Talvez não fosse pior começar pelo fim, o estrondoso aplauso do público, afinal, a grande prova dos nove dessa aritmética entre as parcelas, espectador e espetáculo. E, para quem duvidasse da ciência exata da aclamação, ela repetiu-se, em dias diferentes, perante públicos diversos. Não havia dúvidas, aquilo que Madalena Wallenstein, coordenadora da Fábrica das Artes do Centro Cultural de Belém, imaginara quando convidou o grupo Retimbrar e o jovem coro da Voz do Operário, para que dividissem palco e propósitos no Festival Big Bang, tinha resultado na perfeição. Aqui chegados voltemos aos bastidores do processo.
Como atrás referimos a Madalena Wallenstein lançou o repto a Inês Melo, ensaiadora do coro da Voz do Operário e aos Retimbrar, o grupo portuense que bebe na sonoridade da música popular portuguesa e executa, como poucos, os instrumentos tradicionais. Madalena terá feito essa conta de cabeça e falou com a Inês e com os Retimbrar, que já faziam parte dessa 15.ª edição do Festival Big Bang do CCB. E, depois, a coisa desenrolou-se.
Bom, assegura Inês Melo, “os miúdos já cantavam quatro temas” dos Retimbrar, quer dizer que esta adição proposta não partia do zero absoluto. Mas o espetáculo tem uma narrativa própria e cada um tinha a sua, claro.
Serginho, um dos oito músicos do grupo, conta-nos como estava idealizado o concerto dos Retimbrar: “Em Dezembro tínhamos construído um espetáculo virado para músicas desse período natalício, interpretando uma versão do Natal dos Simples do Zeca Afonso”. Essa ideia de estruturar espetáculos em função das épocas ganhava sentido”. E, diz-nos, “se no verão pensamos num concerto mais festivo, em Abril, Maio um concerto mais político, como este se iria realizar em Outubro, lembramo-nos do Outono, das colheitas, das vindimas”.
Ora já Inês Melo lembrou-se que, no final do ano letivo anterior, a propósito desse grande mistério do amadurecimento humano, associado à curiosidade de quem cresce, tinha resultado num conjunto de perguntas que as crianças do coro tinham escrito num papel e colocado religiosamente numa caixa que Inês guardou. Era altura de abrir essa caixa que, não sendo a de Pandora, que uma vez aberta liberta todos os males que vêm ao Mundo, na verdade, pelo contrário, libertara ideias preciosas para este concerto que ambos, Voz do Operário e Retimbrar, começavam a construir.
Serginho, um dos oito músicos do grupo portuense, lembra que a narrativa deste novo espetáculo haveria de ser construída à volta das perguntas dos pequenos, desde logo a sua designação: “Canções ao entardecer”. Como a curiosidade filosófica da pequenada transformava a curiosidade científica do Outono: “Deixamos de pensar no Outono como estação, mas como momento da vida”, diz-nos Serginho. “As perguntas dos miúdos acabariam por ser a introdução, para cada uma das 10 músicas do alinhamento, mas eram, sobretudo, a narrativa do espetáculo”, diz-nos Serginho.
“Quando realizamos um concerto com outro grupo costumamos criar um tema em colaboração. Neste caso, criamos uma música, ‘O Equinócio’ inspirado no tema sugerido pelas perguntas dos miúdos. Aos quatro temas que o coro já conhecia, repescamos um outro tema, “A Primavera”, que eu e a Sara tínhamos criado no ano passado, para uma peça de teatro infantil”.
E assim se foi construindo o concerto de 50 minutos, “ideias muito simples”, acrescenta Serginho, “mas que trouxeram uma diversidade…” E assim seria o concerto que Madalena pensou.
Quando os 8 músicos do Retimbrar, mais as 27 crianças do coro da Voz do Operário, mais a Inês Melo, subiram ao palco, a surpresa foi completa. Serginho conta-nos como foi: “Começamos só nós com o ‘Pastor à Paisana’ e as crianças entraram já no último refrão. A partir daí era uma pergunta dos miúdos que introduzia a música que, de alguma forma, procurava responder á questão suscitada”. O segundo tema, a ‘Maçãzinha’, “Inês Melo teve o papel de solista. Depois, cantamos ‘Coisas da Minha Terra’, a que se seguiu o ‘Lindo Par’ e ‘Saudades do Futuro’, um tema só com vozes e guitarra”. E, de um tema mais introspetivo seguiu-se o “’Vai de Centro ao Centro’, uma canção tradicional alentejana”. Depois surgiria a Trancanhola Crocodélica, em que a precursão impera num diálogo de castanholas, entre Serginho e Pancho. Seguiu-se “O Equinócio”, a “Jardineira” e, por último, “Vai não vai”.
“É claro que queríamos repetir isto” confessa-nos Serginho: “As vozes das crianças dão uma luz às músicas que é de arrepiar”, confessa-nos.
Um dos concertos, o de 2 de Outubro, foi para escolas e o segundo foi para o público geral. “Os alunos das escolas são um público especial, muito exigente”, refere o músico. “Se o espetáculo não for muito convincente tornam-se barulhentos e, na verdade, estava um silêncio incrível durante as músicas e, quando acabavam, a ovação era ensurdecedora”.
Podemos repetir? Claro que sim. Qualquer grupo coral de crianças pode cantar connosco, mas isso é o nosso concerto. Aquilo não. Aquilo foi o concerto dos Retimbar com a Voz do Operário, inspirado nas perguntas das crianças”.
