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Internacional

A caça às bruxas está de volta

Dos dois lados do Atlântico, cresce a perseguição política contra a solidariedade com os povos e aumenta o número de represaliados e presos políticos tanto na Europa como nos Estados Unidos.

Em 2022, Asier Herranz abriu uma faixa nas bancadas do San Mamés, o estádio do Athletic de Bilbau, em solidariedade com o jornalista basco-russo Pablo González, encarcerado então numa prisão na Polónia onde viria a estar quase três anos. Por essa iniciativa, a entrada do jovem basco no recinto desportivo ficou interditada por dois anos. Quando voltou a poder entrar no mítico estádio de Bilbau, abriu uma bandeira da República Popular de Donetsk e recebeu uma multa de 60 mil euros, depois anulada por uma decisão dos tribunais.

Em junho deste ano, a polícia espanhola irrompeu pela casa de Asier Herranz e outro dos seus companheiros e levou-os à força para os calabouços da Audiência Nacional, tribunal especial para casos de terrorismo e corrupção, acusando-os de apologia de organizações e instituições terroristas. Membros da associação Iranekin Bat, movimento basco de solidariedade com o Irão, que tem um canal no Telegram que difunde notícias do que acontece naquele país agredido pelos Estados Unidos e Israel, os dois bascos passaram vários dias a ser interrogados em Madrid e aguardam agora julgamento com termo de identidade e residência.

Um mês depois, o norte-americano James Cox Chambers, conhecido como Fergie, passeava com a sua companheira, Stella Schnabel, em Ibiza, depois de vários meses na Irlanda, quando o seu carro foi bloqueado por uma dezena de viaturas da polícia espanhola. Através de um alerta da Interpol, as autoridades conduziram-no a uma cela na prisão da ilha balear e, dias depois, foi transferido para a prisão de Aranjuez, a sul de Madrid, onde aguarda a decisão do governo espanhol sobre o pedido de extradição dos Estados Unidos.

Conheci-o em 2022, em Donetsk, na então república separatista, um mês depois da invasão russa, quando Fergie colaborava com um meio alternativo norte-americano. Desde então, houve uma relação de amizade cimentada por visões políticas comuns. Anos depois, comecei a trabalhar para o Sovereign Media, um meio anti-imperialista, sediado no Quénia, composto sobretudo por jornalistas africanos e latino-americanos, que tem subsistido em boa parte graças ao apoio financeiro de Fergie Chambers.

Agora, Washington acusa-o de lavagem de dinheiro e de financiar organizações terroristas com parte da sua fortuna pessoal. Bisneto de um candidato presidencial e herdeiro da família Cox, sediada em Atlanta, Fergie esteve comprometido durante anos com causas políticas e sociais, e rompeu com a indústria familiar em 2023 vendendo a sua parte por 250 milhões de dólares. Para além do apoio financeiro a causas da população nativa dos Estados Unidos e vários projetos envolvendo movimentos afroamericanos, Fergie foi um dos principais doadores de projetos na Faixa de Gaza desde o começo do genocídio contra a população palestiniana. Desde 2023, doou cerca de 1 milhão de dólares a clínicas médicas, escolas e financiou a construção de uma estação dessalinizadora para produção de água potável para apoiar. Por exemplo, doou 250 mil dólares ao Projeto Sameer, que, segundo a organização, contribuiu para a criação de uma padaria que produz milhares de pães gratuitos por dia. Fergie doou também uma subvenção adicional de 100 mil dólares ao Projeto Zaynab para alargar os cuidados de saúde mental e o apoio psicossocial às crianças órfãs de Gaza. De acordo com a família e amigos de Fergie Chambers, o objetivo é criminalizar a solidariedade com o povo palestiniano e impedir que se atenuem os efeitos do genocídio que Israel exerce sobre Gaza.

Há agora uma campanha internacional em curso para impedir que o governo espanhol extradite Fergie Chambers denunciando aquilo que consideram ser uma perseguição política. Nos últimos meses, tem havido uma campanha sem precedentes contra as instituições e os indivíduos responsáveis pela aplicação, defesa ou invocação do direito internacional no que diz respeito à Palestina. Washington impôs sanções a juízes e procuradores do Tribunal Penal Internacional por terem desempenhado as suas funções judiciais. Também impôs sanções à Relatora Especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, em consequência dos relatórios que elaborou no cumprimento do mandato que lhe foi conferido pelo Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Ao mesmo tempo, numerosas organizações de direitos humanos, universidades, jornalistas, estudantes, investigadores e ativistas ligados ao movimento de solidariedade internacional com a Palestina têm sido alvo de investigações, processos administrativos, restrições financeiras ou campanhas de intimidação.

No fim de julho, a Comissão de Finanças da Câmara dos Representantes, nos Estados Unidos, liderada pelos republicanos, intimou a BreakThrough News a apresentar comunicações internas e registos financeiros, no âmbito de uma investigação que este meio alternativo considera um ataque com motivação política ao jornalismo independente e à Primeira Emenda. A BreakThrough News afirma que não foi acusada de qualquer crime, não recebe financiamento de governos ou instituições estrangeiras e já cumpre os requisitos fiscais e de prestação de contas aplicáveis às organizações sem fins lucrativos. O meio de comunicação afirma que os legisladores estão a visar a sua cobertura sobre a solidariedade com a Palestina, o ICE, Cuba e outras questões de política externa dos EUA, e contratou assessoria jurídica para contestar a intimação, ao mesmo tempo que lançou uma petição e uma campanha de angariação de fundos.

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