“A polícia espancou-nos sem qualquer justificação, as feridas não só físicas, são também emocionais. No intervalo entre as mais de 15 entrevistas que já dei hoje, choro quando recordo as imagens da violência policial de ontem.” Este é o relato de Mariana Guedes, um dos elementos do Movimento pela Habitação do Porto que tem estado a ocupar a Praça D.João I nos últimos 5 dias.
O Movimento pela Habitação que está em protesto no Porto desde o último sábado denunciou que durante a madrugada desta quinta-feira, 15 de outubro, houve uma intervenção policial desmedida que causou ferimentos em pelo menos 37 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave.
De acordo com o movimento, entre os feridos está uma pessoa com deficiência motora e vários participantes tiveram de receber assistência hospitalar. Duas cabeças, um pulso e um braço partidos foram o resultado da violência desmesurada da polícia de choque sobre quem se encontrava na praça D.João I.
A intervenção policial começou quando os manifestantes cantavam Grândola Vila Morena
Por volta das 3h da manhã, e sem qualquer aviso, as forças policiais iniciaram a intervenção violenta. Pouco antes tinham sido dadas garantias ao advogado do movimento de que os manifestantes podiam permanecer a ocupar a praça, desde que não fizessem barulho.
Os elementos da acampada, observando as movimentações de aproximação da polícia, formaram um cordão humano para proteger a zona das tendas. Após ordens da PSP, os manifestantes desmontaram as tendas de forma pacífica. Enquanto procediam à desmontagem, e sem qualquer aviso, começou a intervenção policial. “Começaram a agredir-nos brutalmente enquanto cantávamos pacificamente o Grândola Vila Morena“, relata Mariana Guedes ao jornal A Voz do Operário. “As forças de segurança agrediram-nos sem piedade, levaram tudo à frente, objetos pessoais e comida foram destruídos e deitados fora”, acrescenta. “Eles perseguiram-nos até fora da praça”.
“Confrontos” entre manifestantes e polícia?
Ao contrário do que foi veiculado por vários órgãos de comunicação, e pelo próprio presidente da câmara do Porto, a polícia não foi obrigada a intervir e não houve confrontos prévios.”Houve, sim, uma intervenção policial violenta sobre cidadãos que estavam a protestar pacificamente por melhores direitos habitacionais”, conta-nos Mariana.
“A polícia tentou arrancar-me a canadiana das mãos, empurraram-me para o chão e começaram a bater-me”, relata-nos Cristiana Leal, deficiente motora que se encontrava a ocupar a praça. “Eu gritava que era deficiente, mas eles continuavam a dar-me bastonadas.” As forças policiais só pararam de a agredir quando uma das suas companheiras se deitou sobre a Cristiana e gritou “Parem, ela tem uma deficiência”.
“Isto nao tem a ver com a ocupação ilegal do espaço publico, eles têm medo do poder popular”, diz-nos Mariana Guedes. E continua:” As pessoas estão revoltadas. Todos os dias fazemos assembleias às 19h30 e temos tido bastante apoio popular e o movimento está a crescer.”
Como começou o protesto
A ocupação da praça D.João I começou no passado dia 10 de Outubro, depois da manifestação “Não dá mais”. Convocada pelas redes sociais e em solidariedade com o movimento pela habitação do Estado Espanhol, a ocupação da praça nasce também do protesto contra nova lei de arrendamento recentemente aprovada com os votos a favor do PSD, IL, CDS-PP, a abstenção do Chega.
O movimento apresenta seis reivindicações principais: “abaixo a lei das rendas; fim dos despejos; fim da compra de imóveis por fundos abutres; mais habitação pública; recuperação de imóveis devolutos para habitação; tetos às rendas”.
Os preços da habitação subiram 182% na última década e é a nova lei do arrendamento piorará a situação
Os preços das casas em Portugal têm subido a um ritmo três vezes superior à média da União Europeia. Segundo dados do Eurostat, no segundo trimestre deste ano, o preço das casas aumentou 16,5% em Portugal face ao período homólogo de 2025, face a 4,7% na média europeia. Foi o maior aumento entre os 27 Estados-membros. Na última década, os preços da habitação subiram 182% e os rendimentos não chegaram a ver aumentos de 50%: as casas ficaram mais caras a um ritmo que os salários não acompanhara, nem de perto.
Algumas das alterações na nova lei do arrendamento prevêm: despejos facilitados em caso de incumprimento de rendas; fim do travão de aumento de 2% nas novas rendas; permissão de exigência de até três rendas antecipadas; cauções sem limite de valor; caducidade dos contratos anteriores a 1990. Perante este panorama, acompanhado por um aumento brutal generalizado no custo de vida, é expectável que o nível de contestação não pare de aumentar em Portugal. A próxima grande jornada de luta terá lugar já no sábado, na Manifestação Nacional convocada pela CGTP-IN, para as 14h30, no Cais do Sodré, em Lisboa. E no Porto às 10:30 da manhã, da Praça da Batalha à Praça D.João I, onde se encontra o Movimento pela Habitação.
Milhares de pessoas em solidariedade com o Movimento
Milhares de pessoas concentraram-se esta quinta-feira à noite na Praça D. João I, no Porto. Ao motivo original da ação – o direito à habitação – juntaram-se a revolta e a indignação pela carga policial que deixou dezenas de feridos.
Formou-se então uma manifestação que saiu da praça onde se encontrava perto das 21h rumo aos Aliados, mas pouco depois regressou ao local de partida. O movimento promete lá ficar a noite toda, com ou sem tendas”.
