Na última semana, aconteceu o 16.º Seminário de Alto Nível UE-Israel sobre o combate ao anti-semitismo e a promoção da vida judaica. Sob a bandeira do anti-semitismo, mantém-se o plano da UE de proteger Israel de qualquer forma de escrutínio e penalização pelas ilegalidades e crimes que comete. A Comissão Europeia – pela voz de, entre outos, Magnus Brunner, Comissário dos Assuntos Internos e Migração, e Katharina von Schnurbein, Coordenadora para o combate ao anti-semitismo e a promoção da vida judaica – comprometeu-se, uma vez mais, a aumentar o financiamento para acções que apoiam o combate ao anti-semitismo, dirigindo-o sobretudo à sociedade civil e aos Estados-Membros. Quanto mais cai a pique a reputação de Israel, maior o apoio da Comissão Europeia para combater o anti-semitismo, como se um assunto e outro devessem ser relacionadas. O apoio europeu cresce de forma inversamente proporcional à reputação de Israel porque a União Europeia (UE) nos quer fazer crer, com a insistência de água mole em pedra dura, que repudiar as ações de Israel é ser anti-semita. A retórica que converte o anti-sionismo em anti-semitismo tem sido várias vezes rebatida, mas a UE insiste em usá-la e forçá-la junto dos Estados-Membros.
A reputação externa de Israel deteriorou-se até níveis rastejantes por razões que em nada se prendem com a sua população judaica ou mesmo com o facto de o país se auto-intitular o Estado dos judeus. Um inquérito do ano passado mostra que, em 20 de 24 países inquiridos, mais de metade dos cidadãos tem uma visão desfavorável de Israel. Este ano, em maio, os resultados de uma votação conduzida em 85 países revelou que Israel é o país menos apreciado do mundo – e com uma distância assinalável do país que ocupa o penúltimo lugar, a Coreia do Norte. Não há, hoje, melhor representante de um Estado pária. As principais razões apontadas para a má reputação de Israel são de quatro tipos, nenhum deles relacionado com a cultura e a prática do judaísmo: os conflitos militares provocados, a ocupação ilegal e expansão dos colonatos; o regime de apartheid; e a atuação do governo e parlamento israelitas. Não são os judeus aqueles que os inquiridos repudiam: são as forças militares israelitas, os colonos apoiados pelo Estado, o próprio Estado israelita, e o governo e as entidades que legitimam e efectivam a ocupação e os crimes contra o povo palestiniano e outros povos do Médio Oriente.
É só à luz da definição falaciosa de anti-semitismo da International Holocaust Remembrance Alliance (IHRA) – que se apoia em 11 exemplos de anti-semitismo, dos quais seis mencionam Israel – que se podem entender manifestações de reprovação do Estado de Israel como anti-semitas. É conhecida a pressão do lobby israelita para tentar intencionalmente confundir, de forma errada, as manifestações de ódio e discriminação de judeus com a crítica às acções de Israel e manifestações de solidariedade com a Palestina. O último Seminário de Alto Nível UE-Israel voltar a reforçar a intenção de se firmar esta confusão e continuar a fazer uso da definição da IHRA como o principal instrumento para combater o anti-semitismo, combatendo-se também, com base nesta definição, críticas ao Estado de Israel, rotulando-as precisamente – e erradamente – como manifestações de anti-semitismo.
A UE não parece incomodada com o facto de Israel e representantes seus lhe escreverem o discurso que tem de forçar junto dos seus Estados-Membros e da população europeia. Na verdade, até vem financiando quem possa fazer-lhe o trabalho. Apesar de mais de um milhão de europeus pedirem a suspensão do Acordo de Associação UE-Israel, ao abrigo do qual Israel pode aceder a financiamento europeu, a maioria dos Estados-Membros, e seguramente a Comissão Europeia, continuam a seguir a cartilha israelita. Apesar de uma auditoria do serviço diplomático da UE ter concluído que Israel tem sistematicamente violado a cláusula sobre direitos humanos do Acordo de Associação. Apesar dos milhares de europeus que, em todos os Estados Membros, saem à rua para contestar a actuação do Estado e dos colonos de Israel. Apesar das mobilizações populares pela exclusão de Israel de plataformas e eventos europeus. Apesar de uma parte significativa das universidades, centros de investigação e investigadores europeus terem cessado parcerias com entidades israelitas. Apesar de as taxas de aprovação de projetos de investigação e inovação com pelo menos um parceiro israelita terem diminuído 68,5%, no âmbito do programa de financiamento europeu Horizonte Europa, porque as entidades europeias se recusam a integrar entidades de Israel em consórcios. Apesar disto, a UE mantém o Acordo de Associação, continua a financiar entidades israelitas, e mantém abertas as vias de negociação para a participação de Israel no próximo programa-quadro (2028-2034). As discussões em torno deste último ponto são delicadas, precisamente pela pressão pública para a exclusão de Israel. Através dos programas-quadro de investigação e inovação e outros programas de financiamento, a UE torna-se cúmplice das violações do Direito Internacional e dos Direitos Humanos perpetradas por Israel, ao financiar (1) empresas cúmplices das violações de Israel e das políticas discriminatórias em relação aos palestinianos; (2) empresas militares israelitas, directamente envolvidas no genocídio em Gaza; e (3) entidades que participam na colonização e expansão de colonatos ilegais na Palestina.
Investigações jornalísticas, deputados europeus e relatórios de organizações não-governamentais já denunciaram a canalização de milhões de euros para empresas de armamento de Israel, através não apenas do programa Horizonte Europa, mas também do Fundo Europeu de Defesa. A utilização de financiamento europeu para entidades israelitas e particularmente para fins militares que contribuem para o genocídio em Gaza (que a Comissão Europeia se esforça por esconder) tem sido altamente problemática, gerando contestação por parte da sociedade civil europeia, mas igualmente grandes divergências entre trabalhadores da UE e entre os Estados-Membros (com a Irlanda, a Espanha e a Eslovénia a liderarem a campanha a favor da suspensão do Acordo de Associação, bloqueada nomeadamente pela Alemanha, Itália, Áustria e Chéquia).
Para Israel, não há dúvidas sobre o seu interesse em continuar a aceder a financiamento europeu para fins militares, preparando o terreno para a sua participação no próximo programa-quadro de 2028-2034. A organização de um “diálogo estratégico” UE-Israel (planeado para maio, mas que acabou por ainda não se concretizar) propunha, aliás, que parte da discussão se centrasse nas chamadas “tecnologias de dupla utilização”, jargão diplomático para referir tecnologias que servem tanto fins civis como militares. Como mostrou uma investigação do jornalista David Cronin, o serviço diplomático europeu (EEAS) convive pacificamente e com muita receptividade com várias propostas do lobby israelita que vão no sentido de aprofundar as relações UE-Israel também para manter, e quem sabe aumentar, o financiamento para fins militares – na verdade, a representante do serviço diplomático europeu responsável pelo Seminário de Alto Nível limitou-se a sugerir “pequenos ajustes” ao texto proposto pela organização pro-israelita que co-organizava o evento, a European Leadership Network (ELNET).
A ELNET, espécie de AIPAC para o espaço europeu (American Israel Public Affairs Committee – AIPAC, maior grupo lobista pro-Israel com actuação nos Estados Unidos), recebe grande parte do seu financiamento através de doadores privados, norte-americanos sobretudo, associados à própria AIPAC, com a finalidade de alargar e aprofundar os laços entre Israel e a Europa em matéria de defesa, segurança e economia. Esta mesma ELNET tem organizado e financiado visitas a Israel e aos Territórios Palestinianos Ocupados, bem como convívios com o exército israelita, para deputados europeus e dos Estados-Membros, nomeadamente para um grupo de deputados portugueses.
Se o programa Horizonte Europa e o Fundo Europeu de Defesa servem a Israel para desenvolver o seu armamento, o programa CERV (Citizens, Equality, Rights and Values) tem-lhe servido para tentar instituir a retórica que converte o anti-sionismo em anti-semitismo junto da sociedade civil europeia e instituições nacionais. As convocatórias do programa CERV já forçam de tal modo esta retórica que facilmente se adivinha uma mão lobista a redigi-la, uma mão semelhante à que escreveu o texto proposto pela ELNET para o Seminário de Alto Nível. Uma das entidades lobistas a beneficiarem do financiamento do programa CERV é a World Jewish Congress (WJC), que, no último ano (2025), recebeu mais de 650 mil euros de financiamento europeu. O nome da organização pode enganar: parece apenas um grupo representante da população e cultura judaica, um “braço diplomático do povo judeu”, que se ocupa com a protecção da memória do Holocausto. O seu registo de transparência junto da UE menciona, contudo, como missão da organização o “apoio ao Estado de Israel”. A WJC faz parte das organizações que nega o genocídio em Gaza. Também a organização European Jewish Congress (EJC), que considera as várias provas do genocídio em Gaza como alegações sem fundamento e distorções, recebeu mais de 200 mil euros ao abrigo do CERV. O montante anual utilizado pela EJC para acções de lobby junto da UE está estimado entre 200 a 300 mil euros, com quatro lobistas a tempo inteiro dedicados às acções.
Partindo da alegação de que o anti-semitismo tem crescido na Europa, o CERV financia projetos que combatem esse alegado crescente anti-semitismo, e uma parte dos projectos aprovados centra-se, sem surpresa, no esforço de avançar com a institucionalização da definição da anti-semitismo da IHRA, que deliberadamente confunde manifestações de oposição à actuação de Israel com manifestações de discriminação e ódio aos judeus. Um projeto coordenado pela organização CEJI – A Jewish Contribution to an Inclusive Europe, o projeto NOA – Networks Overcoming Antisemitism, tem o propósito de apoiar a elaboração de planos de acção nacionais, ao nível dos Estados-Membros, para combater o anti-semitismo. O apoio para a elaboração desses planos centra-se largamente na transmissão da definição da IHRA. Há, por exemplo, uma actividade de aprendizagem desenvolvida pelo projeto, onde aprendemos que afirmar que Israel está assente num sistema racista e de segregação é anti-semitismo. A perseguição às críticas a Israel mascara-se atrás do judaísmo. Mas também é preciso dizer que muitas instituições judaicas estão receptivas a serem esse escudo contra o escrutínio de Israel, ao abrigo da memória do Holocausto e do combate ao anti-semitismo – nas sinagogas europeias, há orações por Israel e pelo seu exército, e a grande maioria tem apoio das embaixadas israelitas nos países em que estão localizadas e de instituições israelitas como a Biblioteca Nacional de Israel.
As ações lobistas de Israel no âmbito do CERV são talvez mais audazes do que as levadas a cabo no contexto do Horizonte Europa ou do Fundo Europeu de Defesa. É que o CERV é restrito aos Estados-Membros e a um conjunto limitado de países, onde não se inclui Israel. Não obstante, se as entidades israelitas não são elegíveis, são-no todas as entidades pró-israelitas sediadas na Europa, como, por exemplo, a WJC, a EJC, a CEJI, a European Union of Jewish Students (EUJS) e a European Association for the Preservation and Promotion of Jewish Culture and Heritage (AEPJ) – que coordena o European Days of Jewish Culture, um evento anual co-organizado com a Biblioteca Nacional de Israel –, entre muitas outras.
Fazendo uso do financiamento europeu (que se constrói com receitas dos Estados-Membros e, portanto, de todos os cidadãos europeus), Israel vai inculcando a sua retórica, vincando as suas necessidades e vontades, tentando inocentar-se dos crimes que comete, e evitando qualquer forma de escrutínio e penalização. Ao Estado de Israel, podem lavar-lhe a cara, mostrar-nos os seus representantes bem-parecidos em Seminários de Alto Nível, podem fazê-los parecer civilizados ao estilo que a bolha de Bruxelas mais aprecia, mas a uma – cada vez maior – parte dos europeus o que mais salta à vista é o sangue escarlate que lhes escorre das mãos.
Catarina Milhazes é consultora de cooperação internacional e membro do coletivo Parents for Peace Portugal
