Revelado ao público português com esse poderoso e denunciador livro Ainda Estou Aqui, revelador do que foi a brutalidade criminosa da “ditadura dos coronéis” (1964/1985), no Brasil, livro que serviu de base ao filme homónimo do realizador Walter Sales, que relata o assassinato do pai Rubens Beyrodt Paiva, às mãos dos torcionários fascistas, Marcelo Rubens Paiva regressa às livrarias portuguesas com mais um relato pungente, também ele autobiográfico, de um acidente que, aos 20 anos, o colocaria para sempre numa cadeira de rodas.
Este primeiro romance de Marcelo Rubens Paiva tornou-se, pela sua destreza vocabular, pela agilidade narrativa, pela jovialidade inconformada do discurso, num clássico da literatura brasileira contemporânea. Feliz Ano Velho é, sobretudo, um prodígio da arte de narrar, do escritor envolvido na linguagem, nesse linguajar que mistura, sem complexos, o crioulo e o português, o calão Paulista e essa criativa mistura de falas que a juventude universitária dos anos 1970 utilizava de modo livre para comunicar, fazendo lembrar uma velha canção de Carmem Miranda, Tudo quanto a baiana pronúncia/é brasileiro/já passou de português.
Rubens Paiva descreve-nos, sem qualquer ponta de dramatismo ou de recorrência a períodos de emotiva autopiedade, o acidente que o deixou tetraplégico, a sua passagem pelos hospitais, a difícil tentativa de recuperação da espinha dorsal, a visita de familiares e amigos, que sempre o acompanharam nesse caminho de esperança e desilusão:«- Agora, força pra fora. Ele pedia segurando meu antebraço. Força pra fora significava, em termos fisioterapêuticos, supinação, segundo me ensinara Helô. Era girar o antebraço mantendo o cotovelo na cama. – Levante o punho. Nada. Minha mão ficava solta, desmunhecava como as bichas da Major Sertório».
É neste tom, entre o grave e um humor solto e sadio, que a narrativa de Rubens Paiva consegue estabelecer forte empatia com o leitor, a descrição solta e despretensiosa, a tocar a conversa entre adolescentes e sem a pretensão de “fazer literatura”, seja a causa do sucesso que este livro obteve no Brasil, sendo-lhe atribuído o prémio Jabuti, de Revelação, em 1982.
Mas Feliz Ano Velho, não se limita a contar a forma corajosa – ele diz-nos que não era coragem era uma forma de estar ali, e aguentar – como enfrentou a incapacidade motora, mas vai-nos revelando as suas memórias “dos dias felizes”, as inúmeras namoradas, os engates nos bares, na Universidade, na praia, as pequenas paixões, o amor de passagem, as cenas de sexo descritas com uma leveza incomum: «A Laurinha foi escolhida pra primeira noite. O barato é que ela tinha transado com todos meus amigos, mas comigo não. E sabíamos que nunca transaria. Isso facilita horrores a amizade entre um homem e uma mulher. Ninguém precisa provar nada a ninguém. Somos o que somos, sem frescura, jogação de charmes, ciúme. Foi ótimo. Ficamos fofocando a noite inteira, e ela ria pra burro das nossas abobrinhas (é a risada mais gostosa que conheço)».
Sexo, aventuras amorosas, amigos prá vida, memórias da militância nas repúblicas académicas, a música de Chico Buarque, de Caetano, de Gil e, de novo, essa memória ferida do pai assassinado barbaramente pela camarilha fascista que dominaria o Brasil até 1985.
Um magnífico romance autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, que se lê de um fôlego e com prazer.
Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. Edição D. Quixote/2025.
