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“Deseja-se Mulher”: homenagem à liberdade da grande Fernanda Lapa

O espectáculo “Deseja-se Mulher” esteve no Teatro São Luiz, em Lisboa, para celebrar a vida de uma das maiores actrizes e encenadoras do teatro português contemporâneo, Fernanda Lapa (1943-2020).

Segundo a encenadora e actriz Cucha Carvalheiro, a homenagem só podia ter como cenário um cabaret. É na semipenumbra deste espaço onde se toca piano ao vivo, que vamos acompanhando, de forma não linear, o percurso de Fernanda, através das actrizes Ana Sampaio e Maia, Carla Bolito, Margarida Cardeal e Marta Lapa, que, vão tomando o corpo e as palavras da actriz ao longo de 77 anos.

A liberdade de expressão, a luta pela igualdade de direitos das mulheres, o inconformismo face a um país escuro e silencioso durante a ditadura, a afirmação de um lugar colectivo e individual como artista foram as suas batalhas centrais. Fernanda ainda estudou assistência social, mas percebeu que o seu caminho se fazia de reflexão cultural e vontade criadora. Casou e foi mãe. Teve desgostos familiares. Estudou fora do país; trabalhou e aprendeu com grandes figuras da encenação europeia; viveu o dadaísmo; e foi elogiada na primeira peça como actriz por Almada Negreiros, precisamente na peça “Deseja-se Mulher” (da autoria de Almada). Viu um país fazer explodir uma “cobra” que era o fascismo e uma ponte, ponte a que depois deram o nome de Abril. Trouxe ao palco as grandes dramaturgias gregas, especialmente “Medeia” e “As Bacantes” (ambas de Eurípides). Em 1995, após uma conversa com outras mulheres, tem a ideia de formar a Escola de Mulheres, que ainda hoje desenvolve um repertório cénico único. Este conjunto de mulheres, de gerações diferentes e experiências diversas, tem como objectivos: a luta, no teatro português, pela igualdade na condução dos processos criativos, na política de repertórios ou no relacionamento com o poder.

Em “Deseja-se Mulher”, o papel de dramaturga cabe, ironicamente, ao actor Luís Gaspar (uma das dramaturgas que Fernanda Lapa encenou, a inglesa Timberlake Wertenbaker, é referida no masculino em pesquisas online…), que vai vendo as colegas a interpretar os episódios de uma vida que se desenvolveu a par da história de um Portugal que, mesmo em democracia, continuou a relegar para segundo plano o trabalho artístico. Conhecemos ainda a Fernanda fumadora, que conduzia a alta velocidade pela avenida marginal; a Fernanda que preparava jantares para os amigos, e a Fernanda que juntava o inconciliável de ser comunista, casada e ter carta de condução.

O desassossego de Fernanda

O texto do espectáculo, da autoria de Ana Lázaro, traça um caminho pela grande “Casa” que foi Fernanda Lapa. Não entrando pela porta, vai descobrindo e revelando compartimentos, quartos e espaços exteriores que suscitam a curiosidade por uma mulher que tomava à letra uma das falas de Medeia: “Ninguém me suponha fraca e débil, nem sossegada; outro é o meu carácter, dura para os inimigos, benévola para os amigos.”

Este cabaret recebe muitos amigos, encena peças, e nele acontecem acesas discussões. Também se fala da ausência que é sempre luto, por mais que se iluminem e dramatizem memórias. Mas é um cabaret de um luto vibrante e alegre, como Fernanda Lapa desejaria. Ana Lázaro refere, no texto da folha de sala, que durante a investigação: “às vezes a mesma história era contada por duas pessoas de forma diferente. Se calhar, nenhuma das histórias é verdadeira. Ou, se calhar todas as histórias são verdadeiras. E a verdade não reside no meio. Reside ali mesmo no ponto em que as duas histórias se contradizem. A mancha conta a história.”

“Deseja-se Mulher” capta significativos momentos pessoais, sociais e profissionais de uma Mulher. É a celebração do teatro. Do amor à representação e à encenação, livres de preconceitos, abertos à escuta das pessoas e do mundo. Longe do medo. É este o legado de Fernanda Lapa nos seus alter egos, personagens e peças que a estimulavam, inquietavam e a faziam estar em contínua criação.

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