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Palestina

Jornalistas do Líbano desvendam cumplicidade portuguesa no genocídio em curso na Palestina

A Palestina está no centro de tudo, e a barbárie que ao longo destes três anos de genocídio esteve à vista de todo o mundo dá-nos oportunidade para expôr as contradições que grassam nas nossas sociedades ocidentais – algo em que os media e os movimentos e organizações deste lado do mundo têm, em grande medida, falhado.

A visita a Portugal de uma equipa de jornalistas da Free Palestine TV (FPTV), vindos do Líbano, serviu de mote para expôr alguns dos aspectos dessa cumplicidade que têm passado despercebidos, e das formas como o sionismo representa um perigo também para as nossas comunidades.

A viagem começou pelo Porto, a cidade onde houve um maior crescimento do investimento israelita no mercado imobiliário em Portugal, que veio alimentar processos de gentrificação há muito em curso em várias zonas da cidade e que agora avançam a passo acelerado. Houve ainda tempo para falar da lei que nos últimos anos concedeu nacionalidade portuguesa a dezenas de milhares de israelitas e abriu a porta a muitos destes investidores, e para uma visita a Arca D’Água, um bairro da periferia do Porto que se debate com o influxo de um grande número de estudantes judeus sionistas.

Em Coimbra, a reportagem girou em torno da história de Bar Harel, um agente da Unidade 8200, a unidade de ciber-espionagem das IDF, que há um ano fugiu da cidade após lhe ter sido descoberta a careca – apresentado pelos media do capital como um pobre estudante vítima de anti-semitismo apenas por ser judeu. Desde o bairro muçulmano da al-medina, a reportagem realça ainda o silenciamento sistemático da solidariedade com a Palestina na comunidade universitária e nas paredes da cidade.

Chegados à capital, Flávio Almada levou a FPTV pelas ruas da Cova da Moura, guiando-nos pelos paralelismos entre a realidade da Palestina e a das periferias de Lisboa, onde as comunidades vêem frequentemente os seus filhos perder a vida às mãos das forças “de segurança” do estado português – forças essas que, empoderadas pela barbárie normalizada em Gaza, agora se gravam a abusar e torturar os seus detidos, partilhando os vídeos sem vergonha em grupos de whatsapp. Veja-se como, nas últimas autárquicas, a candidata do “centro-direita”, Suzana Garcia, prometeu “erradicar a Cova da Moura”, uma retórica semelhante à que se ouve das bocas de Ben Gvir e Netanyahu, e também de vários candidatos ditos “moderados” às eleições que se avizinham na colónia sionista. Invisíveis a quem vive no centro, as demolições são há muito uma realidade na periferia – entre os casos mais gritantes está o Bairro de Santa Filomena, onde casas de pessoas pobres e racializadas têm sido sistematicamente destruídas por maquinaria da mesma empresa que produz os bulldozers das IDF que arrasam a Palestina.

Encontram-se também paralelismos entre os movimentos de libertação africanos e a luta dos movimentos que resistem ao sionismo e ao imperialismo ocidental no Médio Oriente, nas referências de ícones do pan-africanismo, como Amílcar Cabral, à luta pela libertação da Palestina, e na forma como uns e outros foram (e são) demonizados pelo Império.

Na Margem Sul, a reportagem gravada nas imediações da Base da NATO na Fonte da Telha debruça-se sobre o papel de Portugal como peça central das guerras do Império no Médio Oriente – da guerra de Yom Kippur em 1973 à invasão do Iraque em 2003 e à guerra em curso contra o Irão. Merecem também menção o crescente sector da indústria militar em Portugal, as compras de material bélico a empresas israelitas e os vários casos de cumplicidade directa de Portugal com a máquina de guerra sionista em pleno genocídio na Faixa de Gaza.

As últimas duas reportagens gravadas pela FPTV em Portugal, em Mértola e no Algarve, colocam o foco no período islâmico, uma realidade da nossa História que não nos é contada na escola (nem praticamente em lugar nenhum). Ao longo de vários séculos, antes de este território se chamar Portugal, cristãos, muçulmanos e judeus coexistiam na Península Ibérica, num período culturalmente rico cujos vestígios permanecem vivos até hoje no nosso território e povo – nas ruínas de fortalezas e povoados, na agricultura e na língua e toponímia. Uma parte da nossa História colectiva que, se fosse conhecida, serviria de antídoto às narrativas racistas e islamofóbicas propagadas pela extrema-direita e os media do capital.

As 9 reportagens gravadas pela equipa em território português, com um total de 4 horas de vídeo, estão disponíveis nos canais da Free Palestine TV no youtube, rumble e telegram.

Alguns dos temas abordados ao longo desta viagem merecem, porém, um olhar mais detalhado. Neste sentido, em colaboração com o Colectivo pela Libertação da Palestina, estão a ser produzidas uma série de investigações. A primeira sai em meados deste mês de Outubro e debruça-se sobre o regime de atribuição de nacionalidade portuguesa a judeus sefarditas, as suas problemáticas e os escândalos que o envolveram.

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