Internacional

Líbano

No país dos mártires, o sul não se rende

Esta é uma viagem frenética ao coração da guerra, onde as forças de Israel tentam dizimar o sul do Líbano e esmagar a resistência. Entre vales e montanhas, pequenos grupos de homens conduzem uma guerra de guerrilha para defender o seu país. Terroristas para o Ocidente, heróis para o mundo árabe. Como peixes dentro de água, cunhou Mao Tse Tung, dão a vida contra um dos mais poderosos exércitos do mundo, acusado de todo o tipo de crimes.

Não é um rally mas podia ser. Enquanto co-piloto sou absolutamente inútil. Não tenho a mais pálida ideia do sítio onde me encontro. Ouvem-se explosões. As forças que lançam bombas estão acusadas dos crimes mais dantescos. Sem piedade, assassinam crianças, idosos, atacam ambulâncias e matam jornalistas. Do outro lado da fronteira, a cerca de 40 quilómetros do lugar em que nos encontramos, naquilo que alguns consideram Israel e outros Palestina ocupada, de acordo com o New York Times, estão acusados de treinar cães para violarem prisioneiros palestinianos. À luz das autoridades israelitas, qualquer árabe é terrorista. Parece ser esse o seu crime.

Ao meu lado, impassível, de cigarrilha na boca, Hadi conduz apenas com uma mão no volante. O jornalista libanês há de explicar mais tarde que nunca pára em casa de ninguém porque isso poderia ser um pretexto para os israelitas nos matarem e alegarem que estávamos num edifício do Hezbollah. Doueir aparece pela primeira vez como um lugar perdido no meio das montanhas. Uma névoa cobre os vales e parece não haver vivalma. O silêncio é de morte. O manto de nuvens, garante, dificulta a operacionalidade dos drones israelitas e facilita a vida aos combatentes do Hezbollah que não muito longe dali disparam a artilharia contra as forças invasoras.

Desde que Israel intensificou as agressões contra o Líbano no princípio de março, esta região tem sido um dos epicentros das hostilidades. Se o cessar-fogo no Líbano, imposto pelo Irão aos Estados Unidos, tem poupado Beirute e o Vale do Beca, com exceções, todo o sul do país está sob a mira da brutalidade israelita. Enquanto aceleramos pela região de Nabatieh em direção a Doueir, Hadi Hoteit recorda a sua infância nesta localidade que antes da fuga dos seus habitantes tinha cerca de 7500 pessoas. A resistência está-lhes no ADN. Desde os anos 70, tiveram de enfrentar quatro invasões de Israel (1978, 1982, 2006 e 2024).

Numa das suas viagens para reportar os ataques de Israel a partir da linha da frente, Hadi Hoteit foi testemunha do assassinato de dois amigos e de duas das suas grandes referências como jornalista. Em Jezzine, uma localidade cristã, uma viatura marcada com as letras PRESS foi atacada por Israel e morreram Ali Shuaib, Fatma Ftouni e Mohamad Ftouni. Hadi crescera, em Doueir, a 500 metros da casa de Shuaib, um dos mais importantes repórteres libaneses, e com ele aprendeu muito do que sabe hoje.

“Era um jornalista veterano. Ele trabalhou no sul do Líbano por quase 40 anos. Era correspondente do canal Al-Manar e cobriu tudo o que havia para cobrir. Desde a guerra de libertação, as operações da resistência, os ataques israelitas. Durante toda a guerra, Ali Shuaib foi um símbolo de como um correspondente de guerra deve trabalhar”, descreve Hadi. “Eu tive muita, mesmo muita sorte em conhecê-lo. Éramos amigos. Foi como um mestre. Ensinava-me como lidar com cada situação, onde ir, onde não ir, entender a linha da frente. Como ele, trago notícias da linha da frente. Não transmito o que alguém me disse. Se queres reportar, tens de estar lá onde as coisas acontecem. Ali Shuaib foi uma fonte de inspiração e pagou com a vida ao lado de Fatma Ftouni, também minha amiga e colega”, recorda.

Nesse dia, Hadi chegou ao local onde os três jornalistas foram assassinados e recolheu os pertences de Fatma Ftouni, que espera entregar à família que se encontra refugiada. Ao lado da repórter, Hadi trabalhou durante muito tempo numa equipa de notícias no canal Al Mayadeen. “Era uma ótima editora e jornalista, e tinha uma alma maior do que possas imaginar. Fátima era a jóia dos jornalistas. Entusiasta, quando terminava o turno de trabalho saía imediatamente de Beirute para ir ter com a sua família em Taybeh, no sul do Líbano. Já durante a guerra, depois de ter estado refugiada alguns meses com a família em Beirute, continuava a ir para Taybeh. Tinha uma relação especial com o sul do Líbano. E foi ali que cresceu como repórter de guerra ao lado de Ali Shuaib. Também aprendeu muito com ele”.

Hadi recorda que quando o primeiro drone israelita atingiu a viatura onde se deslocavam os jornalistas, Fatma e o seu irmão, Mohamad, repórter fotográfico, feridos, conseguiram abandonar o carro. Na estrada, seguia outra viatura que decidiu parar e ajudar. O paramédico Ahmad Onaissi e o seu amigo Mohamad saíram e, nesse momento, Israel voltou a atacar e matou todos os que ali estavam. “Israel queria ter a certeza que todos os ocupantes desse carro morriam. É assim que os israelitas conduzem a luta contra a nossa população. Eles não querem que os jornalistas mostrem o que se passa no sul do Líbano”.

Com o Hezbollah no sul do Líbano

Enquanto Hadi explica que é bom um jornalista ter medo, lembra que estar muito tempo na linha da frente acaba por fazer relaxar a tensão. “Não é bom porque ter medo às vezes ajuda a tomar decisões importantes”. Depois de sermos seguidos por mais de duas horas por um drone israelita em Tiro, vamos a caminho de Deir Qanoun an-Naher, abaixo do rio Litani, o lugar de nascimento de Hashem Safieddine, apontado durante décadas como o sucessor do seu primo e histórico líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah. Apenas seis dias depois do brutal bombardeamento que matou Nasrallah, Israel matou também Safieddine.

Entre prédios completamente destruídos, numa rua por onde não passa ninguém, aparece Abdullah el Danan, representante do Hezbollah, que, diante das provas de mais um crime israelita, não perde a oportunidade para denunciar a “prova da brutalidade do inimigo e da sua visão hostil em relação a toda a sociedade libanesa, incluindo civis e combatentes da resistência, de todas as classes sociais”.

Hoje, o dia está bom para os manobradores de drones. Não há uma única nuvem no céu e a entrevista é realizada ao ar livre. Vários militantes do Hezbollah observam Abdullah el Danan para garantir a sua segurança. “Cada vez que uma casa é bombardeada, um telhado é destruído e uma família de civis é martirizada, a lealdade e o apego à resistência aumentam cada vez mais”, sublinha. Não evade a pergunta quando questionado se não é o Hezbollah considerado uma organização terrorista pelo Ocidente? Recorda que não foi a sua organização a invadir a “Palestina ocupada”, que é como se referem ao Estado de Israel. “O Hezbollah lançou as suas operações militares contra Israel como forma de resistência à ocupação israelita de uma parte do Líbano. Hoje, não lutamos em terras palestinianas. Lutamos em Maroun al-Ras, Bint Jbeil, Jibaa, Kfar Shouba, Mas, Hula, Naoura, Bayada e todas estas terras são terras libanesas. O agressor é esta entidade opressora que ocupa o território. Portanto, o que a resistência faz é lutar pela soberania libanesa, que é um direito legítimo de acordo com as Nações Unidas e todos os direitos humanos que uma pessoa tem de defender a sua casa, a sua terra, os seus filhos e as suas filhas”.

Durante a entrevista, ouvem-se explosões e regressamos a Doueir a grande velocidade. Israel voltou a atacar a localidade. Numa prática habitual, Israel lançou uma bomba que não explodiu e vários locais terão ido ver o que se passava. Nesse momento, contou um dos habitantes, as forças israelitas lançaram um novo ataque que deixou um morto, vários feridos e muita destruição. O ambiente em Doueir é de muita consternação. Ouvem-se gritos e vêem-se vários homens a tentar retirar destroços à procura de vítimas. A raiva de Hadi é palpável. Aqui todos se conhecem. Os que morreram e os que continuam vivos.

Ainda sobre o medo, explica que é um sentimento que se perde quando se vê tantos amigos assassinados. “Sentir-me-ia traidor se não fosse para a linha da frente trabalhar quando eles tiveram essa coragem. Precisamos de agir, precisamos de fazer parte da resistência na batalha da informação, sem armas. É importante desmantelar a propaganda israelita. Podes perguntar-me porque é que não estou a combater ao lado da resistência. Eu acho que o que eu estou a fazer é igualmente importante porque mostro a verdade enquanto os israelitas espalham a ignorância através da manipulação com o apoio de meios de comunicação de todo o mundo”.

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