Para comemorar os 30 anos do ANIM (Arquivo das Imagens em Movimento), a Cinemateca Portuguesa realizou uma sessão em que exibiu “Cinema – Alguns Cortes de Censura III”. Trata-se do terceiro filme de montagem que o realizador, montador e arquivista Manuel Mozos fez em 2014, a partir de cortes correspondentes a proibições que Comissão de Censura (CC) do Estado Novo empreendeu aos filmes estrangeiros em Portugal de 1945 a 1974. O manancial destes cortes abrange 900 objectos fílmicos, que continuam a ser trabalhados. O que chegou até aos nossos dias corresponde apenas a 10% do que se julga que foi cortado pelos censores.
Censores sobre a erotização feminina
Em “Cinema – Alguns Cortes de Censura III”, os planos e cenas montados pertencem a filmes emblemáticos – como “Sentimento” (“Senso”), de Luchino Visconti (1954), “Até à Eternidade” (“From here to eternity”), de Fred Zinnemann (1953) – e a filmes não identificados. A escolha foca-se num certo olhar por parte da CC em torno da postura, perfil e lugar da mulher na sociedade. Nesse sentido, vemos momentos em que a erotização, a beleza e a sensualidade femininas foram obliteradas dos respectivos filmes, em nome da “boa moral” e de certos valores ligados à família e patriarcado. São eliminados beijos, toques, actos de violência, rebeldia, relacionamentos adúlteros e locais pouco recomendados pelos censores (clubes, cabarets, casas de jogo, etc.). A censura também visava aquilo que é dito pelas personagens. Há diálogos não traduzidos, ou onde é clara a deturpação dos mesmos na tradução da legenda em português.
Estas eram as obras estrangeiras que os censores permitiam que fossem exibidas com cortes. Centenas de filmes estrangeiros foram totalmente banidos das salas. Por exemplo, estava totalmente proibida a exibição de todos os que vinham do bloco soviético (nem sequer passavam na alfândega). E não esqueçamos que muitos filmes portugueses também sofriam cortes e outros tantos foram proibidos na íntegra (sendo o último “O Mal-Amado”, de Fernando Matos Silva, 1973).
Legendas deturpadas
A censura prévia ao cinema e ao teatro já acontecia antes de 1945. Porém, não existem registos de como é que se processava.
As limitações à liberdade de expressão eram transversais à sociedade. O cinema era um entre tantos veículos de controle da população. Tinha ele mesmo de ser escalpelizado ao milímetro. O regime fascista pretendia claramente formar e formatar os espectadores com as suas instruções ideológicas de comportamento, enunciados nas “Directrizes para uso da censura cinematográfica”.
Sabendo disto, a maioria dos distribuidores praticava auto-censura. Uma vez que lhes interessava ter público e lucros de bilheteira, apresentavam à comissão cópias não legendadas com a lista de legendas não traduzidas (para evitar cortes), ou fazendo eles mesmos os cortes (o que era proibido).
Hoje, quando vemos um filme, uma série de televisão, ou assistimos a uma peça de teatro, facilmente nos esquecemos que os nossos direitos de expressão foram conquistados a pulso – e que existiu esse tempo em que não nos deixavam ser livres quando nos sentávamos numa sala de espectáculos. Usufruímos da arte, reflectimos, imaginamos e questionamos. Isso é a liberdade.
A realização destes filmes é um serviço público que a Cinemateca Portuguesa cumpre em nome das conquistas democráticas de Abril. Esperemos que sejam exibidos com frequência, e que outros surjam em breve.
