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Paciente alega islamofobia e negligência médica durante atendimento em hospital de Lisboa

Mariana Tavares, de 27 anos, passou mais de dez horas em sofrimento no Hospital São José, em Lisboa, alegando ter sido vítima de negligência e discriminação por parte de alguns profissionais de saúde.

Em entrevista à Voz do Operário, a jovem portuguesa e muçulmana disse que antes de se deslocar às urgências, na quinta-feira (15/01), seguiu o protocolo e  ligou para o SNS. Já nas dependências do São José, por volta das 19 horas, descreveu ter sido recebida por um médico que a atendeu “bufando e sem paciência”, relutante em examiná-la. Após insistência, ele consultou rapidamente as análises realizadas há três anos e garantiu que ela “estava bem”, e que deveria regressar em um ano.

Ao questionar a decisão, Mariana afirma que o atendimento ficou mais violento. “O médico “perdeu a paciência, levantou da cadeira e, sem pedir permissão, veio por trás e arrancou o meu gorro e hijab da cabeça”. Em seguida, “agarrou-me o pescoço com força, apertando muito forte. Tudo isso enquanto eu estava com dores, fraca e quase sem voz”.

Após o episódio agressivo, o médico teria demonstrado pressa em “despachá-la”. Enquanto isso, uma enfermeira na triagem insinuava que a paciente estava a “exigir” exames. Foi quando o médico disse “não saber que ela era muçulmana”, levando o marido de Mariana a reagir: “Você não pode tratar nenhum paciente dessa forma, sendo muçulmano ou não”.

O casal foi então encaminhado a um segundo médico, um estrangeiro, após cinco horas de espera. Quando o marido pediu que ela explicasse os sintomas, o profissional questionou com ironia: “ele está te dando permissão para falar, é isso?”. “Eu fiquei absolutamente chocada, pois isso é uma pergunta completamente islamofóbica”, disse Mariana.

A paciente alega ainda que o segundo profissional limitou-se a um teste de memória superficial, recusou pedidos de exames mais detalhados e encaminhou-a para o médico de família com uma espera de seis meses. Irritado com a insistência do casal, que tentava explicar que a situação poderia ser grave, o médico solicitou os dados pessoais do marido por “motivos legais”. Por fim, acabou por marcar exames, mas, de forma a tentar desencorajá-los, impôs uma espera de três horas, comentando que “há gente a morrer aqui”.

“Após mais de onze horas naquele hospital, a única informação que tive foi de um enfermeiro, que de forma arrogante disse que não havia ‘nada de relevante’ no caso”. Mariana Tavares recebeu alta sem diagnóstico, apenas com uma dose intravenosa de paracetamol.

Ministério da Saúde investiga

Em resposta à reportagem, o Ministério da Saúde afirma que a Unidade Local de Saúde São José recebeu a reclamação no dia 19 de Janeiro e que a mesma “já está a ser tratada” pelo Conselho de Administração, que abrirá um processo de inquérito interno conforme a legislação em vigor. 

A instituição também reforçou o compromisso com a “diversidade cultural da população que recorre aos seus cuidados de saúde”, ressaltando que, neste sentido, foi criada, em 2019, a ‘Comissão da Diversidade e Inclusão’, que identifica e propõe “medidas corretivas” para o desenvolvimento de “atividades de sensibilização e formação dos profissionais para as temáticas associadas à diversidade, inclusão e direitos do utente”.

As falhas no sistema nacional de saúde português agravaram-se significativamente desde que Ana Paula Martins foi nomeada pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro (PSD), para assumir a pasta. Atualmente, os utentes deparam-se com um cenário crítico: longas listas de espera, serviços de urgência sobrecarregados, uma escassez crônica de médicos e enfermeiros, e infraestruturas hospitalares obsoletas. Apenas no ano passado, mais de 60 bebês nasceram em ambulâncias devido à falta de leitos nas maternidades.

No domingo (18/01), Mariana Tavares dirigiu-se a uma esquadra da PSP, em Olivais, para apresentar queixa. Nervosa por nunca ter feito um depoimento antes, não conseguiu conter as lágrimas ao reviver o trauma. No entanto, o policial que a atendeu limitou-se a dizer que “não estava lá para ver o comportamento dos médicos” e recusou-se a registar a ocorrência, alegando que “não havia crime”.


Desde o trauma vivido no São José, Mariana diz não conseguir se concentrar nem dormir direito. Lamenta o fato de ter que procurar por um serviço privado para obter um diagnóstico preciso. “Tento distrair a cabeça, assistir alguma coisa, mas não consigo. A lembrança daquele momento de dor e angústia sempre volta”.

Discurso de ódio contra muçulmanos

Paralelamente ao caos vivido na saúde, Portugal também tem testemunhado um aumento preocupante no  discurso de ódio e nos atos de violência contra imigrantes e minorias, incluindo a comunidade muçulmana. No fim de janeiro, 37 pessoas ligadas ao grupo neonazista 1143 foram presas em Portugal. Entre os detidos, estão um policial da PSP e um militar da Força Aérea, além de várias figuras ligadas ao Chega, partido do atual candidato à presidência, André Ventura.

Segundo o inquérito da Polícia Judiciária, há indícios de que o líder fundador do movimento, Mário Machado, continuava a comandar o grupo 1143 a partir da prisão. De lá, ele estaria planejando ações violentas, incluindo um possível ataque à comunidade muçulmana em Portugal em Fevereiro, mês em que o país voltará às urnas para o segundo turno das eleições presidenciais.

Em junho do ano passado, alguns membros do grupo neonazista teriam participado nos insultos racistas contra o imã da Mesquita Central de Lisboa, o sheik David Munir, no mesmo dia em que agrediram o ator Adérito Lopes no Teatro A Barraca, em Lisboa, com a presença de apoiadores do Reconquista, outro movimento de caráter supremacista que alega haver uma substituição populacional em curso.

No mesmo ano, o prefeito de Lisboa, Carlos Moedas (PSD), chegou a solicitar uma reunião de emergência para tratar do “aumento da percepção de criminalidade” na cidade, sugerindo a instalação de câmeras de vigilância em bairros com presença significativa de residentes dessa comunidade. 

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