Nas ruas íngremes e nos becos da cidade, onde o elétrico 28 passa e a paisagem urbana muda a um ritmo acelerado, resistem redutos de uma Lisboa que se recusa a desaparecer. Clubes como o Operário, Desportivo da Graça e o Mirantense são muito mais do que simples coletividades. Com tantos anos de história, sustentam a missão de um desporto mais acessível, a promoção da coesão comunitária e criam um refúgio para diferentes gerações de jovens e famílias.
O ADN destes clubes remonta a um tempo em que o associativismo operário moldava a identidade social da cidade. O Operário, por exemplo, não nasceu de grandes investimentos ou de pretensões futebolísticas imediatas, mas do desejo de convivência entre trabalhadores no “Hoje, Mercado de Santa Clara” em 26 de maio de 1921, através de operários. “Juntaram-se, tiveram a ideia de criar um clube”, explica Pedro Almeida, diretor do clube. “No início nem sequer era para jogar futebol, era para estarem juntos, para conviverem…”, recorda. Contudo, hoje, a realidade que enfrentam no século XXI é radicalmente distinta. A sobrevivência do desporto popular no centro histórico tornou-se uma autêntica corrida de obstáculos, onde a burocracia, os cortes no investimento público e as profundas transformações demográficas ameaçam apagar o ecossistema associativo que sustenta a base do desporto nacional.
O desafio da cidade transformada
A fisionomia do centro histórico de Lisboa alterou-se profundamente nas últimas décadas. O aumento do custo de vida, a especulação imobiliária e a turistificação empurraram muitas das famílias locais para as periferias da Área Metropolitana. Onde antes os miúdos jogavam à bola e abasteciam as equipas dos seus bairros, hoje existe um vazio demográfico que coloca sérios problemas à captação de novos atletas.
Nestes clubes, essa mudança reflete-se na origem dos praticantes e na distância a que os sócios ficam dos mesmos. Estas entidades preservam uma história inestimável, mas lidam com o esvaziamento da sua envolvente imediata: “Temos um sócio que vem todos os dias do Montijo para pelo menos beber uma bica”,explica a presidente do Mirantense, Michelle Boullier. Já o Operário tem um problema semelhante. A captação de jogadores passa por outras zonas da cidade, e já não são do bairro onde está o clube. “Antigamente havia muito futebol de bairro, onde se conseguia captar os miúdos que vivem aqui à volta, hoje em dia já não é assim, temos atletas a vir de Almada”, diz Pedro Almeida.
Esta perda de densidade populacional jovem no bairro obriga as direções a um esforço acrescido de gestão e reorganização. Esta mudança na sociedade, em todo o bairro “que já não é tão bairro como era antigamente” diz Pedro Almeida faz com que seja cada vez mais difícil captar jovens para estes clubes.
No Desportivo da Graça, cujo foco prioritário se concentra na modalidade de futsal, o cenário apresenta contornos ligeiramente diferentes, mas igualmente desafiantes. A instituição consegue ainda fixar grande parte da sua massa de atletas nos arredores, mas vê a origem dos treinadores e dirigentes dispersar-se por toda a região metropolitana. No entanto, a exigência competitiva e a falta de treinadores locais forçam a abertura de horizontes: “95% dos nossos atletas são daqui da zona geográfica e 95% dos nossos treinadores não”, explica Miguel Antunes, vice-presidente do clube. Porém, quando os patamares etários sobem, a escassez de “prata da casa” obriga o clube a recrutar atletas de concelhos distantes, como a Amadora ou Vila Franca de Xira, que enfrentam longas deslocações em transportes públicos para conseguir treinar. O vice-presidente ainda refere que o objetivo “é levar o desporto ao nosso perímetro geográfico”, no entanto o mais importante é “que as crianças daqui tenham acesso ao desporto.”
A odisseia das infraestruturas
Se a escassez de atletas jovens é uma consequência das mudanças demográficas da capital, a falta de instalações desportivas adequadas é o maior estrangulamento à atividade diária e à expansão destes clubes. Sem recintos próprios com dimensões oficiais necessárias, o dia a dia das equipas transforma-se numa autêntica logística nómada.
A não ser o Operário, que possui o seu próprio campo de futebol onze e já passa pela dificuldade de o sustentar. No caso do Desportivo da Graça, o aumento do número de inscritos é motivo de orgulho, mas esbarra imediatamente na ausência de espaços. “Nós dizemos que temos 160, 170 jogadores este ano, porque vamos criar aqui uma nova equipa e teremos cerca de 200 atletas, mas sem um pavilhão, nós não temos um pavilhão próprio”, lamenta a direção.
A escassez de infraestruturas municipais abertas às coletividades, obriga a que uma única equipa de formação tenha de desdobrar os seus treinos por vários pontos da cidade durante a mesma semana, pagando rendas elevadas pelo aluguer de horas em pavilhões dispersos.
Esta fragmentação espacial compromete não apenas a rotina das famílias e dos atletas, mas também a preparação técnica e tática da modalidade. O futsal moderno exige recintos com medidas regulamentares (40×20 metros), uma realidade inacessível para a maioria das sessões de treino do Desportivo da Graça, pois o futsal “pratica-se bem num campo normalizado”. “Nós não praticamos futsal em nenhum pavilhão com 40 por 20, sem ser em jogo”, afirma Miguel Antunes A partilha de recintos com pouca disponibilidade horária impede inclusivamente a integração de novas modalidades desportivas de pavilhão que procuram abrigo nas coletividades da zona.
O Mirantense passa pelo mesmo problema, mas como apenas tem equipa de futebol sénior a sua situação passa a ser diferente, não mais fácil, pois devido à escassez de campos de futebol onze nesta zona da cidade e ao valor exagerado dos que existem, o clube joga no campo do Operário, o Estádio Victor Peralta.
A pressão imobiliária no centro histórico ataca os clubes em duas frentes fatais, a grande escalada dos custos com infraestruturas e o esvaziamento demográfico dos bairros tradicionais de Lisboa. O aumento das rendas sufoca a tesouraria das coletividades, como alerta Michelle “Acho, sem dúvida nenhuma, que a questão das rendas é o fator mais prejudicial à manutenção e ao desenvolvimento do movimento associativo.” Indo ao encontro de Rita Moura, também vice-presidente do Desportivo da Graça, que descreve que no dia em que não tiverem “esta receita”, não podem ter “esta despesa”. Denuncia que “falta um apoio, falta uma política de desporto para a cidade”.
A este garrote financeiro soma-se a deslocação forçada dos moradores, que drena os sócios e põe em risco a própria continuidade do associativismo e da renovação de dirigentes. Esta escassez de recursos humanos exige uma entrega ética de quem fica. O altruísmo, a “carolice”, é a única barreira contra a comercialização das instituições, como explica também a presidente do Mirantense “Em que é que eu posso servir o meu clube? Não é o clube que me deve servir” e assenta ainda que “ninguém se vai servir” do seu clube.
Suster uma estrutura desportiva e social no centro histórico de Lisboa exige uma ginástica orçamental diária. As receitas das quotas de sócios e das mensalidades estão longe de cobrir as despesas operacionais fixas como licenciamentos, modalidades e o aluguer de instalações. No Desportivo da Graça, a mensalidade mantida nos 20€ para garantir o acesso ao futsal, juntamente com a quota simbólica de 1€ por mês, faz com que a fatura mensal de quase 2.000€ em pavilhões dependa criticamente dos apoios da Junta de Freguesia. E por muitas vezes estes clubes têm de recorrer a outros métodos para angariar dinheiro, no caso do Mirantense, o clube participa nos arraiais de São Vicente que são uma “receita muito importante” que garante “pagar as despesas fixas do clube”.
A Causa Comum
Apesar das suas identidades próprias e percursos singulares, as três instituições encontram-se no mesmo muro, a escassez crónica de apoios económicos e de infraestruturas.
Quer seja o Operário a gerir o seu campo de futebol onze, o Desportivo da Graça a desdobrar os seus treinos de futsal por pavilhões dispersos na capital, ou o Mirantense a tentar arranjar o seu próprio campo de onze, o problema é transversal. No caso do Mirantense, a ambição de criar novas modalidades esbarra na mesma barreira que aflige os seus vizinhos, pois infelizmente não há pavilhões suficientes, o que “impossibilita lançar o vólei feminino” e os que existem não têm “mancha horária na cidade de Lisboa para poder desenvolver a atividade que nós queremos”, acrescenta.
Em pleno século XXI, resistir no centro histórico de Lisboa é um ato diário de coragem associativa. Seja através do futebol masculino do Inatel, do projeto de futebol feminino, da histórica rampa do Vale de Santo António no Mirantense, da formação no futebol de onze no Operário, ou do trabalho formador do futsal no Desportivo da Graça, os três clubes encarnam, em conjunto, uma frente comum de resistência comunitária.
Embora sejam três entidades distintas, com histórias e rotinas próprias, é na união do ideal associativo que encontram a sua maior força. É nesta capacidade coletiva de resistir à gentrificação, de ultrapassar dívidas, de manter as portas abertas à noite e de dar amparo à população que o Desportivo da Graça, o Operário e o Mirantense provam que, enquanto o movimento associativo se mantiver unido e ativo, a alma popular e solidária de Lisboa continuará viva.
Rampa do Vale de Santo António
Fundado em 2021, o Clube Relâmpago nasceu pela iniciativa de um grupo de amigos unidos pela paixão pelo desporto popular e pelo associativismo. Desde então, tem desenvolvido várias modalidades desportivas, sempre com o objetivo de aproximar o desporto da comunidade e de colaborar com coletividades de bairro. Foi precisamente desse trabalho de proximidade que surgiu um dos seus projetos mais marcantes junto do Mirantense, a recuperação da histórica Rampa do Vale de Santo António.
Organizada pelo Mirantense nas décadas de 1940 e 1950, a prova deixou de se realizar em 1954. Anos mais tarde, ao consultarem antigos jornais, membros do Relâmpago encontraram referências à competição. A descoberta despertou a curiosidade do grupo, que decidiu desafiar a direção do Mirantense a voltar a organizar a corrida. Daí nasceu uma parceria que juntou o conhecimento da coletividade histórica ao entusiasmo dos novos organizadores.
O Relâmpago ficou responsável pela componente logística e desportiva, tratando do regulamento, das inscrições e dos contactos com a Federação Portuguesa de Ciclismo, enquanto o Mirantense mobilizou moradores, comerciantes e instituições locais. A primeira edição da nova fase da prova, em 2021, reuniu 67 atletas e mais de 50 voluntários. Desde então, o evento tem crescido de ano para ano e, na última edição, registou 160 inscritos.
Apesar da vertente competitiva, a Rampa do Vale de Santo António recuperou-se como uma festa do bairro. Concertos, oficinas para crianças, o Prémio das Varandas e outras iniciativas envolvem moradores de todas as idades, recriando o ambiente das antigas edições. Para a organização, a prova é uma forma de devolver a rua às pessoas e reforçar os laços da comunidade.
Grande parte da organização é assegurada graças ao apoio de pequenos comerciantes, parceiros locais e voluntários, além da inscrição simbólica dos participantes. Um exemplo de como o associativismo continua a manter viva uma tradição com mais de 80 anos, transformando a Rampa do Vale de Santo António num momento de encontro, participação e celebração da identidade do bairro.
