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A potente “Romaria” de Marina na busca pela sua história de vida

“Romaria”, terceira longa-metragem da realizadora espanhola Carla Simón, acompanha Marina (excelente Llúcia Garcia) na tentativa de conhecer o passado dos seus pais, e, com isso, escrever a biografia dos seus primeiros anos.

O filme está em exibição nas salas de cinema nacionais. Vale a pena ser visto.

Começamos por ver imagens de uma câmara doméstica. Uma voz relata que viveu num prédio, que vemos e se destaca na paisagem da cidade galega de Vigo. Não são palavras da jovem, mas da sua mãe. Marina anda com o diário dela, e procura nele pistas sobre o pai, Fon, de quem não tem recordações, uma vez que morreu quando ela era bebé.

A angústia calada e combativa de Marina

A solidão desta rapariga é evidente. Vem do vazio da ausência da maternidade e paternidade. O que quer é que a família de Fon a assuma e a registe, para que consiga assim concorrer a uma bolsa de estudo. E disso não desiste, ainda que seja angustiante sentirmos que está muito desacompanhada nesta caminhada.

Os percursos do filme deambulam como a protagonista. Entre a voz da mãe e a leitura de entradas diarísticas (anteriores ao nascimento de Marina), e as buscas pela cidade e junto da família paterna – na tentativa da reconstituição do passado, e com isso da sua identidade.

Marina aproxima-se de uma família que desconhecia. Questiona tios e avós sobre a doença e morte do pai. O tabu é maior do que a sua curiosidade, mas a rapariga não se contenta com segredos e certos olhares das pessoas do seu sangue. Marina apareceu e veio desestabilizar um certo status quo daquelas pessoas, que primam pelas aparências e se escondem atrás de um determinado estatuto burguês.

A protagonista caminha na sua viagem emocional, e desvela aqueles que foram os derradeiros dias dos dois progenitores em Vigo. A presença dos diários da mãe possibilita a Marina completar e contradizer as informações que avós e tios paternos lhe vão dando a narrativa completa daqueles idos anos 80.

“Romaria” entra numa zona onírica. A realizadora toma esta opção narrativa para, precisamente, reforçar a relação da mãe e do pai, toxicodependentes que acabaram por se isolar e destruir por causa da dependência. É um terceiro acto que tanto lembra o idílio da ilha sueca em “Mónica e o Desejo”, de Ingmar Bergman, como é de um realismo assustador, uma vez que acompanhamos a degradação do casal, cuja união apenas existe por causa da droga.

Marina precisa de “ver” e encontrar os pais nas imagens que são, talvez criações internas suas, para absorver o destino e ausência deles na sua vida. É uma libertação e o início do luto. É por isso que Carla Simón fecha o círculo da demanda da jovem com o que ela pretendia ao chegar a Vigo. Um novo capítulo da vida e a entrada no mundo adulto começam para Marina, depois de escrita uma parte fundamental da sua existência. Um filme lúcido sobre a força de uma rapariga para conhecer quem é. Um retrato potente de uma época, os 80 do século passado, e de um dos grandes flagelos que abalou cidadãos e famílias também em Portugal.

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