Uma greve de fome histórica teve início a 2 de Novembro de 2025, no 108.º aniversário da Declaração Balfour, através da qual o governo da Grã-Bretanha apoiou formalmente a criação de um estado judaico na Palestina. Protagonizada por prisioneiros da Palestine Action, esta foi a maior greve de fome coordenada nas prisões britânicas desde a greve dos prisioneiros irlandeses em 1981.
Nesse dia, Qesser Zuhrah anunciou: «Nós, que estamos encarceradas pelo estado britânico por resistirmos ao genocídio do nosso amado povo palestiniano, declaramos o início da nossa Greve de Fome, reafirmando o compromisso com a nossa luta de dentro das paredes desta Prisão.» Qesser, a mais jovem prisioneira política do regime britânico, e Amu Gib foram as duas primeiras prisioneiras a declarar greve de fome, a que se foram juntando progressivamente outros e outras accionistas da Palestine Action – Heba Muraisi, Jon Cink, Teuta Hoxha, Kamran Ahmed, Umer Khalid e Lewie Chiaramello.
Ao todo, no Reino Unido, cerca de três dezenas de pessoas encontram-se encarceradas por acções contra a máquina de guerra israelita durante o genocídio em curso na Faixa de Gaza. A maioria está presa há mais de um ano sem ter sido condenada por qualquer crime – num regime semelhante ao da detenção administrativa israelita, usada para encarcerar milhares de palestinianos sem qualquer condenação. A maioria tem os julgamentos marcados para meados de 2026 e para 2027.
Os prisioneiros têm sofrido abusos sistemáticos e restrições na sua correspondência, chamadas telefónicas e visitas, que escalaram após a proscrição da Palestine Action como “organização terrorista” pelo regime britânico em Junho passado. Os presos usaram o sistema de reclamações das prisões e o sistema judicial para exigir que os seus direitos fossem respeitados, mas foram repetidamente ignorados – não lhes tendo sido deixada outra alternativa senão usar os seus corpos para se fazerem ouvir.
Presos por tentar travar o genocídio com as suas próprias mãos
Fundada em 2020, a Palestine Action ganhou proeminência à medida que o genocídio avançava e que os métodos tradicionais de protesto provavam não produzir resultados tangíveis. A organização, que utilizava a acção directa como forma de causar danos à máquina de guerra israelita, atraiu um número crescente de pessoas que buscavam algo além das habituais manifestações, vigílias e debates.
A campanha da Palestine Action centrava-se na Elbit Systems, uma das maiores empresas de armamento israelitas, visando também seguradoras, bancos, empresas parceiras e os senhorios das suas instalações. Entre 2020 e 2025, a Palestine Action levou a cabo mais de 500 acções directas e forçou o encerramento permanente de várias fábricas de armamento e da sede da Elbit em Londres, perturbou a produção de componentes de F35, destruiu drones usados em Gaza e forçou vários parceiros, como o Barclays, a desinvestir e cortar relações com a empresa israelita.
A proscrição da Palestine Action como “organização terrorista”, preparada de antemão pelo regime britânico em conluio com organizações sionistas, foi precipitada por uma acção contra a base aérea de Brize Norton, durante a qual foram danificados dois aviões militares britânicos utilizados no genocídio. Desde Junho, mais de um milhar de pessoas foram detidas pela polícia britânica em protestos pacíficos por segurar cartazes com a mensagem «Eu oponho-me ao genocídio em Gaza. Eu apoio a Palestine Action.» Estes manifestantes, a maioria idosos, enfrentam até 14 de anos de prisão por esta simples acção.
Para vencer, é preciso resistir
A greve de fome tinha 5 exigências centrais: fim de toda a censura nas comunicações, liberdade imediata sob fiança; direito a um julgamento justo; anular a proscrição da Palestine Action; e encerrar a Elbit Systems. Em meados de Dezembro, quando vários grevistas já tinham sido hospitalizados e as mobilizações cresciam nas ruas e no exterior das prisões, os media britânicos (e internacionais) continuavam a guardar silêncio absoluto sobre a greve – e o governo de Keir Starmer recusava-se a negociar com os grevistas.
Entre 19 e 23 de Dezembro, Qesser, Amu e Jon, que se aproximavam dos 50 dias sem comer, suspenderam as suas greves, recusando-se a morrer enquanto o governo se escudava atrás das “férias institucionais” para se esquivar às negociações. Heba, T Hoxha, Kamran e Lewie continuaram as suas greves.
Heba Muraisi estava há 72 dias sem comer, T Hoxha há 66, e Kamran Ahmed há 65, quando o governo britânico anunciou o cancelamento do plano de celebrar um contrato com a Elbit Systems no valor de 2 mil milhões de libras, que encarregaria a empresa israelita de restruturar o treino do exército britânico e treinar 60 mil tropas ao longo de 15 anos. Além do cancelamento deste plano – que se incluía na quinta exigência –, os grevistas conseguiram ainda: o regresso de Heba à HMP Bronzefield, após ter sido transferida para uma prisão a centenas de quilómetros da sua família; a entrega de correio retido, assim como livros sobre Gaza e feminismo, após meses de espera; e outras pequenas vitórias.
De dentro da prisão, estes prisioneiros deram ao mundo um valioso exemplo de luta – uma luta que não estará completa enquanto a Palestina não for livre. Cabe-nos agora a nós, que estamos cá fora. Como apelou Qesser quando interrompeu a sua greve: «Às pessoas livres deste mundo, e desta Nação, que se ergueram em resistência ao longo da nossa greve de fome, rogamo-vos que também não baixem os braços, pois Gaza continua a passar fome!»
