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A creche como início do percurso educativo n’A Voz do Operário

A creche não é uma etapa menor ou preliminar n’A Voz do Operário. É um território pedagógico próprio, com especificidades que devem ser reconhecidas, valorizadas e integradas no projeto comum da instituição.

Quando o Jan Amos Comenius pensou o seu projeto educacional que implicava que absolutamente tudo tinha que ser disponibilizado a absolutamente todos, o mundo ainda era bem diferente do que é hoje. Escrevíamos o ano de 1640 na era Cristã. A proposta dele parecia simples: 6 anos de educação materna, 6 anos de escola na língua materna, 6 anos de escola na língua do Saber (então ainda o Latim) e pelo menos 4 anos de formação para a profissão. Com o evoluir dos tempos e das ideias, os 6 anos maternos seriam hoje 6 anos de educação familiar fora da escola, antes da escola. Contudo, a proposta parece surpreendentemente atual, quando olhamos para muitos sistemas educativos.

No tempo de Comenius, as famílias com maiores recursos recorriam a amas. Os primeiros humanistas ainda não consideravam as crianças como seres pensantes. Quem entregava as crianças às amas, estava ainda convicto que se tratava unicamente de assegurar os cuidados básicos. Mas tal como acontece hoje, a maioria das famílias não tinham outra alternativa senão trabalhar para garantir a sua subsistência. Levavam as crianças consigo ou encontravam no seio da família outras formas de assegurar os seus cuidados. Esta realidade, marcada pela dificuldade em conciliar a vida profissional com o cuidado das crianças, contribuiu gradualmente para a institucionalização da primeira infância e para o surgimento dos chamados «depósitos de crianças». Os seis anos de educação materna pareciam uma miragem.

Nos finais do século XIX, as propostas de Friedrich Fröbel deram uma nova força à ideia de Comenius. Ele considerava que as crianças mais novas tinham necessidade de educação e não somente de guarda. Pondo em prática um jardim-de-infância, idealizou um espaço lúdico, onde crianças iam intencionalmente desenvolver destrezas, brincando.

Avançou-se um pouco. Crianças são seres pensantes, não são tábuas rasas. Mas só depois de adquirir a fala? Afinal, o que fazem os bébés no bercário, pergunta Paulo Fochi no seu admirável livro. É verdade, os Jardins de infância, hoje com o nome oficial de pré-escolar, foram integradas nos sistemas educativos. Mas também é verdade que durante muito tempo, a creche continuou a ser vista como uma resposta social: um espaço de acolhimento, proteção e apoio às famílias. As instituições que acolhem as crianças até terem 3 anos reportam ainda hoje à Segurança Social. Embora a dimensão de acolhimento e proteção continue a ser importante, torna-se hoje cada vez mais necessário afirmar com clareza a creche como sendo uma resposta eminentemente educativa. Cada vez mais existem orientações emanadas dos sectores educativos. Também foi assim em Portugal. Temos hoje ao lado das orientações curriculares para o pré-escolar, as orientações pedagógicas para a creche.

Há já muito que n’A Voz do Operário este olhar educativo intencional era claro. Mais do que uma vez se argumentou, também em actos oficiais, que a creche obrigava a um trabalho educativo, que a creche não era simplesmente um ambiente para manter as crianças seguras. Significa construir contextos ricos em relações, experiências e oportunidades de aprendizagem, respeitando cada criança como sujeito de direitos, competente, participativo e capaz de atribuir significado às experiências que vive desde o nascimento.

No contexto d’A Voz do Operário, a publicação das orientações pedagógicas para creche assume especial relevância. Reconhece-se, agora também oficialmente, a creche como o início de um percurso pedagógico contínuo, integrado e intencional.

Já tínhamos assumido a creche como parte central do projeto educativo da instituição. As crianças devem poder viver as suas experiências próprias desde o nascimento. Nesta perspetiva, educar na creche não se limita à satisfação de necessidades básicas, nem se reduz à preparação para etapas seguintes. Eis o perigo eminente da institucionalização dos sistemas educativos sempre que orientações pedagógicas se tornem curriculares. Existe o risco de somente trabalhar em função do que vem a seguir. Se o termo jardim-de-infância parecia datado para muitos, o termo pré-escolar pode induzir à perceção errada que nesta fase se trata de preparar as crianças para a escola. A perspetiva assumida n’ A Voz do Operário é diferente. A infância tem valor próprio. Cada etapa constitui um tempo pleno de vida, de descobertas, de relações e de aprendizagens significativas.

Para o projeto educativo d’ A Voz do Operário trata-se de construir contextos de relação, comunicação, exploração, bem-estar e aprendizagem, nos quais a criança se desenvolve em interação com os outros, com os espaços, com os materiais e com a cultura que a rodeia e nos quais, logo que surgem, as orientações curriculares se integram.

O grande contributo da creche para a identidade institucional está, justamente, em tornar visível que cuidar e educar são dimensões inseparáveis da mesma ação pedagógica. Os momentos de acolhimento, alimentação, higiene, repouso, brincadeira e transição não são interrupções do processo educativo; são, pelo contrário, ocasiões fundamentais para a construção de vínculos, para a segurança emocional, para a autonomia progressiva e para o desenvolvimento da comunicação.

Quando pensada pedagogicamente, a rotina deixa de ser uma mera organização do tempo e transforma-se numa estrutura educativa, capaz de oferecer previsibilidade, confiança e respeito pelos ritmos de cada criança.

Outro aspeto decisivo é a valorização do brincar, da exploração sensorial, do movimento e da observação atenta como eixos centrais do trabalho em creche. Isto exige profissionais capazes de escutar os sinais das crianças, documentar processos, interpretar interesses e organizar ambientes educativos ricos em possibilidades, construindo propostas que respeitem os seus interesses, necessidades e potencialidades.

A qualidade educativa da creche resulta sempre de um trabalho coletivo. Os auxiliares de ação educativa são igualmente agentes educativos fundamentais. O seu contacto diário com as crianças, nos momentos de cuidado, de brincadeira, de alimentação, de repouso ou de acolhimento, contribui decisivamente para a construção de relações de confiança, segurança e bem-estar, integrando plenamente a ação pedagógica da equipa.

Os técnicos especializados enriquecem a qualidade do trabalho em creche através da prevenção, do acompanhamento das crianças e das famílias e do apoio permanente às equipas. A diversidade de saberes permite compreender cada criança na sua singularidade e responder de forma integrada às diferentes necessidades que surgem ao longo do percurso educativo.

A creche não é uma etapa menor ou preliminar n’A Voz do Operário. É um território pedagógico próprio, com especificidades que devem ser reconhecidas, valorizadas e integradas no projeto comum da instituição.

Ao mesmo tempo, a creche ocupa um lugar estratégico na construção da continuidade do percurso educativo dos 0 aos 12 anos. Importa torná-la cada vez mais visível no projeto educativo, porque isso ajuda a evitar ruturas entre berçário, creche, jardim de infância e ciclos seguintes, favorecendo transições mais humanizadas e coerentes.

Quando a instituição assume a continuidade entre valências como compromisso pedagógico, ela reforça a ideia de que cada etapa tem valor em si mesma, mas que também faz parte de um percurso mais amplo, construído com intencionalidade, colaboração e sentido de conjunto.

A creche convoca também uma relação especialmente próxima com as famílias. Nesta etapa, a confiança, o diálogo e a corresponsabilização tornam-se ainda mais essenciais, sem confusão de papéis.

A parceria com as famílias fortalece a ação educativa quando assenta numa comunicação clara, no acolhimento e no respeito mútuo, reconhecendo que educar crianças pequenas é uma tarefa relacional e coletiva. Do mesmo modo, o papel dos profissionais não docentes, a reflexão conjunta das equipas e a documentação pedagógica precisam de ser valorizados como partes integrantes da qualidade educativa.

Reforçar o lugar da creche no projeto educativo é, portanto, mais do que acrescentar uma valência ao discurso institucional. É afirmar uma conceção de educação que começa no nascimento, que reconhece a potência da primeira infância e que entende a instituição como espaço de continuidade, participação e desenvolvimento humano. Ao fazê-lo, A Voz do Operário fortalece a sua identidade pedagógica e reafirma que a creche é, plenamente, educação.

Investir na creche é investir na infância. E investir na infância é investir numa sociedade mais justa, mais democrática, mais solidária e mais humana. É acreditar que a educação começa no nascimento e que toda a comunidade educativa — profissionais, famílias e instituição — partilham a responsabilidade de construir, desde os primeiros meses de vida, percursos educativos ricos em significado, participação e esperança.

Esta convicção acompanha A Voz do Operário desde as suas origens e continua hoje a orientar o seu projeto educativo.

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