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Eleições no Brasil: A derrota da familícia e da austeridade

O ato eleitoral no Brasil ficou marcado por uma vitória histórica de Lula da Silva, mas também pela violência bolsonarista, por tentativas de golpe institucional, intervencionismo imperialista e, sobretudo, pela resistência dos movimentos de massas.

A última eleição do Brasil foi uma corrida eleitoral inédita por inúmeros motivos. Na primeira volta, Flávio Bolsonaro foi o mais votado com cerca de 47,03% dos votos, enquanto Lula obteve 45,16%. A campanha do líder petista não tinha mobilizado as massas como deveria e focava o seu discurso sobretudo nas conquistas do passado, insuficientes para convencer o eleitorado. Contudo, o cenário mudou bruscamente com uma reorientação na campanha Lulista, focada na mobilização popular nas ruas com enormes manifestações, nas redes sociais com iniciativas como “Exército do Lula” e no apelo aos abstencionistas para que viessem votar. Verificou-se também uma movimentação por parte das camadas mais jovens, que se comprometeram com a reeleição do presidente, a mobilização dos mais velhos, o esclarecimento dos indecisos e a derrota do bolsonarismo.

Chegado o dia da apuração final, Luiz Inácio Lula da Silva é oficialmente reeleito para o seu 4º mandato presidencial, com 51.79% dos votos, de mais de 64 milhões de brasileiros. Foi a maior votação de sempre e a única virada histórica no país. Por sua vez, o Flávio alcançou apenas 48,21%, perdendo a disputa e enterrando a “familícia” e o seu projeto de poder. A taxa de abstenção foi a menor desde 2002, apenas 19,22%, com 124 milhões de eleitores. Esta disputa não era apenas importante para o povo brasileiro. Toda a América latina aguardava ansiosamente para saber como seria configurado o novo equilíbrio de poder regional. Bolívia, Equador, Argentina, Chile, Peru e Colômbia são atualmente chefiados por governos vassalos dos Estados Unidos (EUA) que Donald Trump, direta ou indiretamente, interviu para que se elegessem. O Brasil é o principal Estado do Sul das Américas e um dos poucos, junto com México e Cuba, que resistem à ingerência estadunidense e dificultam o seu pleno domínio.

Perante este cenário geopolítico, a ingerência dos EUA era esperada e inevitável nesta eleição. Segundo o jornal The Guardian, houve uma campanha milionária em curso por parte dos EUA, que financiou movimentos e propaganda contra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a desconfiança no processo eleitoral. Para além disso, a META bloqueou o alcance dos anúncios da campanha Lulista, falhou na contabilização das métricas do Instagram do presidente e partilhou ainda anúncios pagos a partir dos Estados Unidos pró-Bolsonarismo. Três dias antes da eleição, os yankees anunciaram ainda a suspensão dos seus serviços diplomáticos em várias capitais do país. A Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) alertaram para o risco de interferência norte-americana, que seria materializada, tempos depois, numa operação psicológica de tentativa de desestabilização.

Para além destas interferências externas, houve também uma articulação interna por parte da burguesia e das suas instituições, que procuraram minar o resultado eleitoral. Verificou-se um boicote nos transportes públicos no dia do pleito, ameaças e coação por parte dos patrões, entre outras restrições ao direito constitucional ao voto. Ministros do TSE também interferiam, com Alexandre Mendonça a censurar a campanha Lulista, Kassio Nunes a suspender o “Exército do Lula”, a demorar a ampliar o horário de votação e ainda a mudar, à última da hora, o local de mais de 4000 seções eleitorais para a segunda volta.

Apesar da reeleição histórica de Lula da Silva, os resultados são complexos. A extrema-direita acumulou uma força sem precedentes. Na Câmara do Senado (representantes dos Estados), as 81 cadeiras disponíveis ficaram distribuídas da seguinte forma: 48 foram ocupadas pela direita, 18 pelo centro e somente 15 pela esquerda. Já não Câmara dos deputados (“representantes do povo”), foram 283 deputados eleitos de direita, 123 de centro e somente 107 de esquerda. Ainda assim, há destaques importantes do ponto de vista institucional que reforçam a representatividade e a luta dos trabalhadores: Erika Hilton, mulher trans e progressista, tornou-se a deputada mais votada do Brasil. Jones Manoel, militante comunista, agitador e intelectual revolucionário negro, oriundo da favela nordestina, se elegeu como o segundo deputado federal mais votado de Pernambuco. Humberto Matos e Elias Jabbour, ambos comunistas declarados, também conseguiram se eleger, demonstrando uma renovação necessária de um espírito vanguardista de mudança que tem espaço e cresce no Brasil.

Flávio Bolsonaro, derrotado, associado ao escritório do crime, cúmplice de milícias, campeão das rachadinhas, recebedor de milhões de Daniel Vorcaro e com a imunidade parlamentar a terminar no dia 1 de janeiro de 2027, fugiu do país e recebeu asilo político de Donald Trump, que o auxiliou na fuga.

O bolsonarismo é um movimento fascista, que propaga a violência política e o entreguismo. Resultante desse caráter autoritário, trabalhadores, minorias, pessoas racializadas e militantes de esquerda têm sido mortos e detidos, como se tem visto nos últimos dias. Apesar das dificuldades e da disparidade de meios, existe, na consciência coletiva descontente do brasileiro comum, espaço para o discurso comunista e revolucionário. A eleição inédita de figuras como Jones Manoel assim o demonstraram. Por fim, a despolitização das massas é consequência de uma esquerda conciliadora eleitoralista que se preocupa com arcabouço fiscal e com a preservação do Estado e das suas instituições. Essa mesma esquerda abandonou as organizações de base e entregou esses espaços para as igrejas, os empresários e outros instrumentos ideológicos da extrema-direita.

Por isso, é importante recentrar o discurso, mobilizando o descontentamento da classe trabalhadora, organizando-a e demonstrando as suas causas materiais e como combatê-las de facto. Foi uma derrota institucional importante para o Bolsonarismo, mas também uma derrota do sucateamento dos serviços públicos, do tesouraço, do arcabouço fiscal e qualquer tipo de austeridade. Para o futuro, a esperança passa pela organização dos trabalhadores enquanto classe para reocupar espaços, derrotar os instrumentos morais e ideológicos do capital e construir a solução coletiva que supere as contradições atuais.

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