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Irão

Falcões sobre a Pérsia

No momento do fecho desta edição, o Irão foi novamente atacado pelos Estados Unidos, em aliança com Israel, que assassinaram Ali Hosseini Khamenei, principal líder religioso do mundo xiita, e lançaram uma onda de morte e destruição que levou à morte de mais de uma centena de crianças numa escola iraniana.

O passado parece repetir-se. Ao longo da sua história, o Irão tem sido alvo de sucessivas intervenções externas, do controlo britânico sobre o seu petróleo (1901), à Convenção Anglo-Russa que dividiu o país em esferas de influência (1907), do golpe de 1921 que colocou Reza Khan no trono, ao golpe de 1953 que também instalou no trono o seu filho Reza Pahlavi (seguindo-se anos de verdadeiro terror). Desde a Revolução iraniana, de 1979, prosseguem décadas de ingerência e guerra híbrida, nos planos militar ao comercial, entre outros.

A Revolução iraniana de 1979 acompanhou o contexto regional, iniciado com o golpe militar no Paquistão em 1977, a Revolução de Saur no Afeganistão (1978), o estabelecimento da República Democrática Popular do Iémen (1978), e a própria tomada de poder no Iraque por Saddam Hussein (1979). Este foi um ciclo histórico complexo, de esperança para muitas populações e de simultâneas vantagens e inconvenientes para os objetivos dos EUA na região. Em quase todos estes países, as esperanças defrontaram intervenções militares externas.

Em 1989, com o fim da Guerra Irão-Iraque (promovida pelos EUA e o seu aliado regional Saddam Hussein), o governo iraniano adotou muitas políticas de ajustamento estrutural do Fundo Monetário Internacional, que — de várias formas — permaneceram em vigor durante décadas. Até então, a economia iraniana desenvolvida após 1979, e apesar de não estar organizada segundo linhas socialistas, desenvolvera uma forte presença estatal, visando um planeamento público em contexto das necessidades da economia de guerra e de um certo compromisso com o designado bem-estar social islâmico.

Os EUA e Israel têm procurado (e conseguido) enfraquecer o poder regional do Irão, com o assassinato do general Qassem Soleimani em 2020, o ataque ao Hezbollah durante o genocídio israelita, incluindo o assassinato do líder Sayyed Hassan Nasrallah e o derrube do governo sírio em dezembro de 2024, com a legitimação do antigo chefe da Al-Qaeda como líder em Damasco.

No complexo modelo económico iraniano, no contexto de permanente guerra híbrida, de acosso militar constante, a cascata de sanções e embargos económicos sucessivos, desencadeados a partir de Washington, não só limitaram o desenvolvimento do país como incidiram particularmente sobre as condições de vida da sua população.

Os recentes protestos que percorreram o país, reivindicavam na sua fase inicial, em grande medida pelas greves dos trabalhadores das refinarias, por aumentos salariais e melhores condições laborais, sendo posteriormente generalizados pelas dificuldades de vida da população, agravados recentemente por uma taxa de câmbio para o dólar em níveis recorde e a escalada da inflação alimentar de 60%. Em simultâneo a estes problemas, o governo iraniano tem beneficiado os setores de exportação (que ainda operam no contexto das sanções) à custa dos importadores, o que agrava o quadro económico geral, tornando os meios de subsistência escassos para muitos iranianos.

A partir destes protestos iniciais, verificou-se uma escalada de violência. Os “protestos” transformaram-se de assembleias pacíficas para atos de sabotagem urbana de alta intensidade, resultando na morte de cerca de 100 agentes das forças de segurança, com alegações de que alguns foram queimados vivos, uma decapitação e até uma clínica médica foi incendiada, causando a morte de uma enfermeira, por exemplo. Esta escalada manteve-se por vários dias e sob várias suspeitas.

A orquestração geopolítica por trás do caos tornou-se inegável quando o Departamento de Estado dos EUA e a própria Mossad aplaudiram abertamente a violência em tempo real (New York Times, 10/1/2026), e procuraram reanimar a imagem pública internacional do descendente do Xá Reza Pahlavi (Haaretz, 3/10/2025). Em resposta, quando as autoridades desativaram o acesso à internet, os protestos perderam força significativamente, o que reforça suspeitas sobre a sua espontaneidade e reforça a tese de existência de uma estratégia de desestabilização em curso.

Pela “velha Europa”, cumprindo a tradição, as instituições comunitárias e as lideranças nacionais, rapidamente se colocaram do lado dos “protestos”, de Washington. Nas capitais europeias, como Berlim, enquanto se afirmava a “solidariedade aos iranianos”, referia o historiador indiano Vijay Prashad que “parece ser muito mais difícil dizer “acabem com as sanções”, permitindo ao povo iraniano que respire rumo ao seu próprio futuro”. E, recorde-se, nas mesmas capitais em que manifestantes foram espancados e detidos (e até mortos) pelo seu apoio à Palestina.

Não deveríamos permitir que os que venderam às opiniões públicas internacionais a ilusão das “armas de destruição massiva no Iraque” repitam a façanha, sob qualquer outro pretexto no Irão. Mas aconteceu. Por injustas e violentas que possam ser as opções políticas, económicas e sociais da liderança iraniana, elas não são justificação, para o encobrimento das responsabilidades do imperialismo ocidental, nas dificuldades sentidas diariamente no Irão, e muito menos, para a repetição dos bombardeamentos de 2025, dos EUA e Israel sobre o Irão.

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