Em pleno verão, as imagens de Ceuta chegaram a milhões de ecrãs e alimentaram narrativas opostas numa batalha pelo controlo político do relato sobre a tragédia humana que envolveu a entrada de 80 mil pessoas num território com 84 mil habitantes. Desde logo ficou evidente que uma massa humana desta dimensão nunca conseguiria atravessar a fronteira sem a conivência de Marrocos e, dias depois, a esmagadora maioria dessas pessoas já havia regressado a Marrocos. Este episódio fez lembrar a crise de refugiados e migrantes que saíram da Turquia rumo à Europa. Em 2015, o Presidente turco Recep Tayyip Erdoğan abriu as fronteiras para a saída de milhões de sírios e outros refugiados como ferramenta de pressão política sobre a União Europeia e acabou a fechá-las depois de um acordo de compensação financeira com Bruxelas.
Apenas 10 dias antes da crise migratória em Ceuta, Pedro Sánchez, chefe do governo espanhol, aterrara em Argel para um encontro com o presidente Abdelmayid Tebboune. Em 2022, Espanha tinha decidido mudar a sua posição histórica de apoio à autodeterminação do Sahara Ocidental, sua antiga colónia agora ocupada por Marrocos, e Pedro Sánchez passou a defender um regime de autonomia posicionando-se ao lado de Rabat. Essa viragem levou ao arrefecimento das relações da Argélia, aliada do Sahara Ocidental, com Madrid, que recebeu o governante espanhol seis anos depois da última visita. O breve encontro serviu para debater a reativação do diálogo político, questões de cooperação económica, sobretudo no setor energético, onde Espanha depende do gás natural argelino.
Para além da turbulenta relação de Marrocos com a Argélia devido ao Sahara Ocidental, que levou à ruptura diplomática total em 2021, Rabat, que obteve a sua independência de França e Espanha em 1956, reclama Ceuta e Melilla, cidades autónomas controladas por Madrid, que Marrocos considera os últimos vestígios de colonialismo europeu no seu país. Hoje, o país africano é um dos principais aliados dos Estados Unidos e de Israel no continente e o Reino de Marrocos assinou seis contratos de lobbying num valor total de 2,3 milhões de euros, só em 2025, para consolidar a sua influência junto da administração Trump. Por outro lado, Marrocos normalizou as suas relações com Israel em 2020 com a assinatura dos Acordos Abraão com Israel a reconhecer oficialmente a soberania de Marrocos sobre o Sahara Ocidental. Desde então, Israel tornou-se num dos principais fornecedores de armas de Marrocos com sistemas avançados de defesa antiaérea, satélites de reconhecimento e drones. Simultaneamente, a troca de informações entre as suas agências de inteligência aumentaram.
Neste contexto, as reações do executivo liderado por Pedro Sánchez sobre a Palestina nos últimos anos têm levantado violentas declarações de governantes israelitas e avançou-se com a suspeita de Telavive e Washington terem incentivado Marrocos a abrir as portas à entrada massiva de migrantes em Ceuta.
Como era de esperar, a direita e a extrema-direita espanhola têm procurado capitalizar com este incidente acusando o governo de não conseguir proteger as fronteiras espanholas e de estarem a enfrentar uma invasão.
UE paga campos de concentração de migrantes
Se cerca de 75 mil migrantes e refugiados já regressaram a Marrocos, cerca de 5 mil continuam presentes nas ruas de Ceuta à procura de uma solução, com cerca de 1500 alojados em dois centros. Por um lado, estão mulheres e crianças, por outro, imigrantes provenientes da África subsaariana e, ainda noutro, cidadãos marroquinos. Para lá das acusações mútuas entre Espanha e Marrocos, muitos dos que agora continuam em Ceuta são o retrato de diferentes realidades: vítimas do terrorismo, de guerras e de extrema pobreza. E em muitos dos casos, são fenómenos provocados direta ou indiretamente pela ingerência ocidental nesses países. Nos últimos anos, os fluxos migratórios esbarraram com as políticas anti-imigração da União Europeia e o Mar Mediterrâneo transformou-se num autêntico cemitério de seres humanos. Segundo um relatório da Organização Internacional para as Migrações, só no primeiro trimestre deste ano desapareceram ou perderam a vida 1022 pessoas a tentar alcançar as costas europeias. Mas este dado é ainda mais surpreendente se olharmos para o número de pessoas que terão morrido a tentar atravessar o Mediterrâneo na última década. Cerca de 34 mil pessoas não conseguiram chegar à Europa e morreram afogadas, mais do dobro do total de civis mortos na guerra na Ucrânia, segundo as Nações Unidas.
Em muitos casos, os navios patrulha da Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, conhecida como Frontex, não resgatam os migrantes e obrigam-nos a regressar às águas territoriais de países africanos ou asiáticos. Por exemplo, a organização Human Rights Watch acusa a Frontex de não ter procedido ao auxílio de várias embarcações em perigo e de ter alertado as forças de terceiros países, como a Líbia, para deterem os tripulantes desses barcos. Ao mesmo tempo, em países como a Albânia, Ruanda, Uzbequistão, Mauritânia ou Líbia, foram instalados campos de concentração de migrantes com dinheiro da União Europeia até à expulsão e retorno destas pessoas aos seus países de origem.
