Entrevista

Clima

“A sensação de abandono [no interior] ajuda a minar a coesão nacional”

É físico de formação, doutorado em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Nova de Lisboa, com especialidade em Sistemas Energéticos Sustentáveis. Luís Fazendeiro é ainda co-autor de cerca de duas dezenas de artigos científicos, em várias áreas, incluindo ciências computacionais, fusão nuclear e modelação energética, tendo publicado em 2023 o livro “Sobre a Mudança: Justiça Climática e Transição Ecológica no Século XXI”.

É previsível que nos próximos anos haja mais eventos extremos como aqueles que aconteceram este inverno em Portugal?

Eu acho que é extremamente previsível e, até agora, nada do que nós vimos nesta sequência de eventos nos indica que seja uma coisa absolutamente inesperada e irrepetível. Ou seja, acho que os cientistas têm vindo a alertar, durante décadas e décadas, para os perigos das alterações climáticas e nós temos dezenas, centenas, se calhar até milhares de estudos a explicar que os eventos extremos vão aumentar de frequência, vão atingir intensidades maiores. Estamos a falar de vagas de calor, estamos a falar de cheias com volumes de precipitação muito grandes, que aconteceu também agora aqui em Portugal, estamos a falar de eventos muito fortes e, portanto, tudo isto acaba por ser resultante das leis da física.

Se nós continuarmos a queimar combustíveis fósseis em quantidades extraordinárias, que é o que tem acontecido, nós sabemos que o planeta vai aquecer em termos médios. O calor, vai para a atmosfera e vai também, em grande parte, para os oceanos. Portanto, temos oceanos muito mais quentes, que têm estado a absorver a maior parte deste calor extra e que, por sua vez, potenciam a ocorrência de tempestades muito mais poderosas.

Os ciclones formam-se, por exemplo, sobre o oceano e, uma vez que as águas do mar estão agora muito mais quentes, também há mais evaporação, com estas tempestades a carregarem mais energia. Portanto, quando chegam à costa, neste caso a Portugal, trazem muito mais intensidade do que acontecia noutras alturas, com mais velocidade, com ventos mais fortes. Isto leva-nos em duas direções. A primeira é que o território nacional não está claramente adaptado para lidar com estes tipos de situações. E depois, se nós não levarmos a sério a agenda da descarbonização a nível mundial, a situação vai continuar a piorar e a deteriorar-se.

Num planeta em que cresce a extrema-direita, a par do negacionismo e da desinformação, ainda é possível evitar o pior? E antecipando as piores previsões num contexto de mudanças climáticas, o que podem esperar as gerações futuras?

Em primeiro lugar, pessoalmente, acho que não faz sentido, usar o termo extinção, por exemplo. Neste momento, somos 8,2 mil milhões de seres humanos no planeta e o pior cenário possível da crise climática seria o fim, por exemplo, do gelo na Antártida com os níveis do mar a subir 60 metros ou mais, mas nada disso seria suficiente para causar a extinção da espécie humana. Agora, podemos estar a falar de uma extinção de 80 a 90% nos próximos 100 anos. Eu acho que isso depende do que as gerações presentes fizerem agora neste momento e as decisões que tomarem.

Se anteciparmos cenários catastrópicos e os piores cenários possíveis, eu diria que eles são incrivelmente maus. Toda a gente já viu os filmes do Mad Max e percebemos até onde é que as coisas podem ir. Agora, Donald Trump não era presidente há um ano e meio, por exemplo, e é possível que não vá ser daqui a três anos, quem diz Trump também diz outras figuras influentes no mundo e, portanto, acho que nós não estamos condenados irreversivelmente ao falhanço ou aos piores cenários possíveis.

Este não é o primeiro evento extremo a que Portugal está sujeito. O país não devia já estar preparado para enfrentar de outra forma este tipo de calamidades? Como é que se explica, por exemplo, que não haja uma dotação de geradores às autarquias para prevenir estas situações? O que devia ter sido feito?

Eu diria que não é claramente uma prioridade. Muitas vezes, assisti, em reuniões científicas, em reuniões com líderes locais, a uma certa minimização destes problemas. Mesmo agora, ainda tão próximos do que aconteceu, já começa a haver um recuo. Até mesmo, enquanto estava a acontecer, como vimos logo da parte do governo numa tentativa de criar uma narrativa de que as coisas tinham corrido bem. Desde o primeiro momento, o Primeiro Ministro tentou passar esta ideia e aquilo que se observa no terreno é um bocado diferente. Com os incêndios, quando chegamos a setembro, parece que já ninguém quer saber, como se o tempo mudasse automaticamente, e a sensação que me dá é que o governo, as autoridades municipais, voltam um bocadinho à vida do costume. As infraestruturas estão sempre subfinanciadas, nunca há dinheiro para as coisas realmente importantes, os territórios não são uma prioridade. Se pensarmos, por exemplo, na questão dos incêndios que ocorrem em territórios com baixa densidade profissional, não são uma prioridade política. Portanto, acho que as questões são cronicamente desvalorizadas.

Falou dos incêndios e, meio ano depois, mais de metade dos apoios continua por pagar. É também aqui que o Estado perde a confiança dos cidadãos?

Concordo que isso cria imensa desconfiança e também tem, se calhar, aberto caminho para esta cavalgada das forças populistas e de extrema direita. Vimos agora, por exemplo, também, na região de Leiria, as pessoas a dizer que se sentiam abandonadas. Os repórteres iam lá e as pessoas diziam que eram os primeiros a ir ali. Portanto, há esta sensação de abandono nestes territórios. E isto é uma situação que ajuda a minar a coesão nacional.

Há uma tendência cada vez maior para o Estado entregar serviços essenciais aos privados, seja na prevenção como na resposta a esses eventos extremos: recordo o Siresp, a REN, as seguradoras, aviação privada no combate aos fogos. Isto não constitui um problema na medida em que o Estado abdica de ferramentas estratégicas para a segurança do país?

Claramente, sim. Pessoalmente, acho que isto nem sequer devia ser uma questão ideológica. Muitas vezes há este debate entre partidos ou economistas mais de direita que defendem a privatização, que defendem a economia privada e partidos e forças à esquerda que defendem uma perspetiva mais coletiva. Contudo, penso que é preciso encontrar aqui consensos no sentido de que estruturas absolutamente fundamentais para a vida das pessoas, para a existência do Estado português, para a segurança do território, não podem ser deixadas aos privados. Isto não é uma questão ideológica porque nós não conseguimos compatibilizar a procura do lucro a todo custo, que é no fundo esse o objetivo de uma empresa privada, com a garantia de serviços mínimos e com a garantia de bons serviços à população.

Do outro lado da moeda, vemos um país mobilizado para ajudar as regiões afectadas. Acha que há uma maior compreensão destes fenómenos e consequentemente também uma maior solidariedade?

É possível, sim. É possível que as pessoas estejam um bocadinho mais despertas para essas possibilidades, mas eu penso que, essencialmente, também reflete uma caraterística muito humana de querer ajudar. Acho que é uma questão de solidariedade, de voluntarismo, e que é muito importante. Acho que, em muitos casos, numa primeira fase pode ter feito uma grande diferença, mas depois temos que lembrar que da maneira como a sociedade está organizada hoje em dia, de uma forma extremamente complexa, e que depende de imensa tecnologia, seja da eletricidade, seja das telecomunicações, etc, este voluntarismo das pessoas, que é absolutamente louvável e que é muito, muito importante, não pode substituir as autarquias e não pode substituir o Estado central, como também não pode substituir as grandes empresas nestes setores. E, portanto, acho que isto não pode ser usado como desculpa para o Estado não precisar de fazer assim tanto porque as pessoas se chegam à frente e tomam conta umas das outras.

É absolutamente fundamental que as pessoas se ajudem, mas precisamos de infraestruturas e precisamos de serviços, não é? Vou dar um exemplo. Se uma parte da A1 cai devido às cheias eu não conheço ninguém que tenha os conhecimentos para ir lá individualmente, com os amigos, reparar aquilo. Nós temos toda uma série de instituições que têm de estar a funcionar muito bem, têm de priorizar estes acontecimentos, têm de perceber que isto vai acontecer mais vezes e têm que preparar os territórios com planos de contingência, não só para o tipo de cenários que aconteceram, mas para cenários ainda piores.

Falava na questão do território e a minha pergunta vai no sentido do ordenamento territorial, se acha que vivemos num país que tem tudo para correr mal.

Uma vez mais, acho que houve más políticas públicas nas últimas quatro ou cinco décadas. Acho que se permitiu que houvesse uma excessiva liberalização do território. Houve um esvaziamento do interior e agora a maior parte da população está toda concentrada numa faixa muito curta junto ao mar. Acho que em termos de planeamento urbano, por exemplo, permitiu-se que os subúrbios crescessem de forma descontrolada. Se calhar o mais difícil agora é mesmo pensar como é que revertemos essa situação. Há que arranjar forma de tornar o interior atrativo e pensar numa forma de entender as nossas florestas e o nosso território mais acessíveis, utilizados e visitados. Temos de falar também, por exemplo, na questão da agricultura e também das grandes monoculturas, da agricultura intensiva de escala industrial e das pequenas e médias explorações e de como podem sobreviver neste contexto. Como é que se pode produzir e vender, por exemplo, alimentos de forma mais local e ter uma manta de culturas muito mais diversa para evitar o risco de pragas, também potenciadas pelas alterações climáticas.

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