Legalidade… relativa
No artigo anterior, mencionou-se o papel central que A Voz do Operário teve num importante momento da resistência antifascista: a candidatura presidencial de Norton de Matos.
Mas sublinhe-se que esta coletividade cumpriu estritamente a legalidade estabelecida pela própria ditadura. A Voz do Operário limitou-se a ceder o seu salão para várias sessões de propaganda de Norton de Matos. E só se realizaram as sessões que foram previamente autorizadas pela ditadura, na pessoa do governador-civil de Lisboa.
Além disso, forças da autoridade estiveram presentes em cada sessão. E usaram do seu poder de interromper um discurso ou de decidir se determinado orador podia sequer começar a falar.
Mas, apesar de toda a suposta legalidade, A Voz do Operário deu muito nas vistas: foi o palco das iniciativas de maior relevo da oposição antifascista na capital do país.
Isto quando não tinha sido permitido à candidatura de Norton de Matos que realizasse um único comício de rua e ao ar livre, na cidade de Lisboa…
Resistência
Eram eleições falsificadas de fio a pavio, desde o recenseamento de quem tinha direito a votar, até à contagem dos votos. Porém, durante algumas semanas, havia uma relativa abertura na censura à imprensa. E, apesar de muitas restrições, era permitida a realização de comícios e sessões de propaganda. Isto enquanto durava o período oficial de campanha eleitoral.
Para a resistência antifascista, tais eleições constituíam uma rara oportunidade de expressar ideias e juntar pessoas. De mostrar que muito povo tinha a coragem de dizer que não estava com a ditadura.
Ou seja, apesar de falsas, essas eleições eram uma ocasião de animar e formar consciências, para depois prosseguir e reforçar a resistência.
Repressão
Por sua vez, para a ditadura, para além da fábula de legitimidade, as eleições que falseava eram uma oportunidade de identificar alvos para uma nova vaga repressiva. Na sequência ou mesmo durante o próprio processo eleitoral.
Sendo que a repressão não atingia apenas candidatos e ativistas da oposição. Também incutia medo e passividade ao grosso da população.
A Voz do Operário foi um dos alvos, naquele ano de 1949. E percebeu que, afinal, não tinha liberdade para ceder o seu salão a uma campanha da oposição. Mesmo cumprindo todos os supostos trâmites legais.
E assim, A Voz do Operário recusou depois o seu salão para a campanha presidencial de Arlindo Vicente, em 1958…
Instrumentos repressivos
A repressão política não se faz apenas com os instrumentos mais óbvios, como uma polícia política ou serviços de censura.
No caso em apreço, o instrumento que atingiu A Voz do Operário chamava-se «Instituto de Apoio à Família». E foi manejado diretamente por um membro do governo, o então «subsecretário da assistência». Um sujeito de nome Joaquim Trigo de Negreiros. No ano seguinte ele seria promovido por Salazar a ministro do interior.
O método foi simples: cortou imediatamente um subsídio mensal que tinha sido atribuído à sociedade A Voz do Operário. E deixou de responder à sua correspondência. Numa altura em que esta coletividade já estava fragilizada com dificuldades financeiras.
Mas não ficou por aqui. Também bloqueou a aprovação do orçamento anual d’A Voz do Operário. E com isso colocou-a numa situação de incumprimento de requisitos legais a que estava sujeita, como instituição de solidariedade social que recebia uma comparticipação financeira do Estado.
Além disso, acusou a direção d’A Voz do Operário de se ter desviado dos fins estatutários. E sugeriu que fosse demitida ao governador-civil, que era quem tinha a competência formal para forçar essa demissão, e mesmo para encerrar a sociedade.
Interesse coletivo
Na sequência de uma audiência com o governador-civil, aquela direção d’A Voz do Operário demitiu-se evocando apenas as críticas de que tinha sido alvo por alguns sócios. E organizou a eleição antecipada de uma nova direção.
Assim salvaguardou a continuidade desta instituição coletiva.
Aqui se recordam os seus nomes: Eduardo Ventura Reimão, presidente; Jorge da Cruz Valente, 1º secretário; Maria de Deus Antunes, 2ª secretária; Manuel Simões Ferro, 1º tesoureiro; António Rosado Lopes, 2º tesoureiro; Filipe António dos Santos, 1º vogal; Ilídio de Almeida, 2º vogal.
