Junto à mesa do comício, pousava um senhor comissário da polícia. Um dos primeiros a discursar foi o advogado de defesa de uma série de operários que a “liberal” 1ª República tinha deportado para África. A seguir a ele, falou o operário gráfico António Costa. E este atreveu-se a criticar o recente assalto da polícia à sede da sua federação sindical.
Pois nesse momento o seu discurso foi interrompido pelo tal senhor comissário da polícia. O qual “preveniu a mesa de que encerraria o comício se o orador continuasse a falar nos termos em que o estava fazendo”. Ali perto, estavam “pelotões de cavalaria e forças de polícia” prontos a “intervir” [O Século, 03/05/1926].
Mário Castelhano e José de Sousa
Depois de encaixar a ameaça policial, o comício do 1º de Maio lá continuou. Nele ainda discursaram dois futuros prisioneiros do Tarrafal. Esse campo de concentração que, dez anos depois, uma ditadura de tipo fascista iria criar em Cabo Verde.
Dois sindicalistas a não esquecer: Mário Castelhano que no Tarrafal morreria com apenas 44 anos de idade; e José de Sousa, que no Tarrafal sobreviveria a 9 anos de cativeiro.
Fabrizio Maffi
Em 1926 já se falava de fascismo na Europa. Mas, segundo Jean Mérot, ainda era um conceito “vago, fluído, incerto”. Era uma palavra que servia “para designar as formas mais reacionárias do poder capitalista, da «ditadura burguesa»”. Mas sem haver ainda uma noção clara da sua diferença e do perigo que representava para a classe trabalhadora [Mérot (1972), Dimitrov, un révolutionnaire de notre temps, pp.95/6].
Em Itália, há 4 anos que vigorava um governo fascista. E o ano de 1926, o médico Fabrizio Maffi iria terminá-lo como preso político. Mas, no dia 1º de Maio? Ainda discursou no parlamento de Roma como deputado comunista. E ali criticou abertamente a crescente violência do governo chefiado por Benito Mussolini.
Na cara do ministro do Interior, Maffi denunciou que já era comum cidadãos italianos serem presos por terem cartão de militante do Partido Comunista. Quando este ainda não tinha sido ilegalizado [Atti del Parlamento Italiano – Discussioni della Camera dei Deputati, 1924 – 1926, (Vol. VI), p.5506].
Georgi Dimitrov
As crises do capitalismo e do liberalismo, depois da 1ª Guerra Mundial (1918) e da queda da bolsa de Nova Iorque (1929), foram cenário para uma variedade de regimes fascistas na Europa.
Dentro da tradição marxista, uma análise dessa variedade é a intervenção de Georgi Dimitrov no 4º congresso da Internacional Sindical Vermelha, em 1928.
Dimitrov considera que, naquele contexto, a burguesia “não consegue conter as massas populares sob a sua hegemonia de classe”, e ao mesmo tempo fazê-las pagar o custo da “estabilização capitalista”, por meio dos “métodos e formas da democracia parlamentar”. Pelo que procura a “submissão das massas por intermédio do fascismo”.
A nível ideológico, utilizando “sobretudo as ideias do nacionalismo e do chauvinismo” mas também opondo “os trabalhadores locais aos que vêm de outros países”. Enquanto a nível repressivo, a “necessidade vital” é “destruir o movimento sindical de classe”. Como Salazar faria em Portugal, no final de 1933.
Dimitrov aponta que a passagem de um país ao fascismo pode acontecer “duma ou doutra forma, por golpe de estado ou por via pacífica, mais brutal ou mais suave”. A seu ver, “os métodos de transição não são essenciais e dependem das particularidades” do país em questão, da sua “estrutura social” e da “relação das forças políticas e de classe”.
Focando os países balcânicos, aponta-lhes características estruturais semelhantes ao Portugal da época, sendo “essencialmente agrícolas e com uma indústria relativamente fraca”.
Dimitrov considera que as “condições específicas” desses países “conferem ao fascismo características particulares”. Em contraste com o caso italiano, ali o fascismo não surge “a partir de baixo, por meio de um movimento de massas, mas ao contrário, a partir de cima”. Apoia-se “no controlo do poder de Estado, nas forças militares da burguesia e no poder financeiro do capital bancário” [Dimitrov (1972), Selected Works (vol.1), pp. 302-306].
Em Portugal, a transição para um regime fascista passou pela ditadura militar saída do 28 de Maio de 1926. No acabar com o parlamentarismo, até foi uma via mais radical do que a italiana. Pois fê-lo de imediato.
Quatro civis
Celebrado desde 1890, o 1º de Maio também é um dia de memória histórica. Logo de início, presta homenagem aos «mártires de Chicago»: oito sindicalistas norte-americanos que, em 1886, foram presos quando lutavam pelo horário de trabalho das 8 horas. E rapidamente condenados à morte, sob uma acusação falsa.
Em Lisboa, era tradição no 1º Maio homenagear José Fontana, fundador (em 1872) do primeiro protótipo de uma central sindical em Portugal – a «Fraternidade Operária».
Falando-se aqui da ditadura militar, recorde-se o 1º de Maio lisboeta de 1931. Até parecia que iria decorrer “sem nenhum incidente”. Mas, pelas 16 horas, a GNR e a PSP atacaram uma pacífica concentração “de muitas centenas de pessoas” na Praça do Rossio [Diário de Lisboa, 02/05/1931].
E mataram a tiro quatro civis: Armando Gomes, 23 anos, empregado no comércio; José Pereira, 30 anos, servente de pedreiro; Luís Correia, 34 anos, empregado de escritório; e Manuel Coelho, 47 anos, comerciante.
