Voz

Cultura

9.ª Gala de Fado Operário

A 9.ª Gala de Fado d’A Voz do Operário, que decorreu dia 9 de novembro, no salão de festas desta instituição, celebrou, mais uma vez, o Fado Operário.

A madrinha da Gala, inspiradora da imagem do prémio, Maria da Nazaré, (1946-2025), figura incontornável desta expressão musical, foi lembrada e homenageada na abertura do evento, momento que contou com o contributo do Prémio Guitarra Portuguesa, José Manuel Neto, do Prémio Viola, Diogo Clemente e de António Passão que interpretou o fado de Maria da Nazaré “Não Tolero”. Maria da Nazaré seria ainda lembrada e homenageada por uma das premiadas desta Gala, a atriz, bailarina e humorista Lídia Franco, que foi distinguida com o Prémio Artes e Espetáculo.

Resgatado da marginalidade, o fado, escreve Rui Vieira Nery, passou a ser tratado “em pé de plena igualdade com outros géneros performativos poético-musicais, tanto populares como eruditos (…) cada vez mais olhado como uma matriz identitária do nosso País”, mas continua a “ser reivindicado pelo seu círculo social de origem, a ser cultivado no seio das famílias, das tertúlias e das associações recreativas dos bairros de Lisboa”.

Ora, a Gala é isso mesmo, a celebração do fado operário, lembrando por um lado, como bem o fez Manuel Figueiredo, presidente da Voz do Operário, a importância da instituição no resgate de um género musical marginalizado pelas elites até ao princípio do século passado, o contributo desta mesma instituição na consagração do fado, pela UNESCO, como património Imaterial da Humanidade, sem deixar de manter viçoso esse cordão umbilical que, apesar da sua evolução, mantém com as suas origens operárias.

E, é exatamente essa ligação que o prémio Divulgação realça, atribuindo-o à Associação Cultural de Fado “O patriarca do Fado” Alfredo Marceneiro.

Vítor Duarte, neto de Alfredo Marceneiro, recebeu o galardão. “O meu avô era um operário”, lembraria, convocando também à memória coletiva uma outra figura amiga de Alfredo Marceneiro: Avelino de Sousa, homem do fado, poeta, compositor tipográfico no jornal “A Voz do Operário” e que foi mais tarde, o primeiro conservador da Torre do Tombo. Vítor Duarte lembrou-o para que também ele fosse homenageado na entrega deste galardão.

Mas esta nona edição, que contou, mais uma vez, com três músicos no desenho de toda a trilha musical – José Manuel Duarte, na Guitarra Portuguesa, Pedro Soares, na Viola e Nuno Lourenço, no Baixo -, festejou a longa caminhada do fado, da sua origem operária, popular, à sua expressão mais erudita, das tabernas, das festas de rua aos mais distintos palcos dos sete cantos do mundo, do fado castiço de Marceneiro ao fado contemporâneo de Carminho.

Carminho, distinguida nesta gala com o Prémio Tributo, é, muito provavelmente, na atualidade, a mais reconhecida interprete desta expressão musical a nível internacional. Esta voz que cruzou o Atlântico numa confraternização musical com vultos da cultura brasileira como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso ou Milton Nascimento, defende que a sua intervenção criativa no fado, não o muda, antes trabalha “sobre ele, como uma artesã, com as mãos.” Carminho encontrava-se em digressão no estrangeiro e por isso não pode estar presente nesta cerimónia e foi a mãe, a fadista Teresa Siqueira, que recebeu o Prémio e leu uma comunicação.

Já o galardão entregue a Amélia Muge, premeia a relação da cantora, compositora, mas sobretudo letrista, com o fado. Amélia Muge, Prémio Poesia e Literatura enriqueceu com as suas letras as carreiras, entre outros, de Pedro Moutinho, também presente nesta Gala, Ricardo Ribeiro e Cristina Branco, também esta já premiada na 7ª Gala da Voz do Operário.

Esta Gala teve ainda mais sete distinções: Prémio Carreira para os fadistas Maria Valejo e Manuel Barbosa; Prémio Lisboa para Filipa Cardoso; Prémios Revelação para Jéssica e Diogo Pombas; Prémio Popular para Maria do Sameiro e o Prémio Solidariedade para Carlos Alberto Vidal, o músico, cantor e compositor muito conhecido por ser o personagem Avô Cantigas do programa televisivo “O Passeio dos Alegres”.

Pelo palco desta Gala, mais uma vez apresentado pela dupla Inês Carranca e Tiago Góes Ferreira passaram sete vozes do fado: André Vaz, Cristina Madeira, Fernando Jorge, Pedro Moutinho, António Passão, Cristina Maria e Filipa Maltieiro.

Artigos Relacionados