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“Obstrução”: a liberdade e o desejo, em reposição nos “Artistas Unidos

Os Artistas Unidos repõem no Teatro da Politécnica entre 22 de Junho e 2 de Julho, “Obstrução”, a última peça encenada em vida por Jorge Silva Melo.

Em cena, no Teatro da Politécnica, entre 22 de Junho e 2 de Julho.

Quem és? Perguntei ao desejo.

Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

Hilda Hilst

Trata-se de um conjunto de quatro textos curtos e metafóricos de Dimítris Dimitriádis, que não escondem um pendor político e uma grande liberdade, características da obra do dramaturgo grego, obra esta amplamente divulgada em Portugal por Silva Melo. Aliás, estes textos foram-lhe exclusivamente enviados para ele os levar a cena. 

Estamos na Grécia Antiga. Ocupando o centro do palco, vemos um amplo colchão. Um pano branco no qual incide a luz azul leva-nos para o movimento de um rio. Na margem está um rapaz (Pedro Caeiro), o escolhido por Sócrates entre outros discípulos, para a confissão sobre os seus desejos por um jovem. Sócrates fala-lhe da unidade, corpo e alma, que começa e acabamos com a nossa vida. É posto em causa o que conhecemos dos diálogos socráticos sobre a imortalidade da alma e a reminiscência. Para este Sócrates (Pedro Lacerda), a descoberta é a da carne e do desejo. O desejo domina Sócrates, o seu interlocutor e o de todos os que, também jovens, o vêem a atravessar a cidade, e a desaparecer. Quem foi Sócrates? Um homem misterioso, que descobriu também o desejo, responde Dimitriádis. 

Desafiar os Deuses, e ousar amar o outro

“Obstrução” convoca também o suplício de Tântalo, filho de Zeus que testou os Deuses, roubando-lhes o seu manjar, colocando no seu lugar carne do seu filho Pélope. O castigo por trocar o desejo da carne pela carne do filho foi ser lançado entre vales e rios, em Tártaro; cada vez que se aproximava do rio para saciar a sede ou de uma árvore para matar a fome com um dos seus frutos, estes afastavam-se. Quem é Tântalo hoje? Como unimos o desejo de alcançarmos o que nos é próximo e se pode tornar inalcançável, por medos interiores, limitações da sociedade, ou preconceitos, sejam ele de género, identitário, de raça ou classe? 

Esta é também a questão de Narciso (André Loubet). Envolto no pano branco, que assume dupla função metonímica de cobrir a nudez (como manto) e ao mesmo tempo a reflectir (como lago), Narciso evita o amante, nega o seu amor, e evita o seu suicídio. Diz não ao desejo do outro; para si só existe o seu corpo e a sua imagem. “É isto que sou / Um não / Um só não”. O hedonismo deste eu narcísico parece reflectir a sociedade materialista, egocêntrica, muitas vezes esquecida de alteridade, do interesse comum, do espírito de comunidade. No fim, o Narciso de Dimitriádis recusa a idolatria de si (“Digo não ao não”), afirmando a capacidade para desejar outro. O dramaturgo sugere que corremos menos riscos de ficarmos afogados na nossa imagem se arriscarmos a entrega afectiva e carnal, aceitando amar e ser amado. 

A queda de Aquiles, e a obstrução dos mitos no presente

Aquiles (Diogo Freitas), o melhor e mais belo lutador contra Troia, jaz num leito de morte, nudez semicoberta (no mesmo lugar onde esteve Narciso), depois de ferido no calcanhar, única parte do corpo que deixou desprotegida. Aquele que o acolheu (Simon Frankel) fala da sua figura, agora ali prostrada; ainda o idolatra e deseja. Aquele que era belo e forte, caiu pela sua fraqueza. O que nos pode derrotar pode ser muito pouco; nem sempre cuidamos dessa fraqueza, fortalecendo-a. Nem sempre é claro, para cada um de nós, como não é para estes mitos helénicos, perceber onde reside a sua força, que podem estar no que é menos visível. 

Se atentarmos à etimologia da palavra Aquiles veremos que é composta, em grego antigo, por um par de outras: luto e povo/nação. Afinal, Aquiles seria o herói do luto, e não apenas a imagem que dele criaram e que formou o próprio mito. Talvez assim percebamos porque vemos apenas o seu corpo morto, e um homem que vive o luto do herói derrotado. 

Os mitos do passado parecem obstruídos no presente. De que forma nos libertamos, e encaramos a nudez de alma, de entusiamo (que é também o centro destas personagens tristes, contemplativas e melancólicas), ou apenas a impermanência do nosso desejo, que pode ser “lava. Depois pó. Depois nada.” É sobre isso que fala a peça que os Artistas Unidos levaram à cena no Teatro da Politécnica, ainda em vida de Jorge Silva Melo, e que repõem temporariamente, para nos fazer questionar o quão podem estar obstruídas as nossas próprias noções de desejo, nudez, identidade, alteridade e comunidade.  

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