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Evitar e combater incêndios. O que falta fazer?

Ano após ano, o medo ronda as aldeias portuguesas quando chega o calor. As imagens de enormes incêndios enchem os telejornais e começa o corrupio de especialistas que analisam o que ficou por fazer para prevenir os fogos e as dificuldades dos bombeiros, da proteção civil e das autarquias para enfrentar as tragédias.

Os dados mostram que a média de área ardida anualmente cresce de forma quase exponencial. Só este século, essa área duplicou em relação à década de 80, que já tinha sido ultrapassada no decénio seguinte. De acordo com o Fundo Mundial para a Natureza, entre 2009 e 2018, em Portugal, os grandes incêndios constituíram 68% da área ardida. Houve megaincêndios em 1986, em 2000, em 2003, em 2017 e em 2025. Segundo a maior organização de conservação do mundo, há uma nova geração de incêndios devastadores e quase impossíveis de extinguir, conhecidos como incêndios de sexta geração. O primeiro da Europa, com esta classificação, aconteceu, em junho de 2017, em Petrógrão Grande.

Se os violentos fogos em Espanha mostram que este não é um fenómeno exclusivo de Portugal, cada país tem características que tornam mais fácil ou mais difícil combater as chamas. De acordo com Duarte Caldeira, antigo presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil (CEIPC), esta é uma realidade inerente aos países da bacia mediterrânica e à sua tipologia meteorológica. Mas há mais fatores a ter em causa. Desde logo o que considera ser “a ausência de políticas de ordenamento do território, comum aos três países, com particular incidência no nosso país”, que Duarte Caldeira aponta como “potenciadora” de fogos de “grande dimensão, intensidade e severidade”, dando o exemplo de 2017 e de 2025. “O incêndio faz parte do espaço florestal e é impossível eliminar a existência de incêndios. O fogo, neste caso, é um elemento regenerador do espaço florestal e faz parte do ecossistema”, no entanto, “deve ser possível estabelecer como objetivo eliminar ou mitigar as causas que que dão origem à tipologia de incêndios graves e intensos, como aqueles que se têm vindo a verificar”. Perante esta realidade e com a pergunta que todos fazem sobre como é possível que ano após ano falhem as políticas de prevenção, o especialista na intervenção da proteção civil recorda que há “algumas vulnerabilidades que nunca foram resolvidas pelos sucessivos governos deste país”. Desde logo, aponta à cabeça o “despovoamento do mundo rural” sublinhando que um “território abandonado” é um “território de risco”. Nas áreas mais afetadas, a região centro e norte do país, não foi possível, considera, alterar o ciclo de abandono. “Enquanto não for possível dar vida aos territórios rurais e, portanto, torná-los povoados, dar-lhes dimensão de trabalho e dimensão económica, o que vai acontecer é que estes territórios são sempre muito mais vulneráveis ao fogo e ao incêndio. A desertificação de emprego, de serviços públicos no interior do país, o encerramento de agências bancárias e até de multibancos, de farmácias, é um desincentivo a que se queira residir nesses territórios, logo, está a contribuir-se para que eles continuem cada vez mais abandonados”.

Simultaneamente, Duarte Caldeira diz faltar uma solução que permita resolver “o problema dos cerca de meio milhão de pequenos proprietários, em que muitos não utilizam as terras” e acrescenta decisões políticas que afetaram a capacidade de prevenção como a extinção dos guarda rios e dos guardas florestais. A transposição da função destes últimos para o corpo da Guarda Nacional Republicana “anulou a experiência de décadas dos guardas florestais, transformando-os em meros polícias”. Por outro lado, acrescenta que os sapadores florestais “são, manifestamente insuficientes para cobrir a totalidade do território”.

Outro elemento que não passa despercebido na evolução do tecido florestal é a eucaliptização de parte do país. Sendo Portugal um dos maiores exportadores de pasta de celulosa, cerca de 85% destas florestas pertencem a pequenos proprietários. Segundo as principais empresas da indústria do papel, entre 1995 e 2015, a área total ocupada por eucaliptos registou um crescimento de 18%, passando de cerca de 715 mil hectares para os atuais 845 mil hectares. Nesse contexto, Duarte Caldeira considera que não sendo a causa principal dos incêndios “não se deve substimar o potencial combustível dos eucaliptos” e que estão plantados de forma “anárquica” dado o seu rápido crescimento e retorno financeiro. Árvores como os castanheiros não são atrativas “porque demoram várias décadas a gerar rendimento”.

Ainda assim, reconhece que foram dados alguns passos desde os incêndios de 2017 que provocaram o que entende ter sido um “sobressalto cívico”. Muitas das reflexões geradas desde então foram no sentido de que este é um problema que se vai agravar, lembrando o investimento na Escola Nacional de Bombeiros e a progressiva profissionalização destes operacionais. Contudo, os meios nem sempre são os mais modernos e recorda que “muitas das viaturas que estão em operação nos corpos dos bombeiros têm entre vinte e trinta anos de trabalho”. Por outro lado, alerta para a necessidade de “continuar a investir fortemente na formação de elementos de comando”, visto que o comando de operações de bombeiros inclui “decisões altamente complexas”. Se não é fácil comandar um incêndio com 300 ou 400 bombeiros em operação, com 200 ou 300 viaturas, assim como organizando o fornecimento de logística alimentar para os bombeiros envolvidos e combustível para as viaturas, há a necessidade de formar também para a “capacidade estratégica para antever a progressão do incêndio e tomar as decisões adequadas”.

Sem querer deixar de lado o debate sobre a necessidade de meios aéreos públicos, Duarte Caldeira sublinha que há um efeito psicológico sobre as populações quando há um avião ou um helicóptero numa zona de incêndios. “As pessoas partem do princípio que estão mais defendidas, e é verdade que meios aéreos no combate a incêndios em fase nascente ou que ganham grande progressão e grande intensidade são elementos importantíssimos para o êxito de uma operação de combate, mas os incêndios apagam-se em terra. Isto é, se um helicóptero faz uma descarga que reduz a intensidade do incêndio, é preciso haver equipas terrestres que depois caem em cima do incêndio e completam a extinção”.

Associações de bombeiros em dificuldades

Com 90 bombeiros profissionais e cerca de 20 voluntários, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Amadora, fundada em 1905, é a única estrutura do género numa cidade com 176 mil habitantes numa área de 24 km quadrados. Como muitas das suas congéneres, nos períodos mais difíceis, acorre aos incêndios mais complicados a deflagrar em diferentes zonas do país. Contudo, por ano, só na Amadora, há cerca de 1300 ocorrências a que estas mulheres e homens são chamados a enfrentar. A pressão sobre a instituição é enorme e as dificuldades financeiras também.

António Carixas, presidente desta associação de bombeiros, explica que há cada vez menos jovens a quererem seguir este caminho, “provavelmente por razões financeiras, por um diferente estatuto social ou cultural”. A atividade continua a fascinar os mais jovens mas quando chegam à idade adulta não dão o passo necessário. O dirigente associativo considera que a principal razão tem a ver com os baixos salários, “muito próximos do salário mínimo nacional”. Aponta também a baixa cobertura dos seguros numa profissão exposta a acidentes graves. Por isso, hoje, há falta de pessoal para as ambulâncias e também para combater os incêndios. “Os diferentes governos fazem muitas promessas mas nada se altera no essencial, no financiamento das associações. Mantém-se um financiamento muito abaixo das necessidades das várias associações que não corresponde ao número de serviços que fazemos, porque nós substituímos uma boa parte do Estado nas funções de socorro”, alerta. Na Amadora, quem equilibra as contas destas mulheres e homens não são as verbas do Estado central, nem do INEM. É a câmara municipal que suporta em boa parte a resposta dos bombeiros da Amadora. Neste momento, com apenas quatro ambulâncias pré-hospitalares em permanência, basta haver uma das viaturas com uma avaria para dificultar ainda mais o trabalho para acorrer a emergências.

Muitos dos incêndios florestais de grande dimensão exigem a presença das corporações de bombeiros das zonas urbanas, mais numerosas e com mais equipamentos. É o caso dos bombeiros da Amadora que, ano após ano, viajam ao interior do país para enfrentar as chamas e arriscar a vida. Com uma equipa permanente em rotação e um autotanque, juntam-se aos milhares que tentam socorrer populações e evitar tragédias como as que se viram nos últimos anos.

Com uma opinião coincidente, o comandante Jorge Mendes considera que mesmo no apoio das autarquias aos bombeiros há diferenças. De norte a sul do país, o seu trabalho na Liga dos Bombeiros Portugueses permite-lhe contactar com centenas de corporações e conhecer em primeira mão as necessidades que enfrentam estes combatentes. E dá um exemplo concreto: “Quando vamos verificar os equipamentos de proteção individual, alguns são muito antigos e, alguns destes bombeiros, só têm só um equipamento, o que cria um problema de saúde adicional. Após um incêndio, ficam no equipamento algumas partículas que, obrigatoriamente, deveriam ser retiradas com lavagem ou com produtos e como eles não têm outro utilizam aquele equipamento até terem um momento de calma e descanso para depois o lavarem, o que quer dizer que estão a prejudicar a sua saúde”.

O problema da escassez de adesão de novos voluntários é também algo que o preocupa. Denuncia que muitos deles têm de meter dias de férias ou tirar tempo do seu descanso para fazerem formação e que no caso de cursos privados têm de os pagar. “Antigamente, podia-se dizer que os bombeiros eram um bocado mecenas deles próprios, hoje em dia os jovens perguntam: mas porque é que eu para tirar um curso para salvar vidas tenho que meter uma semana de férias no trabalho ou tenho que pagar o curso? Portanto, a mentalidade mudou”. Por outro lado, em conversa com vários bombeiros recebeu o desabafo de quem recebe pouco mais do que três euros à hora para arriscar a vida num incêndio. “Mas você acha que eu vou para um incêndio ganhar isso quando vou ali para o bar da praia e ganho isso em gorjetas?”, perguntou-lhe um bombeiro.

Perante a precariedade e a falta de perspectivas numa profissão sem carreira definida, há cada vez mais imigrantes a juntarem-se às fileiras dos bombeiros. Sem incentivos, aceitam trabalhar com as condições existentes. Com diferentes incêndios a assomarem em diferentes partes do país, o comandante Jorge Mendes assume que não é fácil trabalhar em Portugal. “É o que digo ao secretário de Estado muitas vezes, porque ele é do interior, ele que vai ao terreno e veja as dificuldades que têm os jovens dessas regiões”.

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