Foram muitas as peças que a 43ª edição do Festival de Almada trouxe a teatros, escolas e espaços exteriores da cidade da margem sul do Tejo. Companhias de todo o mundo revelaram, ao longo de duas semanas, uma vasta e diversificada amplitude de temáticas, técnicas e abordagens. Houve também a reposição de peças que podem ter passado despercebidas por cá – como “Happy Days, com encenação de Miguel Seabra e a extraordinária interpretação de Mónica Garnel. Em todas, o diapasão alinhou pela qualidade. É uma boa forma de fechar a temporada teatral e ir a banhos: esta imersão naquilo que a arte dramática anda a pensar e a trabalhar. Quem nunca o fez, que guarde já parte do mês de Julho do próximo ano para esta imersão de criatividade.
“Le Sommet”, da companhia suíça Théâtre Vidy-Lausanne, foi um dos destaques. “O Cume”, na tradução portuguesa, deixa muitos pontos de interrogação no espectador. O cenário é avassalador e detalhado. São seis as personagens deste lugar no topo do que parece ser uma estância de esqui. Alguma coisa aconteceu. Estamos já a viver ao retardador as consequências dos bloqueios que impede as deslocações. Neste aparatoso espaço cenográfico, um elevador, que, regra geral, serve para fazer circular objectos e comida traz o sexteto de diversas faixas etárias. Estes hospedados, inicialmente estranhos, cumprem já uma rotina que os aproximou. Têm de lidar juntos com um isolamento que desconhecem quando vai terminar.
O babel linguístico não impede a união
Há qualquer coisa que nos recorda os tempos da pandemia. Estas pessoas têm de conviver com a incerteza do regresso a uma situação normal. São as línguas de cada um, que nem todos compreendem, que demarcam as suas origens europeias. Alguém fala alemão, uma rapariga domina o italiano, um homem tem um vincado sotaque britânico, e uma senhora faz questão de falar em francês. Para o experiente encenador Christoph Marthaler, este babel linguístico tem um chão comum de linguagem baseado em sons onomatopeicos, que todos vão lendo.
Como colectivo, os seis funcionam, ainda que existam divergências ao nível desses “problemas de tradução”. Como grupo, encontram formas de se divertir, mesmo que, vistas de fora, pareçam ridículas. O humor negro fá-los sobreviver mentalmente, uma vez que fisicamente recebem kits com comida e bebida.
Pelo ar, chegam ruídos ensurdecedores de helicópteros, que dão falsas esperanças de um eventual salvamento. Apenas deixam artigos que antecipam o que pode ser o desfecho. A certa altura, uma janela abre-se no telhado. Atiram extintores que todos se põem a encher. Porquê: no sítio onde estão o ar é rarefeito. O oxigénio tem de ser gerido. O que eles fazem é encher esta espécie de balões que servirão para um momento drástico. São ideias de cenografia e dramaturgia que sugerem a gravidade em que as personagens se encontram.
O pânico vai sendo suplantando. Aliás, nunca é sentido, uma vez que. O aviso de que a situação irá manter-se por mais 15 ou 18 anos é escutado por todos. A condenação é tão atroz que só a leveza pode ajudar a resistir. Os seis estão unidos. Prova disso é a leitura partilhada que, no final, fazem em voz alta de testemunhos que, longo dos anos, os que ali estiveram foram escrevendo. Um desses testemunhos foi escrito nessa manhã. Pode ter sido qualquer um deles. Podem ter sido todos. A união potencializa a força – contra o desespero e a depressão. Uma grande peça: o cume inventivo do que pode ser o aproveitamento metafórico, dramático e cenográfico de um acidente fatal. Uma sugestão que inquieta e nos estimula para ver mais teatro ao longo do ano.
