tempo, ele foi chamado à presença do diretor da Polícia de Informações.

O “senhor diretor” da “PI” terá dito que tinha pel’A Voz do Operário “a maior das considerações”. Até pedia desculpa e “reconhecia que nenhum fundamento assistia para manter as detenções”. Mas, com uma grande lata, alegou que este “procedimento” se devia a uma denúncia anónima, assinada por um “Vidente”…

Depois, cerca da meia-noite, todos os presos em questão foram soltos.

A caminho do fascismo

Estudando o fenómeno numa perspectiva marxista, Rajani Palme Dutt concluiu que o principal objectivo do fascismo é derrotar a classe trabalhadora e esmagar as suas organizações.

Focando sobretudo as experiências ocorridas em Itália e na Alemanha, nas décadas de 1920 e 1930, Dutt apontou que “a transição para uma ditadura fascista não foi uma ruptura abrupta da política burguesa”, mas um processo gradual, numa “continuação da política burguesa por outras formas”. E afirmou que “o Fascismo foi preparado e fomentado nas condições da democracia burguesa”.

Utilizando esta referência teórica, a prisão do presidente (e quase trinta sócios) d’A Voz do Operário, em Maio de 1927, é um episódio que se situa num ponto intermédio.

Vigorava uma ditadura militar que já não era uma “democracia burguesa”. Mas ainda não era um regime de tipo fascista. O qual se tornaria realidade no final de 1933, com o chamado «Estado Novo». E quando este impôs a dissolução forçada dos antigos sindicatos livres. E atingiu o objetivo de “esmagar” as organizações da classe trabalhadora.

Experiência portuguesa

Se recuarmos um pouco mais atrás, ao tempo da “liberal” 1ª República (1910-1926), já era frequente um certo nível de repressão contra as lutas e organizações da classe trabalhadora. Sobretudo contra o movimento sindical.

Jornais apreendidos; militantes presos e até deportados para África; sindicatos temporariamente encerrados. Sem esquecer a censura prévia à imprensa, durante a 1ª Guerra Mundial.

De tudo isto aconteceu na 1ª República, enquanto forma de “democracia burguesa”. Ou seja, também no caso de Portugal a análise traçada por Palme Dutt encontra fundamento. Também por cá, “a transição para uma ditadura fascista não foi uma ruptura abrupta”.

A ditadura militar agravou a repressão. Mas ainda não era um regime de tipo fascista. Aliás, o seu primeiro presidente até seria depois um destacado resistente antifascista (o comandante Mendes Cabeçadas).

Naquele ano de 1927, já não foi possível comemorar o 1º de Maio em Lisboa com o habitual comício da CGT no Parque Eduardo VII. Mas alguns sindicatos conseguiram permissão para um comício em recinto fechado, o qual se realizou no salão d’A Voz do Operário.

No mesmo mês, porém, a “Polícia de Informações” pôs fim a um pilar do movimento sindical: o jornal diário A Batalha. E aproveitou para prender vários sindicalistas, entre eles dois antigos secretários-gerais da CGT (José Santos Arranha e Manuel da Silva Campos).

A Voz do Operário queria resolver um problema interno, com a cobrança de quotas. Mas apanhou por tabela, no contexto desse novo patamar de repressão anti-sindical…

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