A brincadeira como direito
Para os mais novos, o verão n’A Voz do Operário ganhou este ano um novo fôlego. Nuno Abreu, diretor geral, explica que esta é a primeira edição de um programa de férias num formato mais robusto e aberto não só aos alunos da casa, mas também a crianças externas entre os 6 e os 12 anos. O objetivo claro é oferecer uma resposta educativa de qualidade que complemente os valores de solidariedade e partilha trabalhados durante o ano letivo, “neste caso, com atividades diversas durante o período de férias”.
Catarina Lourenço, que acompanha diariamente as crianças, sublinha a alteração do modelo para que as crianças também pudessem ter saídas: “Um dia de praia de manhã, outro dia um museu à tarde ou uma oficina na escola”. No Programa de Verão d’A Voz do Operário, há uma regra de ouro. “Não são permitidos trabalhos de casa”, afirma a coordenadora do ATL. Nestas salas e pátios, privilegia-se a brincadeira livre e a autonomia.
As atividades são desenhadas para estimular a imaginação. Um exemplo marcante é a construção da “Terra dos Sonhos” utilizando apenas cartão, onde as crianças são desafiadas a pensar nos pilares de uma sociedade ideal. Para Catarina Lourenço, o impacto vai para além do entretenimento, onde as crianças “aprendem a regular as suas emoções e a gerir os seus conflitos”. A coordenadora do ATL confessa que, nos dias mais cansativos, é o sorriso dos pequenos que lhe dá ânimo. “Estes miúdos dão-me esperança todos os dias”.
Combater o isolamento
Enquanto as crianças descobrem o mundo, no Centro de Convívio trabalha-se para que o mundo não se esqueça de quem o ajudou a construir. Destinado a sócios com mais de 55 anos,gratuitamente, este espaço é uma resposta social que funciona todas as tardes. Diogo Faustino, animador do centro, descreve-o como um lugar de combate à exclusão social e ao isolamento, especialmente visível numa Lisboa cada vez mais gentrificada.
“A ideia é trazer pessoas que deveriam estar autónomas para fazer atividades de estimulação cognitiva e psicomotora”, diz o animador. O dia típico começa com conversas sobre a atualidade e música, evoluindo para artes plásticas ou até para momentos em que os mais velhos partilham as suas histórias. Um dos momentos altos é o “gancho”, lanche partilhado por volta das 16h, onde os próprios utentes fazem questão de pôr e levantar a mesa, estimulando assim a sua autonomia.
Os desafios, contudo, são reais. Diogo nota que os utentes chegam agora com níveis de dependência e demência muito superiores aos de há uns anos. Ainda assim, a instituição adapta-se.“Este ano, foi introduzido um serviço de transporte para colmatar as dificuldades de mobilidade destas pessoas”. A carrinha d’A Voz do operário é, muitas vezes, o único meio que permite a estas pessoas sair de casa e fugir à solidão.
O encontro de gerações
Um dos pilares fundamentais d’A Voz do Operário é a interação entre gerações. Não se quer que as crianças e os idosos vivam em compartimentos diferentes. Catarina Lourenço refere que tentam sempre integrar os utentes do Centro de Convívio nas oficinas das crianças. Nuno Abreu reforça ainda que este convívio é “muito estimulado”, sendo um elemento que engrandece o trabalho coletivo da instituição.
Seja no Arraial de julho, que junta famílias, utentes e trabalhadores, ou nas atividades partilhadas do dia a dia, o objetivo final é o de melhorar a qualidade de vida da comunidade. Como resume o diretor geral, “o que move A Voz do Operário é a vontade de ajudar a melhorar a vida das pessoas e acrescentar algo, do ponto de vista coletivo e individual”.
Neste verão, a energia das crianças que constroem cidades de cartão e na imaginação e a sabedoria dos mais velhos que partilham memórias ao lanche, A Voz do Operário reafirma-se como um espaço onde a idade é apenas um detalhe perante a força do associativismo e do afeto.
