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Marcha Infantil leva a diversidade à Avenida da Liberdade

Nos 50 anos da Constituição, A Voz do Operário leva a diversidade às Marchas Populares.

De tesoura na mão, Inês Santos corta um tecido azul e explica que está a fazer umas calças. Fá-lo com a certeza de quem repete este gesto há já muitos anos. Depois de acabar os trajes das marchantes, falta agora fazer a indumentária dos rapazes. “Pessoalmente, gosto dos figurinos todos os anos e, neste, o figurino é muito colorido”, descreve. O que mais custa mesmo, explica, é começar. Do papel para o tecido, o grande desafio é materializar a ideia e tornar idêntico o produto final. São muitas horas de trabalho nas mãos das voluntárias que se juntam, desde março, nesta sala d’A Voz do Operário.

É o caso de Ana Marques que desde que se reformou nunca faltou à chamada para vestir as meninas e os meninos da marcha infantil. “A vontade é a mesma desde a primeira vez, é por causa dos meninos e eu gosto muito deles”, explica. Ali ao lado, noutra mesa de costura, Paula Trabulo, com sobrinhos n’A Voz do Operário, conta que é o seu segundo ano. Adora trabalhar com crianças e diz que é uma honra trabalhar aqui. “Senti-me mesmo feliz da última vez quando os vi na Avenida. Aquece o coração”.

Para estas mulheres, as meninas e os meninos d’A Voz do Operário significam muito. Inês recorda que, há dias, uma criança entrou na sala de costura e disse que os vestidos estavam muito bonitos. De seguida, deu um beijo a cada uma das costureiras.

Defender a diversidade

Mas se não há Marcha Infantil sem trajes, tampouco há sem arcos. À frente da equipa que constroi estas peças está Pedro Passarinho, que de há três anos para cá se envolveu nesta árdua mas gratificante tarefa. O professor d’A Voz do Operário explica que implica muitas horas e muita gente, num trabalho que demora aproximadamente dois meses.

“Este ano começámos um bocadinho mais cedo. Normalmente partimos de um desenho que é feito por Nuno Lopes, que é quem também desenha os trajes. E depois o que fazemos é tentar passar para três dimensões numa coisa que está em duas dimensões. Até agora tem corrido bem. Temos vindo a diminuir o peso dos arcos. Começámos com arcos muito robustos e depois percebemos que não era necessário serem tão robustos, tendo em conta a utilização que têm”, descreve. O que demora mais é a construção do primeiro arco porque é aí que se afinam dimensões, proporções, materiais e cores. A partir desse, “são construídos em série”, etapa a etapa, num processo que envolve quatro ou cinco pessoas durante a semana e cerca de 30 nas jornadas aos sábados com a participação da comunidade.

Depois de levar a paz e os 50 anos da revolução de Abril, nos últimos dois anos, à Avenida da Liberdade, este ano, A Voz do Operário escolheu a diversidade como tema. Pedro Passarinho explica que é algo que vai estar bem expresso nos arcos com padrões dos diferentes continentes, incluindo a cultura portuguesa, e com diferentes rostos e tons de pele que representam os olhares diversos “que as pessoas têm sobre as coisas”.

“No centro, temos uma esfera que vai ter os diferentes tipos de famílias que temos n’A Voz do Operário com famílias monoparentais, com famílias com um pai e uma mãe, com dois pais ou duas mães. Todos os dias trabalhamos com diferentes famílias na nossa comunidade. Não temos só aquela família convencional de um pai, uma mãe e uma criança, temos todos os tipos de família”, explica.

Para a ensaiadora Sofia Cruz, que avança que os ensaios estão a correr bem e com muita adesão, o tema da diversidade é igualmente importante e considera que os padrinhos escolhidos encaixam bem no lema deste ano.

Nesse sentido, Nuno Abreu, diretor-geral d’A Voz do Operário sublinha a importância da escolha deste tema dentro do contexto político em que vivemos e no ano em que se celebra o 50.º aniversário da Constituição da República Portuguesa. “Entendemos que o discurso de ódio, a falta de respeito pela diferença, nos fez trazer este tema quando se comemoram os 50 anos da Constituição da República Portuguesa, que consagra direitos, a igualdade e a liberdade. Nada melhor do que dar ênfase à diversidade quando é preciso garantir que se consagram estes direitos nas vidas de todos nós. Tem a ver com os direitos humanos, com os direitos sociais, com a melhoria da nossa vida coletiva”.

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